Na Willy Chavarria, alfaiataria oversized em azul, amarelo e vermelho reforça a assinatura da marca (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 26 de julho de 2026 às 07h55.
O minimalismo dos anos 1990, que vinha sustentando boa parte das coleções masculinas nos últimos ciclos - desde a exaustiva onda do quiet luxury, perdeu espaço nas passarelas de primavera 2027. Em Nova York, Milão e Paris, os desfiles trouxeram tons vibrantes ocupando o corpo inteiro, não mais como detalhe isolado, mas como base de composições completas. A Celine misturou vermelho tomate, ameixa e marrom terroso num único look. A Ralph Lauren reforçou a paleta clássica do prep com azuis mais intensos. A japonesa Auralee explorou pares de azul piscina e marinho em diferentes camadas, enquanto a Willy Chavarria trouxe combinações estruturadas em tons terrosos e vinho, reforçando a linguagem de alfaiataria ampla.
A mudança de tom contraria a aposta da Pantone para 2026, que elegeu o Cloud Dancer, um branco acinzentado, como cor do ano. Na metade do ano, esse não é o tom que domina as passarelas nem as vitrines, e o contraste entre a previsão e o que de fato apareceu nos desfiles reforça como a temporada correu na direção oposta ao que se esperava.
À esq., a Dries Van Noten sobrepõe verde e terracota; à dir., a Celine combina vermelho, ameixa e marrom num só look (Divulgação)
Zane Li, à frente da marca nova-iorquina Lii e finalista do CVFF em 2026, já vinha chamando atenção com color-blocking bidimensional e silhuetas retrofuturistas amassadas. Na Saint Laurent, Anthony Vaccarello resgatou referências dos anos 1980 no desfile de outono 2025, com ombreiras estruturadas e tons de joia em tecidos acetinados. Durante a semana de moda de Nova York em fevereiro, cores fora do óbvio, como o Festive Fuchsia e o Green Envy, apareceram entre as dez tonalidades mais registradas pela Pantone, geralmente compondo looks ao lado de neutros terrosos.
À esq., Ralph Lauren aposta em camuflado e laranja vibrante; à dir., a Dior equilibra xadrez verde com calça rosa (Divulgação)
O que diferencia essa temporada é a intenção por trás das misturas. No look de Michael Rider para a Celine, o vermelho puxa o olhar primeiro, mas o cummerbund em tom de ameixa evita que a peça pareça monocromática, criando uma segunda camada de leitura sem disputar espaço com a cor principal. A calça em marrom terroso funciona como uma terceira variável que ancora o conjunto, dividindo a atenção em três pontos distintos sem fragmentar o look.
A lógica se repete nos pares de azul da Auralee. O olho tende a ser atraído primeiro pela cor mais clara, o que cria dois pontos focais numa mesma peça, um na parte de baixo do look e outro na altura do colarinho, ligados pela mesma família de cor. Na Dries Van Noten, o raciocínio aparece de outra forma, com estampas e tons sobrepostos que criam profundidade sem depender de uma paleta reduzida, um dos traços que sustentam a identidade da marca há décadas.
Na Dior, a cor também ganhou papel de destaque na temporada, com combinações que reforçam a leitura de que o gesto não está restrito a uma ou duas casas isoladas, mas se espalha por diferentes propostas criativas ao mesmo tempo.
A retomada da cor também parece refletir uma mudança na forma como as marcas se posicionam, uma vez que, no passado, uma grife era lida como colorida ou austera, e essa classificação tendia a ser fixa ao longo de temporadas. Hoje esse rótulo pesa menos, o que permite que uma mesma marca transite entre paletas sem comprometer sua identidade, algo que fica evidente na variedade de abordagens vistas entre Celine, Auralee, Dries Van Noten, Willy Chavarria, Dior numa única temporada.