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O preço do 'hype' nos Lençóis Maranhenses: como equilibrar turismo recorde e sustentabilidade

EXAME foi ao patrimônio natural no Maranhão e mostrou os impactos da alta na visitação sobre infraestrutura, ecossistemas frágeis e comunidades locais, além de estratégias para conter a pressão

ntre dunas e lagoas cristalinas, os Lençóis Maranhenses revelam um dos cenários naturais mais singulares do Brasil (Divulgação)

ntre dunas e lagoas cristalinas, os Lençóis Maranhenses revelam um dos cenários naturais mais singulares do Brasil (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 2 de julho de 2026 às 19h00.

Última atualização em 3 de julho de 2026 às 08h32.

*De Lençóis Maranhenses, Maranhão 

O Rio Alegre corre ao lado da casa de Valto Pereira Souza, em Santo Amaro, uma das principais portas de entrada dos Lençóis Maranhenses.

Foi ali, às suas margens, que o morador e guia de turismo de 40 anos criou as três filhas e viu a pequena cidade se transformar em um dos destinos turísticos mais procurados do Brasil e um cartão-postal que tem atraído os olhares do mundo. 

Há dez anos, Valto passou a viver dos visitantes que chegam para conhecer as dunas e lagoas cristalinas do parque nacional que ganhou o título de Patrimônio Natural da Humanidade da UNESCO, em 2024, pela sua paisagem rara e exuberante.

Espalhado por 155 mil hectares entre Barreirinhas, Santo Amaro, Primeira Cruz e Humberto de Campos, se consolidou como maior campo de dunas da América do Sul, com uma área superior à da cidade de São Paulo. 

O fenômeno único acontece graças à zona de transição ecológica entre os biomas de Amazônia, Caatinga e Cerrado e também inclui áreas de restinga e litoral oceânico. 

Lençóis Maranhenses

A história de Valto é um retrato do que vive a população da região. Nos últimos anos, o turismo movimentou a economia local, gerou emprego e renda, impulsionou pequenos negócios e colocou comunidades antes isoladas no mapa dos principais roteiros turísticos de natureza do país.

Mas a conta ambiental chega, e hoje o maior pesadelo do ribeirinho é outro.

"Meu medo é que o rio que passei a infância brincando acabe secando. Já percebo mudanças onde eu moro, e me preocupo com o futuro que vou deixar para minhas filhas", contou à EXAME. 

Todos os anos, ventos fortes deslocam montanhas de areia, lagoas desaparecem, outras surgem e os paredões avançam cerca de cinco metros, transformando continuamente uma paisagem que nunca é exatamente igual.

É esse mesmo ecossistema dinâmico que agora precisa lidar com os impactos do turismo desenfreado. 

Os números recordes revelam a dimensão do salto vivido pelos Lençóis Maranhenses nos últimos anos.

Na avaliação do ICMBio, órgão que regula o parque, esse movimento começou durante a pandemia, quando o turismo de natureza ganhou força e as pessoas buscavam locais mais isolados, e depois foi acelerado pelo reconhecimento da UNESCO

"A pandemia levou as pessoas a buscar lugares abertos e foi aí que o negócio explodiu. O título veio para dar uma visibilidade internacional. Isso atrai muitos turistas estrangeiros e hoje percebemos cada vez mais nacionalidades diferentes", afirma Cláudio Augusto Pereira, coordenador de Uso Público e chefe interino do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, em entrevista à EXAME. 

Em 2025, o parque recebeu 656.388 turistas, um salto de 41,28% em relação ao ano anterior, segundo dados das Secretarias Municipais de Turismo de Barreirinhas e Santo Amaro, monitorados pelo Observatório do Turismo do Maranhão.

O sucesso recente também é uma rara convergência de picos. O auge da temporada turística ocorre justamente quando o parque exibe sua paisagem mais paradisíaca.

É entre junho e agosto, após o fim do período de chuvas, quando as lagoas atingem seu maior volume de água e contrastam com as dunas de areia branca. 

É também nessa "época de ouro" que o Maranhão vive o São João, uma das maiores manifestações culturais do país, com arraiais lotados e apresentações dos tradicionais grupos de bumba meu boi.

