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Flagrada mais de 700 vezes nas áreas monitoradas de São Paulo, a onça-pintada é uma das espécies cuja presença na Mata Atlântica é considerada rara (Kim Schandorff/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 30 de maio de 2026 às 14h00.
Última atualização em 31 de maio de 2026 às 15h58.
Um dos biomas mais devastados do planeta dá sinais de recuperação em São Paulo.
A Mata Atlântica, que perdeu 88% de sua cobertura original no Brasil, registrou simultaneamente dois resultados bastante promissores no estado: queda expressiva no desmatamento e recorde no monitoramento de fauna silvestre.
É o que revelam dados da Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), e obtidos em primeira mão pela EXAME: a plataforma Monitora Bio SP identificou mais de 116 mil registros individuais de animais em unidades de conservação.
Já o Atlas da Mata Atlântica, produzido pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o INPE, aponta redução de 29% na supressão de vegetação nativa entre 2024 e 2025, quando o estado passou de 49 para 35 hectares desmatados no período, e zerou a perda de manguezais e restingas.
O sinal mais concreto dessa recuperação, no entanto, não está nos hectares preservados, mas nos animais que voltaram a circular depois de muito tempo.
O muriqui-do-sul, maior primata das Américas e um dos mais ameaçados da Mata Atlântica, teve 1.340 indivíduos monitorados e 253 avistamentos registrados entre 2023 e 2026, nas regiões do Vale do Ribeira e da Serra do Mar.
A onça-pintada — espécie dependente de grandes extensões contínuas de floresta — acumulou mais de 700 registros individuais nas áreas monitoradas.
As queixadas, animais-chave na dispersão de sementes e na regulação da floresta, saltaram de 4,4 mil para mais de 16 mil registros entre 2023 e 2025, crescimento de 264%. As antas ultrapassaram 14 mil ocorrências no mesmo período.
Entre as demais espécies monitoradas estão lobo-guará, cachorro-vinagre, raposinha-do-campo, cervo-do-pantanal, mico-leão-preto, mico-leão-da-cara-preta e outros felinos silvestres.
Somente no recorte da Mata Atlântica paulista, o programa contabilizou mais de 43 mil registros independentes de mamíferos e mais de 74 mil registros individuais de animais.
Esses animais têm em comum a sensibilidade à fragmentação florestal e é aí que entram os corredores ecológicos. Mantidos pelas unidades de conservação paulistas, eles permitem que espécies como onça, anta e muriqui circulem, encontrem parceiros reprodutivos e mantenham populações geneticamente viáveis.
A presença simultânea de onças, antas, muriquis e queixadas em uma mesma paisagem é considerada rara na Mata Atlântica atual e funciona, para os pesquisadores, como "termômetro da saúde ecológica" do bioma.
Com o fortalecimento da base científica, algumas espécies já apresentam reclassificações positivas no estado.
O Monitora Bio SP opera desde 2022 e ampliou sua cobertura de 38 para 48 unidades de conservação entre 2023 e 2026. E
Essas áreas integram uma rede de 157 unidades administradas pela Fundação Florestal, que somam quase 5 milhões de hectares e representam cerca de 20% do território paulista.
São Paulo possui hoje 2,3 milhões de hectares de remanescentes preservados da Mata Atlântica, a segunda maior área absoluta do bioma no Brasil.
Os dados produzidos pelo programa já alimentam a atualização da Lista Estadual de Espécies Ameaçadas e os Planos de Ação Nacional (PANs), instrumentos que orientam políticas de conservação a nível nacional.
Para os especialistas envolvidos, a combinação entre proteção territorial, conectividade florestal e monitoramento científico contínuo explica por que um bioma tão pressionado ainda consegue sustentar fauna de grande porte e detacam por que escalar esse modelo pode ser decisivo para o futuro da biodiversidade brasileira.