Óculos inteligentes com câmera embutida ganham design mais discreto e viram aposta das marcas de tecnologia para conquistar o mercado de moda (Divulgação )
Jonalista colaborador
Publicado em 15 de julho de 2026 às 06h58.
Óculos com inteligência artificial, capazes de gravar vídeo e áudio do que o usuário vê, deixaram de ser um nicho tecnológico e passaram a disputar espaço como acessório de moda. O movimento, batizado nas redes sociais de 'surveillance chic', ganhou força nas últimas semanas com o lançamento de uma nova linha da Meta, feita em parceria com a modelo Kylie Jenner, mas reacendeu discussões sobre vigilância que acompanham esse tipo de produto desde que apareceu no mercado, em 2023.
Entidades da sociedade civil, órgãos reguladores e consumidores já haviam levantado preocupações sobre o uso de reconhecimento facial embutido nesses dispositivos, além de testes com protótipos capazes de registrar continuamente os momentos de quem os usa. Agora, a aposta das marcas em transformar esse tipo de tecnologia em item desejável de moda tornou o debate ainda mais visível.
A estratégia segue um caminho já conhecido no setor de tecnologia. Produtos voltados inicialmente a um público restrito passam por redesenho estético, ganham embaixadores conhecidos e parcerias de moda até se tornarem itens de desejo para um público mais amplo.
No caso da Meta, o modelo escolhido para simbolizar essa transição foi batizado de Starfire Kylie Edition, codesenhado pela modelo e vendido por £359, cerca de R$ 2.462. Jenner, que soma aproximadamente 382 milhões de seguidores no Instagram, publicou fotos usando o produto em um evento realizado em Nova York.
Em entrevista à publicação de moda Glossy, Eva Chen, vice-presidente de moda da Meta, afirmou que os óculos anteriores deixavam evidente que a pessoa usava um dispositivo tecnológico no rosto. A nova coleção conta com 26 modelos e foi pensada para se integrar ao estilo pessoal de cada usuário, segundo a executiva.
Mesmo com a repercussão negativa, o setor de óculos inteligentes segue em crescimento. Só a Meta vendeu 7 milhões de unidades desse tipo de produto no último ano, fabricado em parceria com a EssilorLuxottica. Os modelos mais simples da marca, sem participação de designers convidados, como o Meta Fury, custam a partir de £ 269, o equivalente a cerca de R$ 1.845.
A concorrência também cresceu no período. A Snap lançou óculos de realidade aumentada recentemente, e Google e Apple desenvolvem suas próprias versões do produto. Empresas chinesas como Alibaba, Xiaomi, Huawei, Tencent e Baidu também têm investido no segmento, ampliando a disputa por um mercado que combina moda, tecnologia vestível e inteligência artificial.
Aos 28 anos, Jenner integra a família Kardashian-Jenner e já demonstrou influência direta sobre o mercado em outras ocasiões. Em 2018, uma publicação da modelo criticando o Snapchat foi seguida por uma queda de até 8,4% nas ações da empresa, o que representou perda de cerca de US$ 1,6 bilhão em valor de mercado. O episódio é citado com frequência como exemplo do alcance comercial da família sobre hábitos de consumo em diferentes setores, incluindo tecnologia.
Empresas de tecnologia têm ampliado a aproximação com o universo da moda nos últimos anos. Yahoo, Apple e Instagram já patrocinaram o Met Gala na última década, e neste ano Jeff Bezos e Mark Zuckerberg estiveram presentes no evento, enquanto OpenAI, Meta e Amazon compraram mesas no baile, cujo valor inicial passa de US$ 350 mil.
Óculos inteligentes têm sido usados para gravar pessoas sem consentimento em espaços públicos, como academias e praias, e vídeos desse tipo circulam em contas dedicadas a esse conteúdo, reunindo milhões de visualizações. Os dispositivos costumam ter uma luz de LED que indica quando estão gravando, mas usuários relatam dificuldade em enxergá-la sob luz do dia, além da possibilidade de cobri-la com adesivos.
Em comunicado, Janaya Walker, diretora interina da coalizão End Violence Against Women, afirmou que a parceria da Meta parece voltada justamente ao público feminino, cuja privacidade e segurança têm sido colocadas em risco pela expansão desse tipo de tecnologia vestível.