Look em plumas brancas da Matières Fécales, peça final do desfile de estreia da marca em Paris, no outono/inverno 2025, usado posteriormente por Zendaya (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 25 de julho de 2026 às 16h04.
Zendaya chegou à première de A Odisseia, em Nova York, com um vestido branco esculpido e asas de pena que se projetavam das costas. Poucos dias depois, a modelo Gabbriette se casou com Matty Healy, da banda The 1975, usando um vestido de noiva em cetim e tule branco, com um espartilho trabalhado à mão e uma barra rasgada que imitava tecido em decomposição. As duas peças saíram do mesmo ateliê parisiense, batizado com um nome que a maioria das marcas de luxo evitaria: Matières Fécales, expressão que em francês significa matéria fecal.
Zendaya na premiere do filme 'A Odisseia', usando look conceitual inspirado na mitologia grega, criado pela Matières Fécales (ANGELA WEISS / AFP)
A grife foi fundada em Montreal em 2014, pelas mãos dos designers canadenses Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran. Nenhum dos dois passou por escolas de moda tradicionais como a londrina Central Saint Martins, e nenhum trabalhou antes em ateliês de grandes casas. A dupla começou vendendo peças upcycle e únicas no Depop, enquanto trabalhava como DJ para pagar as contas, e foi construindo seguidores nas redes sociais a partir de uma estética gótica e propositalmente estranha, que misturava beleza convencional com deformação.
A virada aconteceu nos bastidores de um show de Madonna, quando os dois abriam o espetáculo e, ao mesmo tempo, assinavam figurinos para a turnê Celebration. Foi ali que conheceram Adrian Joffe, da Dover Street Market, que se tornou padrinho do projeto por meio da incubadora da loja multimarcas. Com esse apoio, a Matières Fécales estreou oficialmente no calendário de Paris na coleção de outono de 2025.
O rótulo dos dois criadores para o próprio trabalho é uma estética pós-humana. As coleções questionam os códigos tradicionais de vestimenta, do uniforme corporativo ao vestido de festa, por meio de silhuetas distorcidas e tecidos que parecem se desfazer diante dos olhos.
A coleção de outono de 2026, apresentada em março em Paris, satirizava o um por cento mais rico com luvas de ópera tingidas de vermelho nas palmas, máscaras estampadas com notas de dólar e próteses que simulavam cirurgias plásticas malsucedidas.
Apesar do exagero proposital, a execução técnica das peças chama atenção de quem acompanha moda de perto. Prega, alfaiataria e armação de crinolina recebem o mesmo cuidado que se vê em ateliês de alta costura estabelecidos há décadas, o que ajuda a explicar por que a estética inicialmente vista como nicho vem conquistando um público maior.
Antes da première de A Odisseia, Zendaya já havia usado a marca em março, num vestido de chiffon pêssego rasgado para divulgar o filme O Drama. Sarah Paulson escolheu a grife para o Met Gala deste ano, Demi Moore apareceu em um vestido de seda rosa elétrico e desgastado no último Festival de Cannes, e Lady Gaga usou um modelo com um ombro só e penas no Grammy de fevereiro.
A dupla de criadores também assina a própria imagem como parte da marca. Dalton e Bhaskaran raspam a cabeça e usam traços grossos de delineador que se estendem até as têmporas, um visual que carregam tanto nos desfiles quanto no dia a dia. A casting das passarelas segue a mesma lógica de abertura, reunindo modelos de idades, corpos e identidades de gênero variados, incluindo nomes como o influenciador de longevidade Bryan Johnson e a criadora de conteúdo Nikki Lilly.
O que a marca representa hoje no red carpet vai além do choque inicial causado pelo nome. Depois de anos girando por dentro de um circuito alternativo de moda, a Matières Fécales chegou a um momento em que estilistas de celebridades e diretores de imagem procuram justamente aquilo que antes afastava contratos: uma peça que ninguém mais vai repetir naquela mesma noite.