Abelhas: descoberta representa a primeira evidência conhecida de ninhos construídos dentro de ossos de animais (Freepik)
Redatora
Publicado em 8 de julho de 2026 às 09h18.
Há cerca de 20 mil anos, abelhas solitárias utilizavam cavidades dentárias de ossos deixados por mamíferos para construir pequenos ninhos e criar seus filhotes. A descoberta, feita em uma caverna no Caribe, revela um comportamento inédito desses insetos e amplia o conhecimento sobre as estratégias de sobrevivência adotadas em ambientes pré-históricos.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Field Museum, da Universidade da Flórida e de outras instituições internacionais. A pesquisa, publicada na revista Royal Society Open Science, ajuda a reconstruir como era o ecossistema da região durante a última Era do Gelo.
Os fósseis foram descobertos na caverna Stora Förvar, na ilha de Hispaniola, no Caribe, um sítio conhecido por preservar um grande número de restos de animais.
Segundo os pesquisadores, durante milhares de anos corujas ocuparam a caverna e regurgitavam pelotas contendo ossos de suas presas. Com o tempo, esses restos se acumularam no solo e permaneceram preservados.
Enquanto analisava mandíbulas fossilizadas de pequenos mamíferos, o pesquisador Lazaro Viñola López percebeu que algumas cavidades onde antes havia dentes apresentavam estruturas lisas e incomuns, diferentes dos sedimentos normalmente encontrados em fósseis.
A aparência chamou atenção porque lembrava os ninhos construídos por algumas espécies atuais de abelhas e vespas solitárias.
Para investigar a origem dessas estruturas sem danificar os fósseis, a equipe utilizou tomografia computadorizada. As imagens revelaram pequenas câmaras de barro preservadas no interior dos alvéolos dentários. Em alguns casos, os pesquisadores encontraram até grãos de pólen fossilizados, que teriam sido armazenados pelas abelhas como alimento para as larvas.
Segundo o estudo, os ninhos mediam menos que a borracha de um lápis e provavelmente eram construídos com uma mistura de terra e saliva. Os autores acreditam que utilizar cavidades protegidas dentro dos ossos oferecia vantagens às abelhas, reduzindo a exposição dos ovos a predadores e às condições ambientais.
Pesquisadores encontraram ninhos de abelhas preservados dentro de alvéolos dentários de mamíferos - Foto: Lazaro Viñola López (Lazaro Viñola López)
Os pesquisadores sugerem que o ambiente da ilha favoreceu esse comportamento. A região possui solo raso sobre rochas calcárias, o que limita os locais disponíveis para espécies que costumam construir ninhos subterrâneos.
Ao mesmo tempo, a atividade contínua das corujas deixou grande quantidade de ossos espalhados pela caverna, oferecendo inúmeras cavidades prontas para serem ocupadas.
Embora os cientistas não tenham encontrado corpos fossilizados das abelhas, as características dos ninhos foram suficientes para descrever um novo icnofóssil — vestígios de comportamento preservados em rochas e fósseis.
A estrutura recebeu o nome Osnidum almontei, em homenagem ao paleontólogo Juan Almonte Milan, responsável por identificar e estudar a caverna ao longo de décadas.
As análises genéticas não foram possíveis porque nenhum inseto foi preservado, o que impede identificar qual espécie construiu os ninhos. Os autores afirmam que as abelhas podem pertencer tanto a uma espécie ainda existente quanto a uma linhagem extinta, já que muitos dos mamíferos encontrados na caverna desapareceram ao longo do tempo.
Para os pesquisadores, o principal resultado do estudo é revelar um comportamento nunca registrado anteriormente.
Segundo a equipe, trata-se da primeira evidência conhecida de abelhas utilizando ossos de animais como locais de nidificação, mostrando que esses insetos exploravam recursos incomuns disponíveis no ambiente e adaptavam suas estratégias reprodutivas às condições do ecossistema pré-histórico.