'A Odisséia': novo épico de Nolan reinterpreta a mitologia grega aos olhos da modernidade (Universal Pictures/Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 15 de julho de 2026 às 15h55.
Última atualização em 17 de julho de 2026 às 15h55.
“De tudo o que respira e rasteja sobre a terra, nenhuma criatura é mais frágil do que o homem.” Escrita há cerca de três mil anos em A Odisseia, a frase de Homero foi usada pela Filosofia por séculos para expor uma contradição inerente da humanidade e do ego. No silêncio que sucede à barbárie das guerras, mesmo quando há glória, o que resta é apenas a pequenez diante do estrago causado.
É essa a moral da história de Odisseu, na aventura que marca seu retorno a Ítaca após a conquista de Troia, e que guia a interpretação do vencedor do Oscar Christopher Nolan em sua nova adaptação épica da epopeia grega, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 16.
Estrelada por um nada modesto elenco de gigantes de Hollywood — liderado por Matt Damon, Anne Hathaway, Charlize Theron, Robert Pattinson, Tom Holland e Zendaya —, A Odisseia é a maior aposta de carreira do cineasta até o momento. O filme chega aos cinemas dois anos após a estreia do premiado Oppenheimer, maior vencedor do Oscar em 2024, incluindo Melhor Filme em 2024 e Melhor Direção.
Cristopher Nolan e Cillian Murphy durante as gravações de "Oppenheimer". O filme levou sete estatuetas do Oscar em 2024.
Os prêmios elevaram a barra de ambição do cineasta; o que foi feito em Oppenheimer ganha aqui novas proporções. Antes mesmo da estreia, A Odisseia já entra para a história por ser o primeiro longa-metragem inteiramente filmado em película IMAX de 15/65 mm. A engenharia técnica exigiu soluções inéditas: a produção desenvolveu um mecanismo abafador (the blimp) para reduzir o ruído dos motores da câmera e um sistema de espelhos para que os atores conseguissem manter a linha de visão e se enxergar em cena. Só o rolo do filme passa dos 18 km de extensão e pesa, em média, 300 kg.
Não bastasse a complexidade técnica, Nolan também ampliou o orçamento para dar vida ao épico em locações privilegiadas. A produção rodou o mundo por seis países: Marrocos, Grécia, Islândia, Escócia, Itália e Estados Unidos. Como já é de costume na filmografia do cineasta, as cenas são, em sua maioria, práticas. Foram gravadas no mar ou em tanques de água, com batalhas coreografadas e truques técnicos. Um épico ambicioso, de US$ 250 milhões, para uma história ambiciosa, como tinha de ser.
Mas a escala de proporção de A Odisseia, ainda que impressione, é só uma moldura do que o filme propõe nas entrelinhas. O verdadeiro objetivo de Nolan reside, repare na fina ironia, em uma urgente lição de humildade.
Christopher Nolan e Matt Damon durante as gravações de "A Odisseia", que chega nesta quinta-feira, 16, aos cinemas
Quem acompanha Christopher Nolan de "outros carnavais", antes de A Origem (2011), Interestelar (2014) e Oppenheimer (2023), nota uma assinatura muito clara nos roteiros dele: há um desejo insistente de trazer uma moral da história, vinda, quase todas as vezes, de diálogos expositivos aos quais boa parte da crítica torce o nariz.
Em A Odisseia, no entanto, essa característica funciona (e muito bem, por sinal), já que o texto clássico e consolidado de Homero foi originalmente concebido como uma poesia, voltada a ensinar uma lição de ética e conduta. Nessa convergência, os dois mundos colapsam em harmonia: a veia moralista de Nolan e a essência da epopeia grega se complementam. Uma naturalmente puxa a outra.
No universo da mitologia grega, a história de Odisseu serve para nos lembrar de que o homem não está acima dos deuses. No contexto de 2026, num mundo cercado por bilionários que se colocam na posição de divindades e por guerras que dizimam povos e seus países, a narrativa de Nolan cutuca a ferida e explora, com ela, a catástrofe da perda da humanidade.
Tendo as mensagens de paz e humildade como principais fios condutores do longa, o passo importante foi tornar a narrativa original de Homero, dividida entre várias pequenas aventuras de Odisseu, em uma única história consolidada para o cinema. A saída de Nolan para não deixá-la tão cansativa — já que o filme tem quase três horas de duração —, foi dividir o roteiro em duas histórias diferentes, mas complementares: uma linha recria a trajetória de Odisseu (Matt Damon), outra fica retida na ilha de Ítaca, onde a esposa do herói, Penélope (Anne Hathaway), e seu filho e herdeiro do trono, Telêmaco (Tom Holland), esperam pelo retorno dele.
