Quadrado Mágico de Paraty, onde se encontra o sandi Hotel
Jornalista
Publicado em 25 de julho de 2026 às 08h06.
Última atualização em 25 de julho de 2026 às 09h13.
Paraty conseguiu manter seu charme de outros séculos, com seus pavimentos de pedra e casarões históricos, por um motivo: a cidade foi esquecida. No século XVIII, viveu seu auge como porto de escoamento do ouro de Minas, ponta final da Estrada Real.
Mas perdeu o posto quando o Caminho Novo passou a ligar Minas direto ao Rio de Janeiro. A cidade chegou a ter uma sobrevida com o café no século seguinte, mas ruiu de vez quando a Estrada de Ferro Dom Pedro II, construída em 1858, desviou a rota e a deixou cada vez mais isolada.
A ironia é que foi esse isolamento que a salvou, já que a falta de pressa para crescer garantiu que o centro histórico ficasse parado no tempo.
Redescoberta por artistas nos anos 1950 e tombada pelo IPHAN em 1958, Paraty virou em 2019 o primeiro Patrimônio Mundial Misto do Brasil pela UNESCO. E foi na era da redescoberta que uma despretensiosa pousada começou, aos poucos, a se transformar em um dos ecossistemas de hospitalidade mais interessantes da região.
O nome por trás de um dos charmes da cidade é o de Sandra Foz. A empresária e artista plástica recebeu de presente do seu marido, em 1984, a propriedade que viria a se chamar Pousada do Sandi em 1991.
Por anos, o empreendimento funcionou no ritmo da própria Paraty: dia a dia tranquilo, diárias com preço competitivo comparadas aos demais hotéis e boas recomendações.
A virada começou quando o filho, Sandi Adamiu, assumiu o negócio. Ele deu sequência ao que a mãe havia plantado, mas já enxergava o que faltava: Paraty com paisagem, história e uma autenticidade que nenhum resort planejado do zero conseguiria fabricar.O negócio principal da família Adamiu era a Paris Filmes, fundada pelo avô, Sandi, que batiza o hotel e divide o nome com o neto.
Mas a visão de negócio do filho de Sandra foi fundamental para criar uma operação de hospitalidade capaz de construir uma experiência de luxo em uma arquitetura colonial.
O salto do negócio aconteceu no momento em que praticamente ninguém no mundo estava investindo em hotelaria, durante a pandemia do coronavírus. Sandi vendeu sua participação na Paris Filmes e apostou o capital em um projeto que parecia contraintuitivo para 2020: transformar a pousada pitoresca da família em um hotel boutique de luxo internacional.
"Foi realmente uma transformação na pandemia, um investimento grande que a gente virou o negócio", diz o empresário.
E assim, a pousada do Sandi virou Sandi Hotel, uma manutenção da história da família que nasceu o conceito que organiza tudo hoje: o quadrado mágico.
O quadrado mágico paratiense tem como inspiração outro quadrado famoso, o de Trancoso. Mas, em Paraty, o quadrilátero foi desenhado por Sandi e sócios especialistas em diferentes ramos para atender diferentes jornadas dos hóspedes.
Tudo começa, é claro, pela hospedagem: atendimento premium, obras de arte de artistas como Di Cavalcanti, Cícero Dias, Gabriel Wickbold e diversos outros, além das histórias que foram penduradas pelos corredores do hotel; há lembranças de momentos da Paris Filmes, retratos da família e coleções únicas adquiridas ao longo dos anos, como fotos originais e joias que pertenceram a Carmen Miranda.
Os quartos são espaçosos, bem decorados e a estética colonial que dialoga com Paraty é mantida, mas sem abrir mão de conforto e tecnologia. A manhã é de mesa farta, com insumos de produtores locais.
Pós-café, a sugestão é agendar uma aula na Cerâmica Foz e criar suas próprias peças com ajuda de uma profissional.
Em dias de sol, a sugestão é explorar as praias em um passeio de barco com uma pausa para degustar um peixe fresco em alto mar ou então caminhar pelas pedras irregulares e conhecer a cidade. Na segunda opção, uma parada certa: a sorveteria Miracolo, de Roberto Bellia, chef italiano de Perugia que trata gelato como alta gastronomia. O sucesso é tão grande que o negócio conta com uma segunda unidade na capital paulista, região dos Jardins.
Em dias mais chuvosos, por que não aproveitar o Shambhala Spa, refúgio de um holandês que rodou o mundo antes de plantar raízes em Paraty.
A noite da cidade combina com um drinque no Apotecário, bar de alta coquetelaria que conta com cardápio autoral, mas sem esquecer dos clássicos.
E, para o jantar, duas opções que não podem ficar de fora do roteiro. Dentro do próprio hotel está o jardim sensorial do Pupus. A cozinha colhe, muitas vezes na hora do serviço, as PANCs (plantas alimentícias não convencionais, ou "punks", como o chef prefere chamar) que viraram assinatura do restaurante.
Por trás da fumaça que sobe da estrutura de brasa catalã — a Josper, que defuma peixes, molhos e até arroz —, está a história de um mineiro que construiu em Paraty um restaurante que respeita o território tanto quanto a técnica: peixe que chega de bicicleta pelo pescador da colônia local, tempero da terra e nada fora de estação.
A outra opção é o Fugu, restaurante japonês comandado pelo chef Eduardo Diniz: apenas peixes do dia servidos em menu degustação, em uma delicada caixa que chega como pequenas surpresas.
