Ciência

Jornalista visita Chernobyl 40 anos após desastre e encontra zona entre ciência e guerra

Reportagem mostra como a zona de exclusão segue ativa e estratégica

Chernobyl: área do reator 4 segue isolada e monitorada 40 anos após o acidente. (Kyrylo Chubotin/Ukrinform/NurPhoto via Getty Images)

Chernobyl: área do reator 4 segue isolada e monitorada 40 anos após o acidente. (Kyrylo Chubotin/Ukrinform/NurPhoto via Getty Images)

Publicado em 19 de abril de 2026 às 15h34.

Quatro décadas após o acidente nuclear de 1986, o jornalista Matthew Sparkes, da New Scientist, percorreu a zona de exclusão de Chernobyl e encontrou um cenário que mistura recuperação ambiental, riscos invisíveis e os impactos diretos da guerra com a Rússia.

O local do desastre — iniciado às 1h23 de uma madrugada durante um teste de segurança — continua marcado por contaminação radioativa de longa duração.

Elementos como césio-137 e estrôncio-90 ainda persistem no ambiente, enquanto materiais mais perigosos, como urânio e plutônio, seguem ativos por milhares de anos.

Mesmo assim, a percepção de risco nem sempre corresponde à realidade. Segundo especialistas ouvidos na reportagem, grande parte da zona já apresenta níveis de radiação comparáveis a outras regiões do mundo.

Vida, ciência e guerra na zona de exclusão

A visita revela um território longe de ser abandonado. Cientistas ainda monitoram o ambiente e estudam os efeitos da radiação, enquanto uma pequena população — formada por moradores que retornaram após o desastre — segue vivendo na região.

A área, no entanto, ganhou uma nova camada de complexidade desde a invasão russa à Ucrânia, em 2022. Tropas ocuparam Chernobyl, destruíram laboratórios, saquearam equipamentos e cavaram trincheiras em áreas contaminadas.

Hoje, minas terrestres, bases militares e ataques com drones dificultam tanto a pesquisa quanto a gestão do local. Um episódio recente agravou a situação: um drone russo atingiu a estrutura de contenção do reator 4 — conhecida como “Novo Confinamento Seguro” — danificando parte do projeto que deveria garantir segurança por décadas.

O legado que ainda não terminou

Apesar dos riscos, Chernobyl também se tornou um laboratório único. A ausência humana favoreceu o retorno da vida selvagem, com espécies como lobos, alces e cavalos ocupando a região.

Pesquisadores usam o local para estudar os efeitos da radiação em ecossistemas, testar tecnologias e preparar respostas para futuros acidentes nucleares. A experiência acumulada ali já foi aplicada, por exemplo, em Fukushima.

Ainda assim, o futuro é incerto. A guerra atrasou planos de descomissionamento do reator, elevou custos e reduziu o número de cientistas na área.

Para os especialistas, Chernobyl deixou de ser apenas um símbolo de desastre e passou a representar um campo estratégico de conhecimento — onde ciência, política e risco coexistem.

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