Lua: países discutem um horário de referência para futuras missões no satélite (Nasa/Divulgação)
Redatora
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 11h24.
Uma diferença quase imperceptível pode se tornar decisiva na futura exploração da Lua. Relógios lunares passam mais rápido que os da Terra, e países discutem a criação de um horário padrão para o satélite.
Segundo o Financial Times, os países devem votar em outubro uma proposta para estabelecer uma referência comum de tempo lunar. A iniciativa ganhou importância com o avanço dos projetos de exploração e de construção de estruturas na Lua.
O Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM) aparece como candidato para coordenar esse padrão. A instituição já participa da definição de referências internacionais de medição, incluindo o Tempo Universal Coordenado (UTC) usado na Terra.
A diferença está relacionada à relatividade geral, teoria formulada por Albert Einstein. A gravidade altera a passagem do tempo, fazendo com que relógios em ambientes gravitacionais diferentes avancem em ritmos distintos.
Na Lua, onde a gravidade é menor que na Terra, o efeito faz o tempo passar um pouco mais rápido. Segundo cálculo aproximado do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), uma pessoa que permanecesse 30 anos na Lua seria cerca de 0,629 segundo mais velha do que alguém que ficasse na Terra durante o mesmo período.
No dia a dia, essa diferença não seria percebida. Ainda segundo o NIST, o problema aparece quando sistemas precisam trabalhar com medições extremamente precisas.
O tempo lunar passa cerca de 57 microssegundos por dia mais rápido que o terrestre. Pode parecer pouco, mas sistemas de navegação e comunicação dependem de marcações de tempo muito precisas. Ondas de luz percorrem cerca de 17 quilômetros durante esse intervalo.
Uma diferença acumulada poderia afetar cálculos de posição. Em uma missão espacial, isso poderia significar determinar incorretamente o local de uma nave ou de um astronauta.
A sincronização também é importante para futuras redes de comunicação na Lua, que precisarão coordenar sinais sem que eles interfiram uns nos outros.
A criação desse sistema se tornou mais importante diante do avanço dos programas espaciais. Estados Unidos e China planejam enviar astronautas à Lua nos próximos anos, além de desenvolver projetos de longo prazo para instalações no satélite.
A Nasa também estuda uma arquitetura chamada LunaNet para serviços de comunicação e navegação lunares. O projeto envolve parcerias com a Agência Espacial Europeia, a Agência de Exploração Aeroespacial do Japão e empresas privadas.
Sem uma referência comum, diferentes sistemas poderiam operar com padrões incompatíveis. Um horário lunar coordenado busca evitar esse problema antes que novas missões e equipamentos sejam implantados.
A discussão não se limita à Lua. Segundo o BIPM, destacado pelo jornal, o sistema criado para o satélite poderia, no futuro, servir de referência para outros corpos celestes. A proposta, portanto, pode representar o primeiro passo para padronizar a medição do tempo em diferentes pontos do espaço.