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Com Charvet, Chanel amplia seu império e influência na era Matthieu Blazy

Negócio da família Colban há mais de sessenta anos muda de mãos e formaliza o romance entre a casa de camisas mais antiga de Paris e o diretor criativo que reacendeu o desejo pela grife francesa

A camisa branca oversized com o bordado vermelho da Chanel resume o partido criativo de Blazy para a peça, que hoje une o design da maison à manufatura centenária da Charvet (Divulgação/Chanel)

A camisa branca oversized com o bordado vermelho da Chanel resume o partido criativo de Blazy para a peça, que hoje une o design da maison à manufatura centenária da Charvet (Divulgação/Chanel)

GF
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 2 de julho de 2026 às 16h09.

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O algodão engomado, a corrente pesada na barra, o corte oversized que caía largo sobre o corpo: as três camisas que Matthieu Blazy apresentou em sua estreia na Chanel, em outubro do ano passado, carregavam a assinatura da Charvet, costurada por dentro, como um segredo entre casas que se conhecem há décadas. Nicole Kidman, Jessie Buckley e Jacob Elordi vestiram a camisa em aparições públicas e a peça se tornou sinônimo do novo capítulo da grife. Agora, essa parceria virou papel assinado.

A Chanel anunciou a compra da Charvet, camisaria fundada em 1838 e instalada desde 1982 no número 28 da Place Vendôme, endereço que a Comité Vendôme descreve como o comércio mais antigo da praça. O acordo encerra a gestão independente dos irmãos Anne-Marie e Jean-Claude Colban, que tocavam o negócio desde que o pai da dupla o comprou nos anos 1960. Os valores da transação não foram divulgados.

Um casamento que começou no ateliê

Chanel e Charvet

Looks da passarela combinam as camisas de algodão produzidas com a Charvet a saias longas e plissadas (Divulgação/Chanel)

Bruno Pavlovsky, presidente de moda da Chanel, resumiu o momento com carinho ao falar da nova aquisição. "Charvet é uma joia linda. Agora há um trabalho a fazer para prepará-la para os próximos passos", disse o executivo, que também comanda a Chanel SAS. Anne-Marie Colban descreveu a transição em tom parecido, celebrando o que chamou de novo capítulo na história da camisaria, construído a partir de diálogo aberto e valores em comum entre as duas casas.

A aproximação nasceu do trabalho de Blazy, que recorreu à Charvet ainda em sua primeira coleção de prêt-à-porter para a Chanel e manteve a parceria na coleção cruzeiro 2027, com novas camisas assinadas em conjunto. A produção segue concentrada na fábrica de Saint-Gaultier, no interior da França, onde a Charvet mantém sua manufatura desde sempre.

A Chanel sempre colecionou mãos francesas

Desde 1985, quando levou para o grupo o fabricante de botões Desrues, a Chanel vem reunindo sob seu guarda-chuva nomes que sustentam a alta costura francesa. A Paraffection, subsidiária criada em 2002, hoje abriga o bordado da Lesage, os sapatos da Massaro, as plumas e flores da Lemarié, os chapéus da Maison Michel e a ourivesaria da Goossens, entre outros ateliês reunidos no complexo Le19M, no norte de Paris.

Todos seguem livres para trabalhar com outras grifes, incluindo rivais diretas da Chanel, o que mantém vivo um ecossistema de savoir-faire que poucas casas do luxo conseguiram preservar em escala parecida.

O ano em que tudo voltou a fazer sentido

Chanel e Charvet

Nicole Kidman e Jacob Elordi vestiram as camisas assinadas por Chanel e Charvet (Reprodução/Instagram)

A chegada da Charvet acontece num momento em que a Chanel finalmente respira depois de um 2024 apagado. As primeiras coleções de Blazy esgotaram nas vitrines de Paris e Nova York, atraindo um público que a própria marca descreve como novo consumidor, gente que nunca tinha comprado Chanel antes. A bolsa maxi flap de couro amassado, vendida por 8.500 dólares (cerca de R$ 44.115 na cotação atual), e o sapato bicolor verde-menta, na faixa de R$ 7.525, viraram objeto de desejo quase instantâneo, com fila de espera em boutiques de Nova York, Beverly Hills e Bal Harbour.

O faturamento de 2025 fechou em alta, puxado pela onda que o mercado já apelidou de blazymania, com destaque para os Estados Unidos como região de maior crescimento. A companhia também investiu pesado em fornecedores de materiais e savoir-faire ao longo do ano, movimento que dá contexto direto à chegada da Charvet ao grupo. Entre bolsas esgotadas, tweeds reinventados e agora uma camisaria centenária sob o mesmo teto, a Chanel segue tecendo a própria narrativa de continuidade e conquista das gerações mais novas.

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