Enxaqueca: pesquisadores revelam que a doença neurológica pode causar sintomas além da dor (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)
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Publicado em 25 de julho de 2026 às 13h35.
Durante muito tempo, a enxaqueca foi atribuída a alterações nos vasos sanguíneos, fatores emocionais e até traços de personalidade. Hoje, porém, a ciência descreve a condição como uma doença neurológica complexa, resultado da ativação de circuitos específicos do cérebro responsáveis pela percepção da dor. Esse avanço também levou ao desenvolvimento de uma nova geração de medicamentos.
As descobertas foram publicadas no The Guardian, baseada em evidências científicas acumuladas na última década sobre os mecanismos da doença.
Segundo os pesquisadores citados pelo jornal, compreender como a enxaqueca se desenvolve ajudou a derrubar antigos mitos e a criar tratamentos direcionados.
A enxaqueca pertence ao grupo das chamadas cefaleias primárias, ou seja, dores de cabeça que não são provocadas por outra doença, como um tumor, meningite ou acidente vascular cerebral (AVC).
Atualmente se sabe que as crises começam com a ativação do sistema trigeminovascular, uma rede formada por nervos e vasos sanguíneos responsável por transmitir sinais de dor na cabeça. Quando esse sistema é ativado, ocorre a liberação do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), molécula que desencadeia uma cascata de sinais dolorosos no cérebro.
Segundo Alexandra Sinclair, professora de neurologia da Universidade de Birmingham e presidente da Associação Britânica para o Estudo da Cefaleia, esse mecanismo explica por que a enxaqueca é muito mais do que uma simples dor de cabeça.
As pesquisas também mostraram que a enxaqueca costuma evoluir em diferentes etapas. Até 24 horas antes da dor, muitas pessoas entram na fase conhecida como pródromo, marcada por sintomas como bocejos frequentes, fadiga, aumento da vontade de urinar e desejos por determinados alimentos.
Em seguida, cerca de 30% dos pacientes apresentam a chamada aura, que pode incluir alterações visuais, formigamentos ou dificuldade para falar.
A dor propriamente dita costuma durar entre quatro e 72 horas. Depois da crise, muitos pacientes ainda passam por um período chamado pós-dromo, caracterizado por cansaço intenso, dificuldade de concentração e sensação de indisposição que pode persistir por até dois dias.
Um dos conceitos que mudou nos últimos anos diz respeito aos alimentos frequentemente responsabilizados pelas crises. Segundo Sinclair, exames de imagem mostraram que regiões cerebrais relacionadas ao apetite são ativadas ainda na fase inicial da enxaqueca.
Isso significa que o desejo por chocolate, queijo ou outros alimentos costuma ser consequência do início da crise — e não sua causa.
A descoberta ajuda a explicar por que muitos pacientes acreditavam que determinados alimentos desencadeavam a dor, quando, na realidade, eles faziam parte dos primeiros sinais da doença.
Embora a predisposição genética tenha um papel importante, alguns fatores podem favorecer o surgimento das crises. Entre eles estão:
Já a relação entre tempo de tela e enxaqueca ainda permanece inconclusiva. Pessoas com a doença costumam apresentar maior sensibilidade à luz durante as crises, mas as evidências atuais ainda não demonstram que celulares ou computadores sejam responsáveis por desencadeá-las.
O entendimento do papel do CGRP permitiu o desenvolvimento de medicamentos específicos para bloquear essa molécula. Hoje existem duas principais classes de tratamento.
A primeira é formada pelos gepants, administrados por via oral e capazes de bloquear o receptor do CGRP. A segunda utiliza anticorpos monoclonais anti-CGRP, aplicados geralmente uma vez por mês.
Segundo Sinclair, essas terapias transformaram o tratamento da enxaqueca nos últimos anos, oferecendo alternativas mais direcionadas do que os medicamentos tradicionais utilizados anteriormente.
Apesar dos avanços, especialistas alertam que esses tratamentos ainda apresentam custo elevado e nem sempre estão disponíveis para todos os pacientes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a enxaqueca uma das doenças que mais comprometem a qualidade de vida no mundo.