Ciência

Como lobos de 5 mil anos podem reescrever a história da domesticação dos cães

Restos encontrados em uma ilha do Mar Báltico sugerem convivência próxima entre humanos e lobos durante a pré-história

Lobos: descoberta em uma ilha do Mar Báltico pode mudar o entendimento sobre a domesticação dos cães (Freepik)

Lobos: descoberta em uma ilha do Mar Báltico pode mudar o entendimento sobre a domesticação dos cães (Freepik)

Publicado em 9 de julho de 2026 às 09h19.

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Restos de lobos encontrados em uma pequena ilha da Suécia estão levando cientistas a rever o que se sabe sobre a relação entre humanos e esses animais na pré-história. As evidências indicam que os lobos viviam próximos de comunidades humanas há cerca de 5 mil anos, eram alimentados por elas e podem até ter recebido cuidados, mesmo sem apresentarem características genéticas de cães domesticados.

As conclusões são de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Estocolmo, do Instituto Francis Crick, da Universidade de Aberdeen e da Universidade de East Anglia. Os resultados foram publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Por que a descoberta surpreendeu os cientistas?

Os fósseis foram encontrados na caverna de Stora Förvar, um importante sítio arqueológico localizado na ilha de Stora Karlsö, no Mar Báltico. O local tem apenas 2,5 quilômetros quadrados e não abriga mamíferos terrestres nativos.

Como lobos não conseguiriam chegar naturalmente a uma ilha isolada desse porte, os pesquisadores concluíram que eles provavelmente foram transportados de barco por grupos humanos que ocupavam a região durante o Neolítico e a Idade do Bronze.

Segundo os autores, apenas esse fato já torna a descoberta incomum e aponta para uma relação intencional entre pessoas e os animais.

Evidências de convivência com humanos

Para os resultados, a equipe analisou os restos de dois canídeos e confirmou, por meio de testes genéticos, que ambos eram lobos, sem sinais de cruzamento com cães. Apesar disso, outros indícios sugerem uma convivência estreita com as comunidades humanas.

Análises isotópicas mostraram que os animais consumiam grandes quantidades de peixes e focas, uma dieta praticamente idêntica à das pessoas que habitavam a ilha. Para os pesquisadores, isso indica que os lobos provavelmente eram alimentados pelos próprios humanos.

Os animais também apresentavam porte menor que o observado em lobos do continente, e um deles possuía diversidade genética extremamente baixa, característica frequentemente observada em populações isoladas ou submetidas a algum tipo de manejo.

Além disso, um dos exemplares revelou outro detalhe que chamou a atenção da equipe. O animal apresentava uma lesão grave em um dos membros, suficiente para comprometer sua capacidade de caçar. Ainda assim, sobreviveu por tempo suficiente para que o osso cicatrizasse parcialmente.

Segundo os pesquisadores, esse achado levanta a possibilidade de que o lobo tenha recebido algum tipo de cuidado humano ou vivido em condições nas quais não precisava depender exclusivamente da caça para sobreviver. Embora essa hipótese não possa ser confirmada, ela reforça a ideia de uma convivência mais próxima do que se imaginava.

O que isso muda na história da domesticação?

Tradicionalmente, a relação entre humanos e lobos é interpretada como parte do longo processo que levou ao surgimento dos cães domésticos. Os novos resultados, porém, sugerem que essa história pode ter sido mais complexa.

Para os autores, algumas comunidades pré-históricas podem ter criado, alimentado ou manejado lobos sem que eles passassem por um processo completo de domesticação.

Isso indica que diferentes formas de convivência entre humanos e lobos podem ter existido ao longo da pré-história, muitas delas sem deixar descendentes diretos entre os cães atuais.

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