A combinação entre o espetáculo natural e a força da cultura popular transforma esses meses na alta temporada. E o movimento pode ser percebido ainda antes do destino final. 

Sem voos comerciais regulares para Barreirinhas, a maior parte dos visitantes chega pela capital São Luís e segue por cerca de quatro horas de estrada até uma das três principais portas de entrada dos Lençóis: Barreirinhas, Santo Amaro ou Atins.

Apenas em junho e julho de 2025, mais de 207 mil passageiros desembarcaram no Maranhão, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

É a concentração da visitação em um curto período que intensifica a pressão sobre a infraestrutura urbana e sobre um dos ecossistemas mais singulares do mundo.

O desafio, agora, mudou de escala. Já não é atrair pessoas, mas garantir que esse "boom" do turismo aconteça sem que o "hype" se torne sua maior ameaça ambiental. 

"Um deserto de águas, sem água": o paradoxo de Atins 

Atins

A 100 quilômetros de Santo Amaro, em Atins, onde o Rio Preguiças encontra o mar, o contraste ganha outra forma.

Durante décadas, o povoado que faz parte do município de Barreirinhas viveu da pesca artesanal e da agricultura, principalmente do cultivo do caju.

Nos últimos anos, impulsionado pelo kitesurfe, pelas pousadas de luxo e turismo internacional, Atins passou a ser comparado pela própria comunidade à Jericoacoara de 20 anos atrás. 

A antiga vila de pescadores virou "vila de turistas", relatam moradores. 

Com a valorização imobiliária, muitos nativos venderam seus terrenos para investidores, enquanto novos empreendimentos começaram a ocupar uma região que, até poucos anos atrás, era marcada por ruas de areia e casas humildes. 

Atins virou um destino da moda pelo Kite Surfing

Atins virou um destino da moda pelo Kite Surfing e atraiu hotéis de luxo (Sofia Schuck)

A comparação não é à toa. Em Jericoacoara, a explosão do turismo foi acompanhada por uma forte valorização das terras, que culminou, em 2024, em disputas fundiárias: é o caso da emblemática "Dona de Jeri", empresária que alegou ter propriedade sobre 80% da vila de Jijoca, principal polo local de comércio, gastronomia e rede hoteleira. 

Em Atins, moradores temem um futuro parecido e que o crescimento aconteça mais rápido do que a capacidade de planejamento da região. 

Otalicio Sousa dos Santos acompanha essa transformação de perto. Trabalha com turismo desde 2011 e lembra que, quando começou, havia apenas dois veículos levando visitantes às dunas. Hoje, calcula que cerca de 600 circulem pelo vilarejo.

A prosperidade trouxe renda, mas também expôs uma contradição que não é visível aos olhos dos turistas. 

"Vivemos num deserto de águas, mas não temos água para beber", conta Otalicio.

O paradoxo descrito por ele aparece explicitamente nos indicadores da região.

Cercadas por rios, lagoas e dunas alagadas durante parte do ano, as comunidades que vivem no entorno do parque ainda enfrentam a carência do saneamento básico, abastecimento e descarte incorreto de resíduos. 

Enquanto o número de turistas cresce ano após ano, a infraestrutura básica não acompanha e ainda avança em ritmo lento. 

Em Barreirinhas, outra porta de entrada dos Lençóis Maranhenses, 60% dos cerca de 64 mil moradores ainda utilizam fossas rudimentares, segundo dados do Instituto Água e Saneamento

Barreirinhas (Maranhão)

Apenas 7% da população é atendida pela rede de esgoto. E o destino dos resíduos também liga um alerta: metade segue para um lixão a céu aberto, localizado a cerca de 20 quilômetros do centro urbano, representando um risco alto de poluição. 

Segundo Pedro Chagas, secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão, esse problema histórico começou a mudar na última semana, quando o governo estadual assinou um acordo de cooperação com a prefeitura de Barreirinhas para acabar de vez com a destinação ao lixão.

Pelo acordo, o estado vai custear o transporte de todo o lixo gerado no município para um aterro sanitário licenciado, localizado em Bacabeira, a cerca de 196 km.

Secretário do meio ambiente do Maranhão, Pedro Chagas

"Há sem dúvidas um aumento do impacto com o turismo, principalmente em relação à geração de resíduos sólidos", destaca à EXAME. 

