Onduli Enclave, no interior de Damaraland, foi construído sobre um afloramento de granito com vista para o Brandberg (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 24 de julho de 2026 às 09h22.
Na Namíbia, um grupo de hospedagens de alto padrão tem investido numa lógica pouco comum para o mercado do turismo de luxo. Em vez de se destacar na paisagem, os projetos buscam o oposto: desaparecer nela. O movimento, batizado de arquitetura invisível, ganha força em regiões como o Skeleton Coast e Damaraland, onde o isolamento extremo virou parte da experiência vendida aos hóspedes.
A Costa dos Esqueletos, faixa litorânea de quase 500 quilômetros conhecida pelos naufrágios espalhados entre dunas de cem metros, é um dos cenários mais hostis do planeta. Leões, elefantes e tubarões circulam entre os destroços enferrujados, em um trecho apelidado pelos moradores locais de "Portões do Inferno". Foi ali que a arquiteta namibiana Nina Maritz projetou o Shipwreck Lodge, conjunto de cabanas inaugurado em 2018 que reproduz visualmente os cascos dos navios encalhados na região.
Cabanas do Shipwreck Lodge reproduzem visualmente os cascos de navios encalhados na Costa dos Esqueletos (Divulgação)
Sala de estar do Shipwreck Lodge, com janelas em ângulo que emolduram a paisagem do deserto (Divulgação)
As cabanas foram construídas com madeira envelhecida, material que pode ser retirado caso a concessão do governo namibiano para o uso da área um dia termine, e posicionadas de forma a não alterar o horizonte visto de longe. A intenção declarada do projeto é que a construção fique subordinada à paisagem, sem competir visualmente com o entorno.
Conjunto de cabanas do Shipwreck Lodge entre as dunas da Costa dos Esqueletos (Divulgação)
Suíte do Onduli Enclave com ninho de tecelão suspenso no teto e vista aberta para o deserto (Divulgação)
Mais para o interior, nas planícies rochosas de Damaraland, outro projeto leva a lógica da invisibilidade a um novo patamar. O Onduli Enclave foi erguido sobre um afloramento de granito com vista para o Brandberg, montanha mais alta da Namíbia, dentro da Conservância de Doro Nawas, área de quase 4 mil quilômetros quadrados habitada por cerca de 1.500 pessoas e por rinocerontes-negros, leopardos e guepardos.
A villa parece flutuar sobre pilotis, com telhados em tom avermelhado que se misturam à rocha ao redor. O conjunto reúne ambientes interligados, forno de pizza ao ar livre, fogueira e piscina, além de três suítes com portas de vidro que se abrem totalmente para a paisagem. O acesso ao local foi pensado para que a construção só apareça diante do hóspede nos metros finais do caminho, quando um grupo de girafas esculpidas em metal sobre um bloco de granito sinaliza a proximidade da hospedagem.
Área de estar e bar do Onduli Enclave, com estrutura de madeira curva e vista para as rochas (Divulgação)
A concepção do Onduli é assinada por Trevor Nott, ex-ecologista do Parque Nacional de Etosha que se tornou designer autodidata. A inauguração aconteceu em 2024. Onduli significa girafa no idioma local, e o projeto foi erguido a partir de materiais biodegradáveis encontrados na própria região, como calcrete retirado de jazidas próximas e madeira de árvores mortas das matas ao redor, reunidos aos poucos até formar o conjunto final da villa.