Vestido "Helix Nebula", com tubos de vidro preenchidos por plasma que reage ao toque da modelo (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 7 de julho de 2026 às 11h02.
Última atualização em 7 de julho de 2026 às 11h13.
A semana de Alta Costura de Paris começou nesta semana com uma novidade que não tinha precedentes no guarda-roupa de nenhuma maison até agora. Iris Van Herpen apresentou o "Helix Nebula", vestido composto por plasma, o gás ionizado que forma o Sol e as demais estrelas e que responde por 99,9% da matéria conhecida do universo, segundo dados da Nasa. A peça integra a coleção "Sonic Starquakes" e chega dez anos depois de a designer holandesa começar a colocar tecnologia de ponta no centro de suas criações.
Duas estruturas suspensas ao redor da silhueta compõem o vestido. Elas foram feitas em vidro soprado à mão e preenchidas com plasma, de forma que a energia interna reagisse ao contato com o corpo de quem a veste.
Em suas redes sociais, Van Herpen explicou que o corpo se torna condutor do campo elétrico do plasma no momento em que a peça é usada, alterando essa energia e sendo por ela alterado ao mesmo tempo. A base é um tule ao qual as estruturas de vidro foram acopladas, com volumes que lembram bolhas e recortes transparentes ao longo do comprimento.
A coleção trouxe ainda o "Universo Fractal", vestido produzido com o apoio de um acelerador de partículas operado a 100 graus negativos. As partículas eletricamente carregadas formaram, na superfície do tecido, padrões semelhantes a raios, as chamadas figuras de Lichtenberg.
Van Herpen contou que, durante o processo, o estúdio no qual trabalhava enfrentou algumas das tempestades mais fortes já registradas na Holanda, o que a fez associar o fenômeno das descargas elétricas a padrões que se repetem na natureza, como em raízes e no sistema circulatório humano.
A peça foi composta por um véu preto bordado com brilhos na barra e um chapéu que remete à asa de um pássaro, com os mesmos bordados. Segundo a designer, os detalhes finos do vestido não vieram de artesãos, e sim do próprio relâmpago produzido durante o processo no acelerador.
O "Airo Dress", com 15 mil bolhas de vidro iridescentes, foi usado pela esquiadora Eileen Gu no Met Gala deste ano (Reprodução/Instagram)
A carreira da designer é marcada por experimentos que combinam alta costura com física, biologia e engenharia de materiais. Em maio deste ano, Van Herpen chamou atenção no Met Gala com o "Airo Dress", vestido usado pela esquiadora Eileen Gu, medalhista olímpica em Pequim 2022 e Milão Cortina 2026. A peça reunia 15 mil bolhas de vidro iridescentes, moldadas à mão e fixadas ao corpete com luz ultravioleta, em um processo que somou 2.550 horas de trabalho ao longo de 15 semanas.
Antes disso, coleções como "Crystallization", de 2010, já haviam rendido à Van Herpen o título de pioneira no uso de impressão 3D na moda, com peças que hoje fazem parte do acervo do Musée des Arts Décoratifs, em Paris. A coleção "Biopiracy" apresentou modelos embalados a vácuo entre camadas de PVC transparente, com acessórios em vidro soprado incorporados aos trajes. Já "Refinery Smoke" utilizou uma gaze de metal desenvolvida especialmente para imitar a textura da fumaça industrial.
Looks das coleções "Crystallization" (2010) e "Refinery Smoke", marcadas pelo uso de acrílico esculpido e gaze de metal, respectivamente (Divulgação)
Lady Gaga e Beyoncé já usaram criações de Iris van Herpen, unindo música e alta costura experimental (Reprodução/Instagram)
Fundada em 2007 na cidade holandesa de Wamel, a maison de Van Herpen já vestiu nomes como Beyoncé, Lady Gaga, Björk, Cate Blanchett, Tilda Swinton, Naomi Campbell e Cara Delevingne, entre outros. Neste ano, o Brooklyn Museum recebeu a estreia norte-americana da exposição "Iris van Herpen: Esculpindo os Sentidos", com mais de 140 criações da estilista ao lado de obras de arte contemporânea, aberta ao público até dezembro.