De acordo com o secretário, a estratégia também inclui a ampliação da coleta seletiva e campanhas de conscientização voltadas a moradores e turistas. Em Atins, por exemplo, o governo instalou novos pontos de coleta para estimular o descarte adequado dos resíduos.

Em Santo Amaro, na outra ponta do parque, a infraestrutura de saneamento é ainda mais limitada. Apenas 0,22% dos cerca de 14 mil habitantes têm acesso à rede de esgoto, enquanto 63% dos resíduos sólidos ainda são queimados e acabam virando poluentes. 

Em Atins, moradores relataram aumento da instalação de poços, pressão sobre o lençol freático e mudanças no igarapé que,  por gerações, fez parte da vida e da subsistência da comunidade.

"O igarapé era nossa pesca, nosso transporte e nossa água. Continua sendo, mas mudou", diz Otalicio.

Quanto turismo cabe nos Lençóis?

O avanço dos visitantes colocou os Lençóis diante um problema comum a destinos naturais que crescem rápido demais: como transformar visibilidade em desenvolvimento sem destruir aquilo que o tornou um lugar tão desejado e único? 

No caso maranhense, essa conta envolve muito mais do que preservar lagoas e dunas. Passa pela destinação dos resíduos sólidos,  expansão do saneamento básico, redução da pressão sobre os recursos hídricos, controle da circulação de veículos nas áreas de visitação e pela garantia da qualidade de vida das 45 comunidades tradicionais que vivem no entorno do parque.

Para Chagas, o turismo nos Lençóis é legítimo e necessário para a economia regional. O ponto, diz, é fazê-lo avançar junto com a gestão ambiental.

Além das medidas emergenciais para lidar com o aumento dos resíduos sólidos, o governo do Maranhão afirma que prepara, em conjunto com o ICMBio, municípios e representantes do setor turístico, um plano para orientar essa alta recorde dos últimos anos.

Um dos principais eixos é um estudo que pretende dimensionar quanto cada município que margeia o parque é capaz de receber de turistas sem comprometer a infraestrutura local e a conservação ambiental.

"Estamos entendendo quantas pessoas cada município suporta de forma sustentável. Isso vai fazer parte desse plano articulado para reduzirmos os impactos", revela o secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão.

A iniciativa dialoga com uma estratégia semelhante adotada pelo ICMBio.

Quando assumiu a chefia interina da unidade, em 2023, Cláudio conta que se deparou com uma das primeiras imagens que mais o surpreenderam: a concentração de visitantes em algumas das lagoas mais famosas.

"Quando eu cheguei, fiquei um pouco assustado. O parque está preparado para receber pessoas, mas não em tanta quantidade", frisa. 

Cláudio, coordenador do ICMBIO

A preocupação não é impedir o crescimento do turismo, mas evitar sua concentração. Hoje, boa parte dos visitantes percorre roteiros parecidos, passando por atrativos como a Lagoa Bonita, em Barreirinhas, ou a Lagoa da Andorinha, em Santo Amaro.

Cláudio chama esses pontos de "lagoas de sacrifício", áreas que inevitavelmente sofrem maior pressão ambiental por receberem turismo de massa.

Em vez de trabalhar apenas com um limite fixo de visitantes, o órgão desenvolve um "número balizador", que considera as condições de cada atrativo e os danos ambientais observados ao longo do tempo.

Na prática, o modelo poderá orientar futuras restrições de acesso em áreas específicas, caso a pressão sobre o ambiente ultrapasse níveis considerados saudáveis.

"Capacidade de carga é igual a um elevador. O número balizador é dinâmico. Se o impacto aumentar muito, esse número pode diminuir", explica Cláudio. 

Para que isso funcione, o ICMBio passou a acompanhar a entrada dos visitantes por meio das taxas de R$ 10 reais cobradas pelos municípios de Barreirinhas e Santo Amaro, além de cruzar essas informações com o monitoramento realizado em campo.

Parte desse equilíbrio passa também pelo cumprimento do Plano de Manejo e das normas de uso público do parque, que regulamentam a visitação dentro da unidade de conservação.

