Sandálias de crochê que se prendem ao tornozelo dividiram espaço com looks fluidos em tons neutros e listrados na passarela de Veronica Leoni para a Calvin Klein (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 17 de setembro de 2026 às 08h29.
A semana de moda de Nova York para a primavera/verão 2027 trouxe um capítulo mais radical de uma discussão que começou em abril, quando Matthieu Blazy apresentou o desfile de cruzeiro 2027 da Chanel em Biarritz, na França. Naquela ocasião o estilista criou o que a grife chamou de "salto descalço", um modelo reduzido a uma fina tira de couro e um pequeno apoio no calcanhar, deixando o restante do pé completamente à mostra.
Em Nova York, entre chinelos e sapatilhas que dominaram boa parte das passarelas da temporada, algumas marcas decidiram ir além e apostar na ausência total de calçado. A proposta apareceu em contextos criativos distintos, da elegância urbana da Tory Burch ao minimalismo sensual da Calvin Klein, passando por marcas menores que usaram o recurso para reforçar narrativas específicas de cada coleção.
Sobretudo amarelo manteiga e bolsa trançada compuseram um dos looks descalços apresentados por Tory Burch (Divulgação)
Na Tory Burch, os pés descalços dividiram a passarela com um casaco amarelo manteiga cortado em silhueta inspirada nos anos 1960 e uma bolsa de noite trançada. Em nota divulgada durante o desfile, a estilista descreveu a coleção como uma celebração do "prazer de se vestir", sem detalhar diretamente a escolha pelo calçado ausente em algumas passagens.
Detalhe da sandália de crochê azul da Calvin Klein, com tiras finas e recorte que deixa os dedos à mostra (Divulgação)
No dia seguinte, a Calvin Klein apresentou uma versão mais elaborada da tendência. A diretora criativa Veronica Leoni desenhou sandálias de crochê que se conectam ao redor do tornozelo e da parte inferior do pé, com recortes que deixam os dedos completamente visíveis, em um formato que lembra o design de uma rasteira. A peça dialogou com as linhas limpas e quase hedonistas do restante da coleção, remetendo à estética dos anos 1990, década de referência para a marca.
À esquerda, vestido verde da Jane Wade usado descalço; à direita, sapato de renda substituído pelo pé nu na passarela da Area (Divulgação)
A Jane Wade também apostou em modelos descalças, combinando o efeito com peças de inspiração outdoor, como um vestido verde-floresta usado com fios de grama ao redor dos tornozelos. Já na Area, os pés nus surgiram de forma mais narrativa: as modelos retiraram os saltos com meia renda ainda durante a passarela, em um gesto que conversa com o universo construído pelo estilista Nicholas Aburn em suas coleções. Uma das modelos caminhou com um vestido micromini de efeito confete carregando os próprios sapatos na mão.
A 7 For All Mankind seguiu por um caminho parecido ao da Area. Sob comando de Nicola Brognano, a marca trabalhou uma estética inspirada no indie sleaze dos anos 2000, com shorts de cintura baixa, camadas de colares longos com miçangas e calças justas em modelagem cigarette. A maioria das modelos usou sapatos de salto bloco, comuns ao período retratado, mas uma delas optou por caminhar descalça, como se tivesse deixado os sapatos para trás em algum momento da noite.
A funcionalidade da proposta é discutível fora do ambiente controlado das passarelas, especialmente em uma cidade como Nova York, conhecida pelo estado das calçadas no centro urbano. No contexto dos desfiles, contudo, o gesto de retirar o sapato funciona como ferramenta para os estilistas testarem até que ponto um figurino pode dispensar um item considerado básico da composição de um look.
A repetição da ideia em marcas com propostas tão diferentes indica que a discussão iniciada pela Chanel em abril ganhou espaço entre outras casas durante o calendário de desfiles do inverno americano. Resta observar se o conceito vai se manter restrito às passarelas da próxima temporada ou se vai influenciar propostas de calçados vendidos comercialmente nas lojas das marcas envolvidas.