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Chuvas recordes em Juiz de Fora e Ubá já deixam 64 mortos e prejuízos bilionários (Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 13h00.
Última atualização em 27 de fevereiro de 2026 às 15h47.
A crise climática no Brasil está longe de se anunciar apenas pelas altas nos termômetros. Mas seus sinais mais claros aparecem na água: escassez, excesso ou perda de qualidade, impactando cidades, populações e redefinindo a economia e o futuro climático do país.
Secas prolongadas na Amazônia, enchentes cada vez mais intensas no Sul e Sudeste, rios urbanos poluídos, reservatórios em queda histórica e eventos extremos mais frequentes desenham um novo mapa de riscos no país.
As chuvas recordes em Juiz de Fora e Ubá, em Minas Gerais, são só mais um retrato de uma tragédia anunciada que poderia ter sido evitada caso as ações prioritárias fossem em obras de prevenção e preparação das cidades brasileiras.
É a partir desse cenário que o governo brasileiro acabou de publicar um plano pioneiro de adaptação climática para os recursos hídricos, com foco em responder de forma mais efetiva como planeja e responde aos efeitos severos do clima.
Pela primeira vez, o país cruzou projeções climáticas com dados de uso da água, infraestrutura, ecossistemas e vulnerabilidade social para identificar, com maior precisão, onde os riscos são mais elevados. O objetivo é direcionar investimentos, orientar políticas públicas e estruturar uma estratégia nacional de adaptação.
Iara Bueno Giacomini, diretora de recursos hídricos e ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), diz que a água é a face mais visível da adaptação climática.
“É por ela que os impactos chegam primeiro. A escassez, as enchentes e a perda de mananciais geram uma crise planetária concreta para as pessoas, cidades e economia", destaca em entrevista à EXAME.
Segundo a especialista, o país vive uma convergência perigosa entre eventos extremos mais intensos, degradação ambiental acumulada e fragilidades históricas na governança hídrica.
“Não se trata apenas de gerir períodos de seca ou de cheia, mas de repensar estruturalmente a relação entre território, produção, natureza e urbanização.”
O diagnóstico oficial revela um Brasil submetido a múltiplas pressões. Na Amazônia, secas severas têm provocado recordes históricos de vazão mínima em rios estratégicos, afetando desde a navegação até o abastecimento de comunidades isoladas.
No Sul, chuvas extremas e enchentes recorrentes impõem custos sociais e econômicos. No semiárido nordestino, a desertificação avança, enquanto o Pantanal enfrenta um processo inédito de aridização. Nas grandes regiões metropolitanas, como São Paulo e Rio de Janeiro, a combinação entre poluição, crescimento urbano e estresse hídrico ameaça a segurança do abastecimento.
Para enfrentar esse cenário, o plano clima de adaptação estabelece como uma de suas principais metas a restauração de 1 milhão de hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) hídricas até 2031, com foco em nascentes, margens de rios e áreas estratégicas para a recarga de aquíferos.
A lógica é simples: recuperar ecossistemas naturais aumenta a capacidade de regulação dos ciclos da água, reduz riscos de enchentes, melhora a qualidade hídrica e fortalece a resiliência das bacias.
A estratégia combina infraestrutura tradicional como reservatórios, sistemas de drenagem e contenção de cheias com as conhecidas soluções baseadas na natureza, que envolvem reflorestamento, proteção de nascentes e recuperação de áreas degradadas.
O alerta brasileiro ecoa um diagnóstico global. Segundo a ONU, o mundo já entrou na era da “falência hídrica”, marcada pelo esgotamento da capacidade natural de recuperação de lagos, rios e aquíferos que estão em "colapso".
Hoje, cerca de 75% da população mundial vive em regiões com algum grau de insegurança hídrica, e 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa ao menos um mês por ano.
O relatório divulgado às vésperas do Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro, revela que muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram num "ponto sem retorno" devido ao uso excessivo por décadas, o que coloca em risco a produção global de alimentos.
Para os pesquisadores, vivemos o avanço da chamada seca antropogênica, provocada não apenas pela redução das chuvas, mas sobretudo pelo desmatamento, degradação do solo e uso insustentável da terra.
“O Brasil não está imune”, afirma à EXAME, Rodrigo Spuri, diretor de Conservação da The Nature Conservancy (TNC) Brasil.
“Vivemos uma contradição: abrigamos uma das maiores reservas de água doce do planeta, mas convivemos com rios degradados, secas severas e insegurança hídrica crescente", cita.
Na prática, [grifar]os sinais de estresse já são evidentes. Na Bacia Amazônica, rios como Purus, Juruá, Acre e Iaco atingiram recentemente níveis mínimos históricos, comprometendo o transporte, o abastecimento e a biodiversidade.
Já no Sudeste, o Sistema Cantareira, que atende milhões de pessoas, apresenta uma tendência de queda em seus estoques ao longo das últimas três décadas.
“Entramos definitivamente na era dos extremos climáticos. Secas mais longas e intensas colocam em risco a segurança alimentar, o abastecimento urbano, a geração de energia e a própria estabilidade econômica", diz o especialista.
