Matt Damon como Odisseu no acampamento à beira-mar, com os navios gregos ao fundo (Melinda Sue Gordon/Universal Pictures)
Jonalista colaborador
Publicado em 22 de julho de 2026 às 15h24.
Quando a diretora de arte Ruth De Jong perguntou a Christopher Nolan quais seriam os limites para construir os cenários de seu novo filme, a resposta do diretor não deixou espaço para meios-termos: "o mundo inteiro". Foi esse o ponto de partida para a produção de Odisseia, adaptação do poema épico de Homero estrelada por Matt Damon, Anne Hathaway, Zendaya e Tom Holland, que chegou aos cinemas com uma promessa pouco comum para os padrões atuais de Hollywood. Nolan e De Jong, parceiros também em Oppenheimer, decidiram erguer fisicamente quase tudo o que aparece na tela, evitando ao máximo o uso de telas verdes.
Ao longo de 91 dias de filmagem, a equipe percorreu seis países para dar forma aos cenários que a narrativa exige: florestas, praias, palácios, navios de guerra e um cavalo de madeira com mais de dez metros de altura. Rodagens aconteceram na Sicília, na Escócia, na Islândia, no Marrocos, na Grécia e na Itália, além de estúdios montados em Los Angeles.
Anne Hathaway e Tom Holland, como Penélope e Telêmaco, no Castelo de Santa Caterina, na Sicília (Melinda Sue Gordon/Universal Pictures)
Para dar vida ao reino de Odisseu, De Jong recorreu ao Castelo de Santa Caterina, erguido no século XV no topo da ilha siciliana de Favignana. Segundo informações do site Architectural Digest, o elenco e a equipe técnica precisaram subir cerca de 270 metros de terreno íngreme para chegar ao local, usado nas cenas externas do palácio.
Já o megaron, salão em que os pretendentes de Penélope disputam o trono na ausência do rei, foi construído em um estúdio de Los Angeles com três andares de altura e comprimento equivalente a dois campos de futebol. A diretora de arte descreveu o desafio de fazer as transições entre partes reais e construídas parecerem imperceptíveis para quem assiste ao filme.
As cenas em que Odisseu enfrenta o mar Mediterrâneo também foram filmadas em água aberta, sem recursos digitais para simular as ondas. A embarcação principal, com 35 metros de comprimento, veio de Stavanger, na Noruega, e passou por um processo de transformação até virar o navio de guerra grego usado no filme. Depois de receber ornamentos como decalques em bronze na proa e na popa, o barco viajou da Escócia até o Marrocos ao longo das filmagens.
Figurantes puxam o cavalo de Troia até a água em cena filmada em Essaouira, no Marrocos (Melinda Sue Gordon/Universal Pictures)
A reconstrução da Guerra de Troia concentrou boa parte do trabalho de De Jong. A equipe usou a vila histórica de casas de barro da província de Ouarzazate, no Marrocos, para erguer uma estrutura de mais de um hectare, que incluiu o Templo de Atena, portões, torres e escadarias. Até as oliveiras do entorno foram levadas para reforçar a ambientação. Segundo a diretora de arte, em entrevista ao Architectural Digest, tudo o que pega fogo nas cenas de batalha foi de fato construído pela equipe, enquanto as ruas estreitas da vila serviram de cenário para as movimentações dos soldados.
O cavalo de Troia, elemento central da estratégia grega para invadir a cidade, foi projetado e montado em Los Angeles antes de ser transportado para as demais locações. A estrutura oca, com pouco mais de dez metros de altura, chegou a ficar parcialmente submersa em uma praia de Essaouira, no Marrocos, com atores literalmente posicionados dentro do compartimento usado para a invasão. Nolan optou por não incluir rodas no cavalo, mantendo a estrutura mais próxima da descrição original do poema.
Reconstituição do incêndio de Troia, erguida na vila histórica de Ouarzazate, no Marrocosggg (Melinda Sue Gordon/Universal Pictures)
Outros trechos da jornada de Odisseu também ganharam locações específicas. O encontro com a feiticeira Circe, interpretada por Samantha Morton, foi filmado entre penhascos e águas agitadas da Escócia. As praias de areia negra da Islândia serviram de cenário para Hades, enquanto o litoral remoto do Marrocos abrigou as cenas com a ninfa Calipso, vivida por Charlize Theron.
Ao final da produção, De Jong reconheceu a magnitude do que foi realizado, comparando a escala do projeto a grandes produções históricas do cinema e destacando o comprometimento da equipe com um trabalho que dificilmente se repetirá nesses moldes.