Galápagos: arquipélago ajuda cientistas a estudar a crise climática (Freepik)
Redatora
Publicado em 25 de julho de 2026 às 13h22.
As Ilhas Galápagos podem ajudar cientistas a prever como os ecossistemas marinhos reagirão às mudanças climáticas nas próximas décadas. Localizado no Pacífico oriental, o arquipélago sofre fortes impactos durante os eventos de El Niño, quando a temperatura da água aumenta rapidamente e provoca mudanças profundas na fauna marinha.
De acordo com o jornal The Guardian, pesquisadores afirmam que Galápagos funciona como um "laboratório natural" porque suas espécies convivem há milhares de anos com ciclos alternados de aquecimento (El Niño) e resfriamento (La Niña). O receio é que, em um planeta cada vez mais quente, esses eventos se tornem tão frequentes e intensos que ultrapassem a capacidade de adaptação dos animais.
Em anos considerados normais, as águas ao redor das ilhas permanecem frias, permitindo a convivência de espécies incomuns para uma região tropical, como pinguins-das-galápagos, lobos-marinhos e recifes de coral.
Durante o El Niño, porém, esse cenário muda rapidamente. A temperatura da água pode subir de cerca de 18°C para mais de 30°C, reduzindo a quantidade de nutrientes disponíveis no oceano.
Com menos alimento, populações de peixes diminuem, aves marinhas como pinguins, atobás-de-nazca e atobás-de-pés-azuis sofrem quedas acentuadas, enquanto muitas iguanas marinhas morrem de fome.
Quando a fase de La Niña retorna e as águas voltam a esfriar, o ecossistema costuma se recuperar, com aumento da produtividade e da biodiversidade.
Ao longo de milhares de anos, diversas espécies desenvolveram estratégias para sobreviver às oscilações provocadas pelo El Niño.
Um dos exemplos mais conhecidos são as iguanas marinhas, capazes de reduzir temporariamente o tamanho do próprio esqueleto durante períodos de escassez de alimento e recuperar esse crescimento quando as condições melhoram.
Segundo os cientistas, essas adaptações mostram a capacidade de resiliência do arquipélago, mas também levantam dúvidas sobre até que ponto elas continuarão funcionando diante de eventos climáticos cada vez mais extremos.
De acordo com Jon Witman, professor emérito de ecologia da Universidade Brown, Galápagos apresenta uma das maiores variações naturais de temperatura entre os ecossistemas marinhos do planeta.
Segundo ele, durante eventos de El Niño ocorre quase um colapso do sistema marinho, seguido por uma rápida recuperação com a chegada da La Niña.
A preocupação dos pesquisadores é que o aumento da frequência desses eventos impeça o ecossistema de se recuperar completamente entre um episódio e outro.Durante o intenso El Niño de 1982-1983, por exemplo, algumas espécies endêmicas das ilhas desapareceram, incluindo o peixe-donzela-das-galápagos. Já no episódio de 2015-2016, pesquisadores registraram um surto de doença ulcerativa na pele de diferentes espécies de peixes, com efeitos em toda a cadeia alimentar.
Para os cientistas, o arquipélago oferece uma oportunidade única para entender como plantas e animais responderão ao aquecimento global.
Segundo Witman, a principal dúvida é saber se os choques climáticos se tornarão tão frequentes que o ecossistema ultrapassará um ponto de inflexão, passando a um estado permanente de menor produtividade e biodiversidade.
Apesar das preocupações, o pesquisador afirma manter certo otimismo. De acordo com o jornal, em seus estudos sobre recifes de coral, ele observou que algumas comunidades vêm sendo substituídas por espécies mais resistentes, capazes de se recuperar após eventos extremos.
Com isso, na avaliação dos especialistas, acompanhar essas transformações em Galápagos pode ajudar a prever o futuro de outros ecossistemas marinhos em um planeta sujeito a temperaturas cada vez mais elevadas.