Amyr Klink: trajetória a remo pelo Atlântico volta a Flip e vira filme (Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 23 de julho de 2026 às 17h17.
Última atualização em 23 de julho de 2026 às 17h33.
Rio de Janeiro* - Em 10 de junho de 1984, aos 28 anos, Amyr Klink saiu de Paraty, sua cidade natal, para Lüderitz, na Namíbia. 100 dias mais tarde, desembarcou na Bahia, a bordo de um barco a remo desenhado por ele mesmo. Foi a primeira travessia solo do Atlântico Sul a remo feita no mundo.
A aventura o inspirou a escrever o clássico Cem Dias Entre Céu e Mar. O livro vendeu mais de 300 mil cópias. 42 anos depois, Klink está de volta a Paraty, na Flip de 2026, com um painel para relembrar a história e promover filme inspirado nela, que chega aos cinemas em outubro deste ano.
Intitulado Cem Dias, o longa-metragem é uma adaptação do livro, feita pelas roteiristas Elena Soarez e Thais Tavares. Klink, que participou de todo o projeto como consultor, ao lado do diretor Carlos Saldanha (A Era do Gelo, Rio), será interpretado por Filipe Bragança. Todos juntos participaram nesta quinta-feira, 23, da mesa “100 DIAS: entre o livro e o filme. Os caminhos para transformar um clássico da literatura brasileira em experiência cinematográfica”, na Flip.
"A primeira coisa importante na vida é construir uma história. E a segunda é fazer com que essa história continue", disse Klink à Casual EXAME, durante passagem pelo Rio de Janeiro, alguns meses antes de chegar à feira literária.
"O cinema tem esse poder de fazer as histórias renascerem para novos públicos. E, do jeito que o Saldanha dirigiu, eu sinto que ela vai ser tão próxima das pessoas quanto foi o livro."
Amyr Klink a bordo do barco a remo I.A.T. durante a travessia solo pelo Atlântico Sul, em 1984. (Arquivo pessoal)
A travessia entre 12 de junho e 19 de setembro de 1984 marcou a história da navegação mundial. A bordo de um barco de pequeno porte projetado por ele mesmo, Amyr Klink percorreu cerca de 7 mil quilômetros da Namíbia até a costa da Bahia. Foram 100 dias em isolamento no Atlântico Sul, com 22 tempestades, presença de tubarões e racionamento de água e mantimentos.
Até hoje, Klink é visto como um dos exemplos no mundo em determinação e disciplina física, pela maneira como a viagem foi planejada e conduzida. Ele foi a primeira pessoa a cruzar o Atlântico Sul a remo em carreira solo, feito que abriu portas para expedições posteriores à Antártica — uma delas feita pela própria filha, inclusive — e ao redor do globo.
"Eu cozinhava numa panela de pressão que não existe mais. Cozinhava na pressão sempre, porque o barco tem um balanço tão violento que, se cozinhasse numa panela normal entre as pernas, provavelmente teria me queimado", conta ele. "E para economizar peso, a equipe de nutricionistas usou alimentos desidratados para preparo com água do mar, contra as normas americanas de sobrevivência. Foi tudo pensado nos mínimos detalhes para que desse certo, exigiu muito dessa disciplina, ou eu não teria conseguido."
Com mais de quatro décadas passadas desde a chegada a Salvador, o navegador enxerga o lançamento do filme como uma oportunidade para conectar a travessia a novas gerações. Mas aposta também que o público deve voltar a ler o livro — algo que ele vê como um dos movimentos mais importantes das adaptações literárias no cinema.
"Minha conexão com a literatura já é antiga. Eu escrevi vários livros, só uns quatro ou cinco viraram best-sellers, mas o que me interessa nisso tudo é que alguns entraram em adoção nas escolas e as crianças começaram a ler", contou ele. "É curioso, porque tem uma geração agora de uma moçadinha de 10 anos de idade que me conhece muito bem. Esse incentivo à leitura, já nessa idade e já com essas histórias, me emociona."
