Bracelete da Hemmerle em madeira com extremidades cravejadas de diamantes cognac em pavê, combinação que ilustra a aposta da joalheria alemã em materiais orgânicos no lugar dos metais preciosos tradicionais (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 24 de junho de 2026 às 06h29.
O ouro bateu US$ 5.589 a onça em 28 de janeiro de 2026, o valor mais alto já registrado, dobrando de preço em menos de 13 meses. No mercado de alta joalheria, a reação veio de um lugar inesperado: madeira.
Pedras preciosas montadas em roxo-coração, zitan, ébano e pock wood aparecem com crescente frequência nas vitrines de feiras como a TEFAF Maastricht e nas coleções de algumas das casas mais respeitadas do setor. O resultado estético é diferente do que o ouro oferece, mais quente, com uma contenção que o metal raramente alcança.
A brasileira Silvia Furmanovich é o nome mais citado nessa conversa. Ela abriu sua marca em São Paulo em 1998, após anos observando o pai no ateliê, e desde então construiu uma linguagem que mistura pedras raras com materiais orgânicos aprendidos de artesãos no Acre, no Japão e no Uzbequistão. Sua técnica mais reconhecível é a marqueteria de madeira adaptada à escala da joalheria. Na coleção mais recente, ela trabalhou com roxo-coração, espécie tropical de coloração violeta intensa, combinando o material com kunzita e rubis em pavê em ouro 18k.
Brincos da Hemmerle em madeira
A Hemmerle, joalheria familiar de quarta geração sediada em Munique desde 1893, tem um histórico parecido de experimentação. Desde que Stefan Hemmerle e sua esposa Sylveli assumiram o negócio nos anos 1990, a casa passou a combinar ferro oxidado, cobre e madeira com pedras de cor intensa. A produção anual gira em torno de 200 peças, e cada uma pode levar centenas de horas para ser concluída. Num par de brincos recentes, turmalinas verdes foram montadas com pock wood de coloração naturalmente esverdeada, uma variedade originária das Bahamas.
Em Londres, a Glenn Spiro parte das gemas para chegar à forma. O fundador Glenn e seu filho Joe acumulam pedras ao longo dos anos antes de definir como montá-las. "Meus clientes já têm joias grandes. Agora querem algo com estilo, uma peça que gere conversa, não uma demonstração de riqueza", disse Spiro à Galerie Magazine. Uma de suas peças mais conhecidas nessa linha combina uma esmeralda colombiana de 7,18 quilates em corte almofada old-mine com fragmentos de madeira zitan antiga, montados em ouro 18k com diamantes brilhantes. A veneziana Antonia Miletto também trabalha com roxo-coração numa pulseira com kunzita incrustada e, em outra peça, combina ébano com citrino quartzo oval. A designer italiana Anna Maccieri Rossi, sediada em Santarcangelo di Romagna, projetou um anel em nogueira com safira rosa em cravação de ouro.
Fernando Jorge fez sua estreia na TEFAF Maastricht em março de 2026 com 13 peças de alta joalheria. Nascido no Brasil e sediado em Londres, Jorge fundou sua marca homônima em 2011 e construiu reputação pelo uso de materiais orgânicos como madeira petrificada, madrepérola e ébano. No espaço que ocupou na feira, projetado pela arquiteta e designer de interiores brasileira Juliana Vasconcellos, vitrines de mogno revestidas de camurça verde serviam de cenário para as peças. Em Nova York, Jade Ruzzo combina jacarandá brasileiro com zircão rosa em formato oval.
A lógica que conecta essas peças é menos sobre custo e mais sobre linguagem. A Mondepars, etiqueta de Sasha Meneghel lançada em 2024, percorreu caminho parecido ao esculpir gravatas, luvas e corpetes em muiricatiara, madeira amazônica de tom avermelhado, no desfile de inverno 2026 em São Paulo.