O esgotamento no trabalho afeta a qualidade de vida e exige atenção aos hábitos diários (zhu difeng/Shutterstock)
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Publicado em 26 de julho de 2026 às 07h00.
Por Igor Trotte*
Vivemos uma época em que descansar parece culpa e estar cansado virou quase símbolo de ambição.
Existe uma pressão silenciosa para performar o tempo inteiro: trabalhar mais, render mais, treinar mais, estudar mais, produzir mais.
O problema é que o corpo humano não foi projetado para funcionar em estado contínuo de alerta.
Do ponto de vista biológico, excesso de estresse, privação de sono, alimentação desregulada, sedentarismo e hiperestimulação constante são interpretados pelo organismo como ameaça. E o corpo responde a isso.
Muitas vezes, o que as pessoas enxergam como "falta de motivação" ou "preguiça" é, na verdade, um organismo entrando em exaustão metabólica e hormonal.
Isso aparece cada vez mais cedo nos consultórios.
Adultos jovens com fadiga persistente, ansiedade, dificuldade de concentração, piora importante do sono, ganho de gordura abdominal, compulsão alimentar, queda de libido e sensação de cansaço constante mesmo após descansar.
E existe um detalhe importante: normalmente, quando o corpo começa a dar sinais de esgotamento, a reação não é desacelerar.
É tentar compensar acelerando ainda mais. Mais cafeína. Mais estimulantes. Mais pré-treino. Mais dieta extrema.
Mais suplemento prometendo foco, energia, testosterona, longevidade ou emagrecimento rápido.
Como se o corpo fosse uma máquina que pudesse ser "hackeada" indefinidamente e sem consequência. Só que metabolismo não funciona assim.
A cultura atual vende a ideia de otimização máxima, mas existe um limite biológico que não pode ser ignorado por muito tempo.
Nenhuma estratégia compensa de forma sustentável anos de sono ruim, excesso de cortisol, sedentarismo, alimentação caótica e ausência de recuperação física e mental.
Isso não significa defender uma vida sem metas, ambição ou alta performance.
O problema não é querer produzir mais. O problema é acreditar que o corpo tolera uma rotina de sobrecarga permanente sem cobrar a conta depois. Porque cobra.
A medicina evoluiu muito no tratamento da obesidade, da resistência insulínica, das alterações hormonais e do envelhecimento metabólico.
Hoje existem ferramentas muito mais eficazes do que há alguns anos.
Mas ainda existe algo que nenhuma medicação substitui: hábitos sustentáveis.
Sono adequado, preservação de massa muscular, atividade física regular, alimentação minimamente organizada e manejo do estresse continuam sendo pilares centrais de saúde e longevidade.
Inclusive porque saúde não é apenas ausência de doença.
É capacidade de sustentar energia, clareza mental, disposição e qualidade de vida ao longo do tempo.
Talvez uma das maiores contradições da vida moderna seja essa: nunca tivemos tantos recursos para aumentar performance e, ao mesmo tempo, tantas pessoas vivendo cansadas, inflamadas, ansiosas e desconectadas do próprio corpo.
*Igor Trotte é ginecologista com pós-graduações em Ginecologia Endócrina e Reprodutiva pelo CETRUS-SP e em Nutrologia pela Universidade de São Paulo, além de reconhecimento de mestrado em Medicina pela Universidade de Lisboa.