Repórter
Publicado em 8 de setembro de 2026 às 13h58.
A exposição ao tetracloroetileno (PCE), substância química usada em lavanderias a seco e presente em alguns produtos de consumo, foi associada a uma probabilidade três vezes maior de fibrose hepática significativa, segundo um estudo publicado na revista Liver International.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Keck Medicine da USC, analisou a relação entre a presença de PCE no sangue e danos ao fígado. O composto é um líquido sintético e incolor capaz de dissolver gordura e pode ser encontrado em adesivos para artesanato, removedores de manchas e polidores de aço inoxidável, além de aplicações industriais.
A fibrose hepática ocorre após lesões repetidas no fígado, que provocam o acúmulo de tecido cicatricial no órgão. Em estágios mais avançados, essa cicatrização pode comprometer o funcionamento do fígado e contribuir para insuficiência hepática, câncer de fígado ou morte.
Os pesquisadores identificaram também uma relação entre a concentração da substância no organismo e a ocorrência da doença: quanto maior o nível de PCE no sangue, maior foi a probabilidade de fibrose hepática significativa."Este estudo, o primeiro a examinar a associação entre os níveis de PCE em humanos e a fibrose hepática significativa, destaca o papel pouco relatado que os fatores ambientais podem desempenhar na saúde do fígado", disse Brian P. Lee, hepatologista e especialista em transplante de fígado da Keck Medicine e principal autor do estudo. "As descobertas sugerem que a exposição ao PCE pode ser a razão pela qual uma pessoa desenvolve doença hepática enquanto outra com o mesmo perfil de saúde e demográfico não a desenvolve."
Doenças hepáticas costumam estar relacionadas a fatores como consumo excessivo de álcool, acúmulo de gordura no fígado associado à obesidade, diabetes e colesterol alto, além de infecções pelos vírus das hepatites B e C. O estudo acrescenta a exposição ambiental ao PCE entre os fatores que precisam ser investigados em pesquisas sobre danos ao fígado.
Uma das formas de contato com o PCE ocorre pela inalação. Roupas submetidas à lavagem a seco podem liberar pequenas quantidades do composto no ar ao longo do tempo.
A substância também pode alcançar a água potável. Derramamentos e descarte inadequado podem fazer com que o PCE atravesse o solo e chegue às águas subterrâneas, o que cria outra possível fonte de exposição para a população.
Os efeitos do composto sobre a saúde já são alvo de pesquisas. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classifica o PCE como provável carcinógeno e relaciona sua exposição ao câncer de bexiga, mieloma múltiplo e linfoma não Hodgkin. Segundo Lee, trabalhos anteriores também encontraram associação entre a substância e maior risco de câncer de fígado.
Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) iniciou um programa para eliminar gradualmente o uso de PCE em lavanderias a seco ao longo de dez anos. A agência proibiu determinados usos da substância e estabeleceu medidas de proteção para trabalhadores em outras atividades.
O composto, no entanto, ainda pode estar presente em produtos e processos industriais, sobretudo em países sem restrições equivalentes.
Para investigar a relação entre a exposição e os danos hepáticos, os pesquisadores recorreram a informações da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (NHANES), levantamento representativo da população dos Estados Unidos.
A análise considerou amostras de sangue de pessoas com 20 anos ou mais coletadas entre 2017 e 2020, período mais recente para o qual estavam disponíveis os dados necessários para o estudo. Cerca de 7% da população analisada apresentava níveis detectáveis de PCE no sangue.
Ao comparar os grupos, a equipe constatou que participantes com PCE detectável tinham três vezes mais probabilidade de apresentar fibrose hepática significativa do que aqueles sem exposição detectável. A associação permaneceu após os pesquisadores considerarem diferenças de idade, sexo, raça, etnia e escolaridade.
A renda também apareceu relacionada à exposição. Pessoas pertencentes a famílias de renda mais alta apresentaram maior probabilidade de ter PCE detectável no organismo.
"Pessoas com renda mais alta podem ter maior probabilidade de usar serviços de lavanderia a seco, o que poderia aumentar sua exposição ao PCE", disse Lee. "No entanto, pessoas que trabalham em lavanderias a seco também podem enfrentar um risco elevado devido à exposição direta e prolongada ao PCE no trabalho."
A análise das concentrações sanguíneas mostrou outra diferença. A cada aumento de um nanograma por mililitro de PCE no sangue, a probabilidade de fibrose hepática significativa aumentou cinco vezes. Um nanograma corresponde a um bilionésimo de grama.
Os pesquisadores também avaliaram se fatores tradicionalmente relacionados às doenças hepáticas poderiam explicar os resultados observados entre participantes com PCE detectável.
O consumo de álcool e o acúmulo de gordura no fígado associado à obesidade e a outras condições de saúde não explicaram a ocorrência de fibrose hepática significativa nesse grupo, segundo a pesquisa. O resultado coloca as exposições ambientais entre os fatores a serem avaliados em casos nos quais as causas habituais não são identificadas.
"Os pacientes perguntam: 'Como posso ter doença hepática se não bebo e não tenho nenhuma das condições de saúde tipicamente associadas a ela?' A resposta pode ser a exposição ao PCE", disse Lee.
O estudo identificou uma associação, mas não estabeleceu que a exposição ao PCE cause diretamente fibrose hepática. Os pesquisadores apontam que a relação observada e a variação do risco conforme a concentração sanguínea justificam novas análises sobre o papel de substâncias químicas ambientais na saúde do fígado.
Lee defende que estudos posteriores avaliem outros compostos presentes no ambiente e seus possíveis efeitos hepáticos.
"Sem dúvida, existem outras toxinas em nosso ambiente, além do PCE, que são perigosas para o fígado", afirmou.
Os pesquisadores também apontam a possibilidade de que estudos futuros contribuam para avaliar estratégias de rastreamento entre pessoas expostas ao composto, inclusive na ausência de fatores tradicionalmente associados às doenças hepáticas.
"Esperamos que nossa pesquisa ajude tanto o público quanto os médicos a compreender a ligação entre a exposição ao PCE e a fibrose hepática significativa", disse ele. "Se mais pessoas expostas ao PCE passarem por exames de rastreamento para fibrose hepática, a doença poderá ser detectada mais cedo, e os pacientes terão maiores chances de recuperar a função hepática", acrescentou Lee.