Moda e cinema: o peso dos tapetes vermelhos nas imagens dos atores (ANGELA WEISS / AFP)
Repórter de Casual
Publicado em 20 de julho de 2026 às 19h09.
A trajetória de A Odisseia até as salas de cinema foi um processo quase tão longo quanto a própria jornada de Odisseu. Mas o primeiro contato com o público, antes mesmo da estreia do filme, veio dos tapetes vermelhos. Foi ali que Zendaya transformou a moda em uma extensão da narrativa — uma assinatura visual que ela já vinha desenvolvendo nos últimos anos, desde o lançamento de Duna: Parte 2.
O movimento é o tal do method dressing, a prática de vestir o conceito, a narrativa ou a paleta do filme fora das telas. Durante a turnê promocional do longa-metragem, que passou por cidades como Londres, Paris e Nova York, a atriz cruzou o tapete vermelho com uma série de roupas inspiradas na mitologia grega. As peças foram escolhidas a dedo, muitas vezes recém-saídas das passarelas das grandes grifes — como ocorreu com o vestido da coleção de inverno 2026 da alta-costura da Schiaparelli.
Zendaya na estreia do filme 'A Odisseia' com look da coleção de alta-costura da Schiaparelli (Reprodução redes sociais)
Em Paris, inclusive, enquanto as principais marcas desfilavam na Semana de Alta Costura, Zendaya resgatou um vestido branco de arquivo da coleção de 1997 da Givenchy, desenhado por Alexander McQueen. O modelo, de ombros estruturados e mangas dramáticas, veio acompanhado de uma máscara dourada de Philip Treacy que fazia alusão direta ao mito de Jasão e os Argonautas. Um trabalho meticuloso do já conhecido stylist da atriz, Law Roach.
A atriz não foi a única, durante a divulgação do longa de Nolan e ao longo do ano, a usar a moda a favor das produções. Em maio, Anne Hathaway desfilou com peças conceituais para promover O Diabo Veste Prada 2 e, agora, em A Odisseia,assumiu um estilo inspirado na estética grega com foco na valorização da maternidade — já que ela própria, além de interpretar uma mãe na trama, está grávida.
Anne Hathaway na estreia de 'A Odisseia', exibindo visual conceitual inspirado na estética grega. (Reprodução redes sociais)
Longe de ser uma jogada de marketing isolada ou mera vaidade, a escolha dos trajes nas turnês promocionais de blockbusters virou uma ferramenta de comunicação e intersecção da moda e do cinema. As principais grifes de luxo já trabalham com estrelas de Hollywood com antecedência para alinhar estilos — já que a escolha da roupa nesses eventos é uma mistura entre o que o filme e a personalidade do ator, como pessoa física, querem comunicar.
O movimento não está restrito às mulheres. Outras premières e premiações recentes mostram que a busca por autonomia visual também redefiniu a moda masculina. Colman Domingo, já reconhecido de outros anos pela aproximação com uma moda mais criativa e ousada, apareceu na estreia do filme de Steven Spielberg, Dia D, em Paris, com uma escolha mais cores, texturas e recortes. O conjunto foi feito pela Valentino. Em Nova York, trouxe um visual mais sóbrio, com paletó cinza, mas uma gravata azul de poá, em alusão à paleta de cores do filme.
Colman Domingo na estreia do filme 'Dia D', apostando em alfaiataria conceitual. (Divulgação)
Mesmo os mais discretos também não passam despercebidos nos tapetes vermelhos. Para a divulgação de Homem-Aranha: Um Novo Dia, Tom Holland construiu uma transição polida ao longo da press tour. Até porque o personagem que o ator interpreta pode ser mais jovem, mas o porte de Holland diante da moda é algo mais maduro.
Em Madri, Holland utilizou um visual todo preto total, com uma sutil camisa vermelha que evocava o tom de Peter Parker. Em Roma, desfilou um terno bordô sob medida da Louis Vuitton com gravata de seda, que tinha uma aranha estampada. Em Londres, encerrou os compromissos com um conjunto Prada cinza-chumbo e camiseta bordô em modelagem relaxada, uma prova de que a alfaiataria clássica ganha força quando combinada a elementos de impacto sartorial.
Parte da personalidade de Holland, ainda que relacionadas ao tom de Homem-Aranha, as escolhas do estilista do ator chamaram a atenção para o filme. Em especial porque foram combinadas com as peças de Zendaya.
Na contramão do maximalismo dos atores, o tapete vermelho também impõe momentos em que a indumentária opera em uma frequência mais rígida. Há ocasiões em que o figurino assume um papel corporativo e institucional, e exige uma comunicação visual sóbria, polida e que dita as dinâmicas de poder nos bastidores da indústria.
Para Olivia Wilde, por exemplo, que assumiu o papel de diretora em O Convite, a postura se fez necessária. A cineasta adotou uma linha minimalista e geométrica no guarda-roupa. Na estreia em Londres, surgiu com um vestido preto de alças finas e decote quadrado da Calvin Klein Collection. Em Los Angeles, optou por um modelo preto de mangas longas e ombros bem marcados, em um estilo assinado por Anthony Vaccarello para a Saint Laurent.
Coordenada pela stylist Karla Welch, a escolha de Wilde por silhuetas austeras e cores monocromáticas foi uma declaração de intenções claras e deliberadas. Sendo uma mulher na cadeira de direção, um espaço de liderança técnica tradicionalmente dominado por homens, a adoção de um estilo sóbrio comunicou um papel diferente. Em vez de vender a fantasia ficcional do filme ou se colocar como um objeto de destaque estético, o vestuário foi utilizado para impor respeito e autoridade.
Olivia Wilde na estreia de 'O Convite', apostando em um estilo minimalista e sóbrio. (Foto: Divulgação)
Wilde, Zendaya e Domingo à parte, há um outro tipo de vestuário no tapete vermelho que não muda: aquele que não abre mão da personalidade para declarar algo. É o caso do desleixo intencional de Adam Sandler. Ao comparecer a uma série de premières recentes vestindo casacos de moletom oversized em cores berrantes, calças esportivas largas e tênis de corrida, o ator frequentemente atrai críticas nas redes sociais por quebrar o rigor do protocolo de gala.
O antifashion de Sandler, no entanto, comunica tanto quanto a alta-costura de Zendaya ou a seriedade de Wilde. Ao recusar as regras do mercado de luxo e a etiqueta de Hollywood, o comediante utiliza o moletom como um manifesto de autenticidade. É uma mensagem direta à indústria: seu nome e a fidelidade de seu público são tão consolidados que dispensam qualquer verniz têxtil para validar o valor de mercado.