Colaboradora
Publicado em 29 de julho de 2026 às 17h38.
Um estudo da publicação especializada WWD identificou 23 executivos de empresas de moda, varejo e beleza nos Estados Unidos que receberam mais de 10 milhões de dólares em remuneração no último ano fiscal.
Os dados usados no levantamento vêm diretamente das declarações de remuneração (proxy statements) que as empresas de capital aberto são obrigadas a enviar à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos.
É o mesmo tipo de documento oficial que, no Brasil, a CVM exige das companhias listadas na Bolsa.
Na liderança do ranking está o empresário Elliott Hill, CEO da Nike, com uma remuneração total de 36,3 milhões de dólares no último ano fiscal.
A trajetória de Hill chama atenção. Ele ingressou na Nike em 1988, como estagiário do departamento de vendas, e passou mais de três décadas na empresa até se aposentar em 2020.
Em setembro de 2024, o conselho da Nike anunciou seu retorno à companhia. Hill assumiu oficialmente o cargo de presidente e CEO em 14 de outubro de 2024, no lugar de John Donahoe, que deixou o posto em meio à queda nas vendas e à perda de espaço da marca para concorrentes como Hoka e On.
Logo depois do anúncio, as ações da Nike chegaram a subir mais de 8% na bolsa, reflexo do otimismo do mercado com o retorno do executivo.
O levantamento da WWD reforça uma disparidade que já é conhecida no mundo corporativo: dos 23 executivos com remuneração acima de 10 milhões de dólares, 18 são homens e apenas 5 são mulheres.
A proporção segue um padrão observado em boa parte das grandes empresas americanas, em que a presença feminina no topo da hierarquia ainda é minoria, mesmo em setores como moda e varejo, historicamente ligados ao público feminino.
Veja os nomes confirmados e seus respectivos salários, com base nas declarações oficiais enviadas à SEC:
Os valores do ranking não representam um salário fixo mensal. A maior parte da remuneração desses executivos vem de ações e bônus atrelados ao desempenho da empresa, não de dinheiro em espécie.
O caso de Elliott Hill ilustra bem essa lógica. Segundo a própria declaração da Nike enviada à SEC, 92% da remuneração-alvo do CEO estão condicionados a metas de desempenho.
Isso significa que, dos 36,3 milhões de dólares, apenas 2,9 milhões (os 8% restantes) correspondem à parte fixa garantida. Ainda assim, esse valor fixo é cerca de 60 vezes o salário do funcionário mediano da Nike, que ganha 48.695 dólares por ano, considerando o quadro global de 76.600 funcionários da empresa.
O mesmo padrão se repete em outras companhias do levantamento. Joanne Crevoiserat, da Tapestry, recebeu um salário-base de 1,4 milhão de dólares, mas o grosso de sua remuneração (10,6 milhões de dólares) veio em ações vinculadas ao desempenho da empresa.
Esse modelo é comum entre empresas de capital aberto nos Estados Unidos. A ideia, segundo especialistas do setor, é alinhar os interesses do executivo aos dos acionistas: se a ação da empresa se valoriza, o CEO ganha mais; se cai, parte da remuneração esperada desaparece.
Mesmo em um cenário de juros elevados e consumo mais cauteloso, o mercado brasileiro de moda continua crescendo, segundo levantamentos do IEMI – Inteligência de Mercado e da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
O Brasil mantém uma das maiores cadeias têxteis do mundo. Em 2024, o setor somava 25,5 mil empresas formais, 1,31 milhão de empregos diretos e R$ 221 bilhões em faturamento, segundo dados consolidados da Abit e do IEMI.
Considerando toda a cadeia produtiva e os efeitos indiretos, a moda movimenta aproximadamente 8 milhões de postos de trabalho, sendo cerca de 60% ocupados por mulheres, de acordo com estudo publicado pelo Ipea com base em dados da Abit e do IEMI.
O crescimento do setor ajuda a explicar por que as grandes varejistas brasileiras vêm disputando executivos experientes e ampliando seus pacotes de remuneração.
Em um mercado que movimenta mais de R$ 300 bilhões por ano apenas no varejo de vestuário, a gestão eficiente tornou-se um diferencial competitivo para empresas que precisam equilibrar expansão, digitalização e pressão por margens.