Antes do filme, Cem Dias Entre Céu e Mar ganha uma nova edição revisada pela Companhia das Letras durante a Flip, com sessão de autógrafos programada para a sexta-feira, 24, no Bar Atlântico.
Reviver a história de Klink foi uma iniciativa difícil. A ideia inicial envolveu o cineasta Breno Silveira, que realizou o documentário Mar Sem Fim, mas a produção não avançou e o filme ficou parado por algum tempo. A virada veio com a entrada da produtora Paula Cosenza, que apresentou o projeto a Carlos Saldanha e articulou a parceria com a Disney (Buena Vista International).
"O Amyr ajudou muito nesse processo de me ajudar a entender um pouco mais o personagem que eu queria criar, porque, ainda que seja baseado no livro, o filme é uma ficção", explicou o diretor à Casual, ao que Klink complementou que deixou a equipe muito livre para criar sem grandes interferências.
Saldanha conheceu Klink ao vivo em 2018, durante um jantar em São Paulo. Desde então, o processo de adaptação envolveu diversos encontros e conversas com o navegador para ajustar o tom e o recorte da história. A aparelhagem técnica e a produção, para colocar o barco cenográfico dentro d'água, foi um desafio à parte. Ao todo, foram oito anos entre conversas iniciais, captação de recursos e finalização.
"Uma obra cinematográfica é outra coisa, é diferente do que eu escrevi. Você tem que fazer um recorte, decidir quais histórias vai contar. Quis interferir o mínimo possível, dar liberdade para que eles contassem essa história", complementou Klink. Ele salientou, ainda, o cuidado da equipe com os fatos pesquisados e a seleção dos eventos. "Eles tinham mais dados sobre o que já estava feito do que eu mesmo. O cinema tem esse poder: pode estragar uma história ou revelá-la. Fiquei surpreso com o resultado."
Para ir além da cronologia do livro, Saldanha utilizou depoimentos do casal e de amigos do navegador, como o projetista do barco, Fúria, e a equipe de nutricionistas do Paraná que desenvolveu a alimentação desidratada consumida na expedição.
"O livro foi imprescindível para a execução técnica e a cronologia. Mas construir a emoção veio das conversas com o Amyr. A gente conseguiu trazer histórias familiares e pregressas para quebrar a monotonia do remo e aprofundar as camadas do filme", disse o diretor.
O navegador Amyr Klink ao lado do ator Filipe Bragança, que o interpreta no filme "100 Dias". (Divulgação)
Para as telonas, quem faz o papel de Klink é Filipe Bragança. O ator passou por uma preparação intensiva para entrar no personagem: perdeu 11 quilos, aprendeu a remar na Universidade de São Paulo (USP), deixou o cabelo crescer e treinou o uso da mão esquerda, já que o navegador é canhoto. A produção também buscou reproduzir com precisão os objetos originais da expedição, como a panela de pressão da marca Rochedo utilizada por Amyr a bordo.
Klink acompanhou parte das gravações no set e relembrou a rotina da equipe técnica e do ator principal. "Eu não teria sobrevivido se tudo fosse como nas filmagens no tanque", contou. "O mar é diferente. Você tem amplitude, ondas e liberdade. No tanque fechado, eram horas e horas no frio. Filipe ficava ensopado. Mas o empenho do pessoal filmando dentro da água e a equipe fabricando ondas foi impressionante."
Gravar cenas em ambiente aquático exige uma logística complexa. Para reconstituir as tempestades e a imensidão do Atlântico sem estourar o orçamento, a produção construiu um tanque em uma fábrica desativada em São Paulo. No local, tratores e sistemas de alta pressão geravam ondas e jatos de água para simular o mar aberto em pleno inverno paulistano.
Nem a Disney nem a produtora abriram detalhes sobre o orçamento do filme. O elenco traz ainda a atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu no papel de Asa Klink, mãe do navegador, Felipe Camargo como o pai, Jamil Klink, e João Vitor Silva como o irmão, Tymur Klink.
100 Dias chega aos cinemas de todo o Brasil no dia 29 de outubro.
*A repórter viajou a convite do Rio2c em maio de 2026.