Readme, do time do Co-Star, usa um questionário de 25 perguntas para encaixar os usuários em 12 arquétipos de leitura (Pexels)
Jonalista colaborador
Publicado em 24 de setembro de 2026 às 10h40.
Antes de ver o primeiro perfil no Readme, o usuário precisa escolher entre trechos de clássicos da literatura, dizer como se sente em relação à própria escrita e atravessar um questionário de 25 perguntas. O aplicativo de namoro, lançado em setembro nos Estados Unidos, foi criado por Banu Guler, fundadora do Co-Star, e Emily Segal, escritora e chefe de marca da empresa, com a proposta de reunir pessoas que leem ou que querem se relacionar com alguém que lê.
O Readme funciona como uma divisão do Co-Star, aplicativo de astrologia conhecido por comparar mapas astrais entre usuários. Por enquanto, está disponível apenas para iPhone, exige o iOS 26 e é restrito a maiores de 18 anos. O download é gratuito, embora as fundadoras tenham dito ao The New York Times que o modelo pode mudar.
A estreia acontece num momento em que a cultura literária virou assunto recorrente fora das livrarias. Dua Lipa, Kaia Gerber e Solange Knowles mantêm clubes do livro e bibliotecas virtuais, e as adaptações de O Morro dos Ventos Uivantes e A Odisseia estão entre os filmes mais comentados do ano. Em Nova York, a livraria McNally Jackson promove eventos para solteiros.
Segundo a empresa, o questionário se apoia em pesquisas de literatura, análise de linguagem e psicolinguística para encaixar cada usuário em um de 12 arquétipos de leitura. Entre eles estão Former Gifted Child, associado a quem dá pouca importância a convenções sociais, e Utopia in Our Lifetime, para quem enxerga o mundo de forma mais idealista. Na maior parte das perguntas, a pessoa escolhe entre duas passagens de livros, e o resultado considera, por exemplo, a preferência por uma linguagem mais elaborada ou mais enxuta.
O perfil gerado pelo teste serve como ferramenta de autoconhecimento e não limita quem aparece para cada usuário. Os possíveis pares enxergam apenas um resumo do arquétipo da outra pessoa e uma projeção de compatibilidade. "Acho que é muito parecido com a astrologia, em que a diferença não é algo ruim", disse Guler ao The New York Times. A inteligência artificial foi usada para classificar o material literário da base e escrever parte do código, e a empresa afirma que nenhum texto exibido ao usuário passou por ferramentas do tipo.
Fundado em 2017 em Nova York, o Co-Star soma cerca de 4,3 milhões de usuários ativos por mês e teve a venda para a Midjourney, laboratório de inteligência artificial especializado em geração de imagens, anunciada em julho. Os valores da operação não foram divulgados. Com o negócio, Guler, de 38 anos, assumiu o cargo de diretora de design da Midjourney e manteve o controle do aplicativo de astrologia.
A ideia de um app de relacionamentos dentro do Co-Star circulava havia anos, e as conversas ganharam corpo no fim de 2025, com os primeiros protótipos prontos no início de 2026. Para Segal, de 37 anos, os aplicativos de namoro atuais achatam as pessoas e deixam de lado as dimensões humanas e eróticas que despertam o interesse entre duas pessoas. Pouco depois de começar o relacionamento com quem hoje é seu cônjuge, ela deu de presente um exemplar dedicado de As Pequenas Virtudes, coletânea de ensaios da italiana Natalia Ginzburg.
O lançamento foi celebrado no Funny Bar, no Lower East Side de Manhattan, com drinques, show do rapper Trim, conhecido pela faixa viral Coconut Water, e uma mistura de convidados do meio literário, amigos das fundadoras e curiosos. A revista The Cut relatou que, durante o evento, era difícil até descobrir como se cadastrar.
O Readme também chega a um nicho que já tem concorrentes, como o Bookmark, que esconde o rosto dos usuários até que os dois troquem dez mensagens. Nos primeiros dias, a base de perfis ainda é pequena, e o cadastro extenso esbarra no cansaço que muitos usuários relatam com aplicativos de namoro. Segal admitiu ao jornal americano que nem todos vão querer responder às perguntas, mas avalia que existe um público que não se define como literário e ainda assim se interessa em descobrir algo sobre si por meio da leitura.