A estratégia não é nova; já havia sido aplicada em Oppenheimer. Somada às cenas de batalha, que são mesmo de tirar o fôlego tanto em técnica de filmagem quanto em coreografia, maquiagem e figurino, funciona para reter a atenção do início ao fim do filme.
Matt Damon lidera como Odisseu a tripulação dos gregos rumo às aventuras de volta para casa.
Para além da moral e de todas as qualidades técnicas, é importante destacar o quanto A Odisseia cresce nas atuações. Se em Oppenheimer Nolan extraiu um desempenho premiado de Cillian Murphy, em A Odisseia, ele aplica a mesma rigidez com Matt Damon. No papel de Odisseu, o ator entrega o trabalho mais desafiador e fisicamente exigente de sua carreira. Encarou condições extremas de filmagem e intensas cenas de luta física.
Ser o guerreiro perfeito é fácil na teoria, mas demonstrar a vulnerabilidade de um líder que precisa se reconstruir a partir da própria queda exige um controle dramático que o ator sustenta com maestria. No elenco de apoio, a melhor atuação e desenvolvimento de personagem atende pelo nome de Samantha Morton. A participação como Circe, em poucos minutos de tela, é mais que o suficiente para roubar a cena.
Além do trabalho dela, é impossível não destacar Tom Holland, que brilha como Telêmaco; Himesh Patel, que entrega um trabalho notável como o homem de confiança de Odisseu; e Robert Pattinson, que vai causar sentimentos fortes em muita gente pela dedicação no papel do traidor Antinous. Zendaya é a melhor Atena que Nolan poderia ter escolhido.
Para as demais personagens femininas, no entanto, o cineasta segue com dificuldade de desenvolvimento. Anne Hathaway entrega uma atuação digna e ressentida como Penélope, mas poderia ser melhor aproveitada em tela, dado a complexidade da personagem na espera pelo marido. O mesmo vale para Charlize Theron, no papel de Calipso.
Anne Hathaway e Mia Goth em "A Odisseia", de Christopher Nonal (Universal Pictures)
Seria impossível falar de A Odisseia sem citar as locações escolhidas, a trilha sonora de Ludwig Göransson e a preciosidade dos figurinos.
A imersão geográfica é um pilar essencial da narrativa. A praia de areia negra na Islândia, que dá vida ao submundo de Hades, o isolamento rústico de Favignana, na Itália (locação de Ítaca), e o cenário de 360 graus construído no Marrocos para representar Troia dão um peso físico que nenhum estúdio digital conseguiria replicar.
A beleza da cenografia ganha contornos sob o trabalho de fotografia de Hoyte van Hoytema. A decisão de iluminar a noite de Troia sem luzes artificiais de cinema, com o uso de milhares de pequenas placas de LED emuladoras de fogo, cria um expressionismo repleto de sombras profundas e perigosas.
A cenografia na Islândia feita para simular o submundo de Hades em "A Odisseia". (Universal Pictures)
A pátina do tempo e o desgaste da guerra também são traduzidos nos figurinos de Ellen Mirojnick. Longe do bronze polido e reluzente dos épicos genéricos de Hollywood, a figurinista vestiu o elenco com armaduras oxidadas, amassadas pelo combate e manchadas de sal, feitas de bronze verdadeiro para não serem desmascaradas pelas lentes IMAX.
Para amarrar a experiência sensorial, a trilha sonora de Ludwig Göransson vem na contramão do que se espera de um épico, e talvez por isso funcione tão bem. Göransson e Nolan desenvolveram um desenho de som único, que fundiu instrumentações do mundo antigo, como a harpa, a lira e o aulos, com sintetizadores contemporâneos e o timbre metálico de 35 gongos afinados. O destaque musical é o motivo melancólico de Odisseu, construído em três notas que emulam o som obsessivo e tenso de uma corda de arco sendo dedilhada, e ecoam a solidão do herói à deriva no mar.
Mesmo que o ritmo às vezes engasgue, devido à estrutura fragmentada de adaptar tantas pequenas canções e mitos da poesia de Homero em um único longa de três horas, a essência do clássico permanece intocada.
Nolan tomou liberdades criativas com o texto original que podem desagradar os puristas, mas sua visão de homens brutalizados que se enxergam e se desumanizam é arrepiante. A Odisseia talvez não seja o melhor filme da carreira de Nolan, mas é, indiscutivelmente, sua obra mais monumental em escala e ambição. Vale a pena o valor do ingresso, e precisa ser visto em IMAX.