Entre as regras estão a proibição do porte, da venda e do consumo de bebidas alcoólicas, da circulação de veículos motorizados fora das rotas autorizadas sobre o campo de dunas e da realização de atividades como enduros, rallys e o uso de quadriciclos.

O acesso de visitantes também deve ocorrer com veículos, motoristas e condutores credenciados pelo órgão, que preza também pela segurança dos turistas. 

As regras ganharam repercussão nesta semana após o piloto da Stock Car e herdeiro da Cimed, Adibe Marques, passar a ser investigado por publicar vídeos consumindo bebida alcoólica durante uma visita ao patrimônio natural.

Segundo Cláudio, o controle de visitação é apenas uma parte da equação: o desafio é construir um modelo de governança capaz de acompanhar o turismo recorde em um parque de 155 mil hectares, onde a fiscalização isolada não consegue dar conta de todas as pressões.

"É uma área muito grande. É impossível proteger um território desse tamanho sozinho", afirma.

Na avaliação do gestor, o crescimento acelerado também aumentou a ocorrência de irregularidades, como circulação fora das áreas autorizadas e pressões sobre atrativos mais sensíveis.

Por isso, a estratégia do ICMBio combina monitoramento, fiscalização e, principalmente, articulação com municípios e moradores, universidades, operadores de turismo e forças de segurança.

"A gente tem apostado em um trabalho de interlocução institucional com muito esforço e está dando certo", conta Cláudio. 

Outra frente comum entre o governo estadual e o ICMBio é a educação ambiental. Enquanto o parque ampliou a capacitação de condutores para que os visitantes compreendam melhor a biodiversidade e a importância da conservação, o estado quer transformar os próprios operadores turísticos em agentes de conscientização.

"A ideia é que eles orientem sobre resíduos sólidos e boas práticas durante a visita", diz Chagas.

Segundo o secretário, o plano estadual foi estruturado após o título da UNESCO e busca transformar o turismo em um legado positivo permanente para a região. 

"A conscientização e a capacitação dos agentes são o mais importante para equilibrar o turismo com a sustentabilidade", argumenta. 

Potencial do ecoturismo

A estratégia acompanha uma mudança no perfil do próprio destino. Os Lençóis Maranhenses vêm se consolidando como uma referência nacional em turismo de natureza.

Em 2026, [grifar]o parque liderou o ranking brasileiro de ecoturismo da plataforma PlanetaEXO, à frente da Amazônia, com destaque para Amazonas e Pará, e de Barra do Garças, em Mato Grosso. 

Para Cláudio, o futuro do parque passa pelo fortalecimento do turismo sustentável: os Lençóis precisam deixar de ser vendidos apenas como um passeio pelas lagoas e dunas.

"O parque tem biodiversidade, comunidades, manguezais, rios e praias. O visitante pode conhecer uma casa de farinha, o artesanato, fazer interpretação ambiental, observar a fauna. Precisamos abrir novas frentes", afirma.

A ideia é distribuir melhor os visitantes pelo território e reduzir a pressão sobre os pontos mais famosos.

Neste ano, mais de 3 mil pessoas foram capacitadas em interpretação ambiental, segundo o ICMBio. A iniciativa busca transformar guias e condutores em contadores da história, da geografia e da biodiversidade única do parque. 

"Recebíamos muitas reclamações de turistas que entravam e iam embora sem aprender absolutamente nada sobre aquele ambiente. A conservação também passa pelo conhecimento", diz Cláudio.

Além da explosão do turismo, o gestor acredita que o reconhecimento internacional da UNESCO foi positivo pois criou uma nova camada de proteção.

Em Santo Amaro, Valto observa o Rio Alegre com a preocupação de quem mede o futuro pela água que corre no quintal. Em Atins, Otalicio vê a antiga vila de pescadores se transformar em destino internacional sem que a infraestrutura acompanhe a velocidade da mudança.

Entre os dois, estão os 656 mil visitantes que chegaram aos Lençóis em 2025, os gestores tentando medir o limite do parque, os moradores que vivem do turismo e o risco de que "o sucesso se torne uma ameaça". 

O desafio dos Lençóis Maranhenses, agora, é provar que um destino pode crescer sem deixar para trás a paisagem e nem as pessoas que o tornaram tão especial e único.

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