Mais do que um desafio ambiental, a água se consolida como ativo estratégico para o desenvolvimento brasileiro. Potência hídrica global, o país tem na gestão sustentável desse recurso uma de suas maiores vantagens competitivas, e ao mesmo tempo, uma de suas maiores vulnerabilidades.
Para os especialistas, a capacidade de planejar, proteger e valorizar este recurso natural poderá definir não apenas a resiliência climática, mas também seu futuro econômico e social.
Diante desse cenário dramático, especialistas são unânimes: a adaptação climática passa, necessariamente, pela restauração dos ecossistemas. As chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN) vêm ganhando protagonismo por aliarem ganhos ambientais, sociais e econômicos.
A ideia é usar a própria natureza como aliada da infraestrutura: florestas restauradas melhoram a infiltração da água no solo, reduzem a erosão, regulam vazões e ajudam a manter a qualidade dos mananciais.
Práticas como recuperação de pastagens degradadas, proteção de nascentes, recomposição de matas ciliares e agricultura regenerativa têm se mostrado eficazes tanto na adaptação quanto na mitigação das emissões.
Na Bacia do Alto Araguaia, corredor ecológico estratégico entre o Cerrado e a Amazônia, projetos integrados buscam recuperar nascentes, fortalecer a governança da água e promover o uso sustentável da terra.
Já na Mata Atlântica, iniciativas focadas em infraestrutura verde e pagamento por serviços ambientais ajudam a proteger mananciais críticos para grandes centros urbanos, como nas bacias dos rios PCJ, Guandu e Alto Tietê.
Atualmente, o uso da terra responde por cerca de 46% das emissões de gases de efeito estufa nacionais. Para Rodrigo, a segurança hídrica e a resiliência dos sistemas produtivas depende da integração entre produção e conservação.
Apesar do avanço técnico, o plano clima de adaptação reconhece gargalos estruturais. O principal deles é a governança.
Hoje, a política nacional de recursos hídricos sofre com fragmentação institucional, disputas entre ministérios e ausência de um comando claro. Soma-se a isso a falta de um instrumento financeiro robusto e permanente para a adaptação hídrica.
“Ainda não existe um orçamento estruturado para enfrentar a crise da água em escala nacional”, afirma a coordenadora do MMA. O desafio é mobilizar recursos públicos, fundos climáticos internacionais, bancos multilaterais e capital privado para transformar planejamento em execução.
A urgência é clara. Segundo estimativas do Banco Mundial, a insegurança hídrica pode reduzir o crescimento do PIB global em até 6% até 2050, afetando cadeias produtivas inteiras e elevando riscos operacionais e financeiros.
Para a gigante Ambev, a água não é apenas um insumo produtivo e sim o eixo que sustenta o negócio, a estratégia climática e o impacto social.
“Cuidar da água é cuidar do nosso negócio, da nossa eficiência e também dos nossos consumidores, da nossa família, da nossa vida”, diz à EXAME Felipe Baruque, vice-presidente de suprimentos e sustentabilidade da empresa. “A água está no centro de tudo o que fazemos.”
Foto: Germano Lüders
A companhia de bebidas trabalha em duas frentes complementares: reduzir drasticamente o consumo dentro das fábricas e ampliar o impacto positivo nas bacias hidrográficas onde opera.
Hoje, a Ambev é referência global em eficiência hídrica, com consumo próximo de dois litros de água para cada litro de bebida produzido, uma redução superior a 50% em pouco mais de duas décadas.
Mas, para o VP, olhar apenas para dentro dos muros da fábrica não é suficiente.
“Nossa responsabilidade é muito maior do que a nossa produção. A gente precisa interferir positivamente em toda a bacia, garantindo mais água em quantidade e qualidade para as comunidades", destaca.
Desde 2017, a empresa mapeou 11 bacias em áreas de alto estresse hídrico na América do Sul — sete delas no Brasil — e estruturou projetos de restauração florestal, recuperação de nascentes, agricultura regenerativa e governança da água.
O resultado, segundo a Ambev, é mensurável: milhões de árvores plantadas e a recuperação de bacias inteiras, beneficiando populações urbanas e rurais.
“Quando a gente restaura a vegetação e protege as nascentes, não só melhora a qualidade da água, como aumenta sua quantidade. Isso transforma realidades locais”, afirma.
A agenda hídrica também ganhou uma dimensão social direta por meio da AMA, marca de água mineral cujo lucro é integralmente destinado a projetos de acesso à água potável.
A meta inicial era beneficiar 1 milhão de pessoas até 2025 e o número já ultrapassou 3 milhões. “Cada garrafa de AMA significa alguém tendo acesso a água de qualidade. Isso é impacto real na vida das pessoas”, diz Baruque.
Com os eventos extremos cada vez mais frequentes, a água passou a ocupar o centro da estratégia climática de muitos negócios. Na visão da Ambev, investir em segurança hídrica, restauração ambiental e adaptação climática deixou de ser apenas uma pauta de sustentabilidade e se tornou um imperativo econômico e de sobrevivência.
"A mudança climática força a gente a pensar diferente. Sem biodiversidade, sem água de qualidade, sem equilíbrio ambiental, simplesmente não existe negócio no longo prazo”, conclui Felipe.