Escala 6x1, NR-1 e os novos desafios das lideranças brasileiras (Master1305/Getty Images)
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Publicado em 7 de junho de 2026 às 13h00.
Por Rapheal Albergarias*
A discussão sobre a escala 6x1 não deveria ser tratada apenas como uma disputa entre capital e trabalho. Ela revela algo mais profundo: a dificuldade brasileira de equilibrar produtividade, sustentabilidade humana e maturidade de gestão.
De um lado, há setores em que a escala 6x1 responde a necessidades operacionais reais. Varejo, saúde, segurança, logística, hotelaria, alimentação e indústria convivem com demandas contínuas, margens pressionadas e necessidade de atendimento permanente.
Para muitas empresas, uma mudança abrupta pode significar aumento de custos, reorganização complexa de equipes e perda de competitividade. Esse ponto precisa ser reconhecido.
De outro lado, também é necessário reconhecer que modelos de trabalho baseados em esforço contínuo, baixa previsibilidade de descanso e pouca autonomia podem produzir custos invisíveis: exaustão, queda de engajamento, absenteísmo, rotatividade, adoecimento, conflitos e perda de confiança entre trabalhadores e liderança.
Esse ponto também não pode ser ignorado. A pergunta central, portanto, não é simplesmente se a escala 6x1 deve existir ou deixar de existir.
A pergunta mais madura é: quais condições de trabalho permitem que uma organização entregue resultado sem consumir, silenciosamente, a saúde física, mental e social das pessoas?
É nesse ponto que a NR-1 entra no debate. A atualização da NR-1, ao incorporar a gestão dos riscos psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos, muda o eixo da discussão. O tema deixa de ser apenas opinião, ideologia ou preferência gerencial. Passa a ser governança.
Carga de trabalho excessiva, assédio, pressão desproporcional, ausência de clareza, insegurança psicológica, metas inalcançáveis e ambientes de medo não são mais apenas “problemas de clima”. São fatores de risco organizacional.
E o risco organizacional precisa ser identificado, avaliado, monitorado e tratado. Essa mudança exige uma nova competência das lideranças. Não basta cumprir jornada. Não basta controlar ponto. Não basta dizer que “sempre foi assim”.
A liderança contemporânea precisará demonstrar capacidade de desenhar ambientes produtivos, saudáveis e juridicamente sustentáveis.
Na prática, empresas maduras não tratarão a NR-1 como burocracia. Tratarão como instrumento de diagnóstico. Um bom programa de gerenciamento de riscos deve ajudar a responder perguntas difíceis: onde a pressão virou sobrecarga?
Onde a urgência virou cultura? Onde a meta virou medo? Onde a produtividade aparente está escondendo adoecimento e perda de valor?
A escala 6x1, nesse contexto, é apenas uma das expressões possíveis de um problema maior: a qualidade do desenho organizacional. O futuro do trabalho no Brasil não será resolvido por slogans. Será construído por organizações capazes de equilibrar operação, desempenho, confiança e cuidado.
No fim, a questão não é trabalhar menos ou trabalhar mais. A questão é trabalhar melhor.
E talvez esse seja o verdadeiro legado que precisamos construir: empresas mais produtivas porque são mais conscientes; lideranças mais fortes porque são mais responsáveis; e ambientes de trabalho onde resultado e dignidade não sejam tratados como forças opostas.
*Raphael Albergarias é Doutor em psicologia pela Université Paris 8 e em administração pela Rennes School of Business e Mestre em Administração (FGV). Também é fundador e presidente da International Project Management Associate Brasil (IPMA Brasil).