Violência: o ano de 2025 viu recordes no número de conflitos ativos, seja entre estados ou por grupos não estatais (Paula Bronstein / Staff)
Repórter
Publicado em 10 de junho de 2026 às 11h48.
Um novo relatório do Instituto de Pesquisa pela Paz de Oslo (Prio, na sigla em inglês) mostra uma tendência global preocupante: desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o ano de 2025 foi o que registrou o maior número de conflitos armados.
Segundo o estudo, chamado Conflict Trends, o ano passado registrou 65 conflitos armados que envolvem Estados nacionais em 35 países e cerca de 245 mil mortes como consequência direta de combates, o maior número desde 1946. O estudo nota que, apesar do alto número, a cifra não inclui mortes decorrentes de consequências indiretas do combate, como a falta de infraestrutura, de acesso à saúde ou de segurança alimentar."Vale destacar que a diferença entre o número de conflitos e o número de países em conflito aumentou na última década, indicando um crescimento no número de países que abrigam múltiplos conflitos simultaneamente, como Mianmar, com cinco conflitos civis, e Israel, com dois conflitos civis e três conflitos internacionais", escreve a autora do estudo, Siri Aas Rustad.
"Além disso, vários países abrigam mais de três conflitos, como Afeganistão, Camarões, Mali, Nigéria e Paquistão. Apenas 16 dos 35 países em conflito registram um único conflito."
Os pesquisadores atribuem a tendência a um cenário geopolítico incerto, polarizador e tenso, marcado por diversas crises em todo o globo e por menor cooperação entre as potências, com a autora realçando as posições americanas recentes, como a guerra no Irã, como um fator importante por trás da situação.

Por sua vez, esse cenário global se traduz em um aumento preocupante de conflitos diretos entre países: em 2025, foram registrados oito — o dobro em relação ao ano anterior e um novo recorde em 80 anos.
"Essa tendência reflete uma crescente tensão no mundo, em que o protecionismo e a agressão estão se tornando cada vez mais comuns", diz Rustad, que também nota que o cenário atual apresenta um nível elevado e pouco usual de conflitos simultâneos e contínuos em todo o mundo.
O estudo também busca entender o que classifica como "violência unilateral", ou o uso de força armada contra civis — por parte do governo de um Estado ou de um grupo formalmente organizado — que resulte em pelo menos 25 mortes relacionadas a combates por ano.
Segundo os pesquisadores, esses conflitos levaram a 76,5 mil mortes em 2025, um aumento considerado preocupante em relação às cerca de 14 mil mortes do ano anterior. Esse é o maior número desde o genocídio de Ruanda em 1994, aponta o insituto, que destacou as intensas ondas de violência no Sudão como o principal fator — massacres no país teriam causado até 60 mil mortes.
Mesmo fora do país, a tendência de violência conduzida por grupos não estatais também é preocupante: em 2025, foram registrados 75 desses conflitos.
Apesar de o número ser uma leve queda em relação aos 79 do ano anterior, o dado sugere que esse tipo de violência está mais estabilizada e entrincheirada em países do que há uma década. Esses conflitos, aponta o instituto, resultaram em aproximadamente 14,5 mil mortes diretamente relacionadas ao combate entre atores não estatais no ano passado.
A maior parte desse tipo de violência vem da África e das Américas, onde organizações jihadistas e cartéis do narcotráfico protagonizam os conflitos, respectivamente. Por sua vez, países na Europa e na Ásia reportam níveis relativamente baixos de violência não estatal.
O estudo aponta ainda que, "nas Américas, os conflitos não estatais tendem a envolver atores altamente organizados, enquanto na África, os conflitos comunitários são mais comuns".
O instituto utiliza uma metodologia própria de classificação dos conflitos. Entenda as definições:
Conflito baseado no Estado (State-based conflict): incompatibilidade contestada em relação ao governo e/ou ao território, na qual pelo menos uma das partes é um Estado e o uso da força armada resulta em pelo menos 25 mortes relacionadas a combates dentro de um ano-calendário.
Conflito não estatal (Non-state conflict): uso da força armada entre grupos organizados, nenhum dos quais é o governo de um Estado, resultando em pelo menos 25 mortes relacionadas a combates em um ano.
Violência unilateral (One-sided violence): uso da força armada contra civis — por parte do governo de um Estado ou de um grupo formalmente organizado — que resulte em pelo menos 25 mortes relacionadas a combates por ano. Estão excluídas as execuções extrajudiciais ocorridas sob custódia.
Mortes relacionadas a combates (Battle-related deaths): fatalidades causadas pelas partes em conflito que podem ser diretamente associadas aos combates, incluindo perdas civis.
Guerra (War): conflito ou díade (par de atores em conflito) que registra pelo menos 1.000 mortes relacionadas a combates em um ano-calendário.