Cozinha autoral que não tem medo de experimentar e surpreender os clientes. A grande novidade por lá é a Suíte Fugu, que estreia bem a tempo da FLIP deste ano, instalada logo acima do restaurante.
E, para levar um pedaço do dia para casa, a Galeria do Quadrado cura mais de 50 artistas locais em rotação constante. Cerâmica com vidro de praia triturado, miniaturas de papel de artesãos caiçaras, mobiliário de design brasileiro. A próxima fase é expor as obras dentro dos próprios quartos, à venda.
Os números acompanham a transformação. Antes da pandemia, a diária média do hotel custava em média R$ 500, e hoje passa de R$ 1.850. Já a ocupação subiu de 62% para 75%. Mais de R$ 20 milhões foram investidos entre o hotel, o quadrado mágico e as vilas.
Além do hotel e do quadrado mágico, Sandi também administra a vila Bom Jardim. Trata-se de um terreno da família, adquirido quando a Pousada do Sandi ainda nem existia, em 1966, e que abre as portas para hospedagem de luxo nos períodos em que os donos não estão usando.
A 10 minutos de barco do centro de Paraty, a ideia nasceu inspirada no empresário Richard Branson e sua Necker Island: ter a casa dos sonhos com os custos neutralizados por quem se hospeda nela.
A casa principal foi reorganizada para receber grupos em busca de privacidade total. Isso inclui piscina própria, jardim fechado e a sensação de estar hospedado na casa de um amigo generoso, não num hotel. No entanto, a conta chega ao final.
A estrutura fica responsável pelo transporte de barco sempre que o hóspede desejar; cada almoço é servido com uma louça diferente da coleção da casa, que pode ser de Hermès a Dolce & Gabbana.
A decoração é um show à parte: mistura a curadoria de anos da família, com obras de arte vindas do mundo inteiro, e as lembranças da época da Paris Filmes, como um projetor de cinema antigo e dois King Kongs de três metros plantados no jardim.
"No começo você se apega à casa", conta Sandi, "mas só vem gente legal, gente que deixa presente, gente que fica amigo".
E chegamos à parte da história que ainda está sendo escrita. Depois de consolidar o hotel, o quadrado mágico e a casa de veraneio, o próximo movimento é territorial e arquitetônico: o Itucupê, o primeiro beach club internacional entre Paraty e o Rio de Janeiro, projetado em parceria com o arquiteto premiado Marko Brajovic.
A história entre o arquiteto e a ilha parece uma cena de filme. Na primeira visita de Marko ao terreno, uma praia que já foi tomada por plantações de cana e café e que a Mata Atlântica, décadas depois, reconquistou sozinha, no primeiro passo dado na areia, esbarrou em um ouriço-do-mar. "Aquele ouriço é o projeto", resume Brajovic.
A casca do animal está guardada até hoje no escritório do arquiteto, e toda a geometria do Itucupê nasce das formas fluidas que lembram o fundo do mar com uma piscina que se abre para o horizonte.
Tudo isso com tecnologia sustentável, de reflorestamento de pinus e eucalipto, prontos para montar como um grande quebra-cabeça orgânico.
Feche os olhos e imagine chegar de barco, pisar na areia e caminhar sob tendas de bambu e macramê que filtram a luz do sol em desenhos que se movem com o vento. À noite, luminárias em formato de água-viva parecem descer do teto, como se você estivesse, de fato, no fundo do mar.
"A sensação é sentir que você está no fundo do mar, mas de uma forma subliminar, não temática", diz o arquiteto.
Nos planos estão uma banheira de ervas escondida no meio de um bambuzal existente, camas suspensas no meio da floresta para casais que querem sumir por uma tarde inteira, e uma faixa densa de restinga preservada.
O compromisso declarado é reduzir ao mínimo a violência que uma construção costuma trazer à natureza: sem escavação pesada, sem concreto em excesso, estrutura leve e pré-fabricada que chega pronta e é só montada no terreno, quase nivelado como está.
Financeiramente, a ambição está à altura da poesia: a primeira fase do projeto deve ter um investimento de R$ 25 milhões. Já a segunda fase, de bangalôs, somarão mais R$ 15 milhões.
Já são cinco anos de amadurecimento até aqui, e a previsão é de que ele continue sendo ajustado, movido, refinado até o dia em que a arquitetura finalmente se encontrar com o território de verdade.
"Só quando virmos o comportamento das pessoas é que vamos entender como essa arquitetura se inseriu aqui", diz o arquiteto.
Por trás do hotel, quadrado mágico, vilas e agora o beach club, o discurso de Sandi Adamiu se repete com uma consistência quase teimosa: o ativo mais valioso não é o imóvel, são as pessoas.
"Acho que o maior legado é valorizar o ser humano, ainda acreditar no ser humano e dividir", diz ele. "A gente tá sempre pensando em dividir o sucesso, dividir com as pessoas nossos espaços, dividir alegria."
É esse o fio que conecta a Paraty que sobreviveu ao próprio esquecimento, a pousada de família que virou hotel boutique, as vilas que abrem as portas sem deixar de ser lar, e um beach club que nasceu de um ouriço encontrado na areia.
Nesse ecossistema, luxo não precisa de ostentação; é simplesmente a soma de pequenos negócios genuínos dentro de um pedaço de litoral que a natureza teve tempo de reconstruir sozinha. Vale a viagem só para descobrir isso de perto.