Painéis da VivaTech 2026 debatem a urgência de transformar soberania digital em política de Estado (Travel Drawn/Shutterstock)
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Publicado em 8 de julho de 2026 às 15h00.
Por Mark Cardoso*
Na sexta-feira anterior à abertura do VivaTech 2026, em Paris, o acesso a um dos principais modelos de inteligência artificial fechados dos Estados Unidos foi subitamente restringido.
Segundo relatos, por critério de nacionalidade. Da noite para o dia, o episódio converteu em risco concreto um debate, até então, abstrato.
Durante anos, falou-se de "dependência tecnológica" como quem fala de um problem futuro.
A palavra que circulou pelos três andares da décima edição da feira parisiense foi outra, mais crua: "kill switch, o botão de desligar".
Em outras palavras, a possibilidade e o temor de que um sistema do qual sua empresa, seu hospital ou seu governo dependem seja desativado por decisão de um Estado estrangeiro.
Os números que foram expostos nos painéis ajudam a dimensionar o problema. Cerca de 90% das empresas na Europa e na Índia operam sobre grandes modelos de linguagem americanos.
A concentração, portanto, deixa de ser uma questão meramente econômica para ser, também, uma matéria geopolítica.
Como resumiu Aidan Gómez, presidente-executivo da Cohere, é preciso garantir que "uma democracia ocupe a segunda posição" nessa corrida.
O eixo Estados Unidos–China formou um duopólio que deixa a todos os demais na condição de inquilinos de uma infraestrutura a qual não controlam.
As respostas apresentadas na França foram reveladoras, inclusive em suas contradições.
De um lado, a aposta no código aberto como salvaguarda: Joe Tsai, presidente da Alibaba, ofereceu o modelo aberto Qwen como alternativa, com o argumento de que a empresa baixa os pesos, ajusta com dados próprios e mantém tudo dentro do próprio firewall.
Tsai foi bem direto ao admitir que não se pode confiar plenamente in nenhum governo estrangeiro, e que a saída prática não é a substituição de um senhor por outro, mas a diversificação.
De outro lado, os esforços de Estado.
A Alemanha, homenageada como País do Ano, a França anunciando mais 655 milhões de euros em investimentos, o relatório Sparta estimando em 500 bilhões de euros o custo da autonomia estratégica europeia, a Índia entrando como "país parceiro de IA", com um discurso de terceira via.
A contradição que a própria imprensa europeia apontou é importante ressaltar: boa parte dessa ambição "soberana" ainda corre sobre o capital e os chips americanos.
É exatamente neste ponto que o Brasil deveria se reconhecer no espelho francês que ergue-se em Paris.
Afinal, mais de 85% dos chips que usamos são importados, e o setor público convive com dependência tecnológica de soluções de IA desenvolvidas no exterior – diagnóstico admitido pelo próprio Serpro.
Nesta seara, o representante da PwC foi taxativo ao defender que a IA seja regulada com agências de Estado, e mais de um painelista, ao longo dos quatro dias de evento, projetou padrões globais de legislação, com o AI Act europeu como pano de fundo.
Aqui, mora a tensão do momento, e é nela que o debate brasileiro precisa entrar: regular é proteger, mas regular em excesso é erguer barreiras.
A experiência internacional mostra que modelos restritivos demais provocam fuga de talento e de investimento, ao passo que nenhuma regulação fomenta um ambiente hostil e perigoso.
O real desafio está, então, em descobrir um ponto-médio já que não há virtude alguma em escolher entre a ingenuidade e o protecionismo.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), com previsão de até R$ 23 bilhões até 2028, propõe respostas: uma nuvem soberana, um supercomputador entre os mais potentes do mundo, modelos de linguagem em português treinados com dados nacionais.
E num detalhe que merecia mais atenção pública, o próprio plano fala em precaver o país contra "medidas de cerceamento tecnológico". É a previsão brasileira, anterior ao episódio de Paris, do mesmo 'botão de desligar'.
O risco interno, porém, é repetir o vício nacional de confundir formulação com execução. E há um sintoma claro disso na própria tensão regulatória.
Um levantamento do ITS apontou que o Projeto de Lei 2.338/2023, ao prever 68 obrigações (mais que as 43 do AI Act europeu), poderia comprometer mais da metade das ações imediatas previstas no PBIA.
Sendo assim, corremos o risco de querer regular uma capacidade que ainda não construímos, correndo o risco de estrangular, ainda no berço, a indústria que pretendemos proteger.
Como observa a pesquisadora Dora Kaufman, soberania nacional digital não se decreta com iniciativas isoladas. É uma estratégia que depende de um ecossistema de inovação.
E como argumenta a economista argentina Cecília Rikap, a dependência das grandes corporações de tecnologia configura um "capitalismo de monopólio intelectual" que nenhuma política tímida será capaz de reverter.
O que Paris martela, do começo ao fim desta edição, é que a confiança em IA virou infraestrutura — e infraestrutura que não se controla, sabemos, é vulnerabilidade.
Para o nosso país, a pergunta relevante não é se vamos depender, porque vamos; é de quantos, in que termos e com qual capacidade de dizer 'não'.
Para o caso brasileiro, soberania digital não significa 'não depender de ninguém'. Significa 'não ser refém'.
E quanto a isso, o caminho mais efetivo não parece ser, exatamente, uma autarquia digital, o que seria caro e improvável, mas uma redução efetiva da dependência nos pontos em que ela é mais perigosa: dados públicos e sistemas críticos ao funcionamento orgânico da nação.
Além disso tudo, se torna urgente acelerarmos passos em direção à aposta em modelos abertos ajustados localmente, à costura de cooperação regional – como a rede BRICS Cloud e a EU-LAC –, e à calibragem de uma regulação que proteja direitos sem sufocar a capacidade que ainda precisamos erguer. E rápido!
*Mark Cardoso é Head de Marca & Comunicação no Marketing do Grupo Superlógica. Jornalista e publicitário, com mestrado em Marketing (Branding e Antropologia do Consumo) pela Universidade Federal de Brasília (UnB), já acumula mais de 20 anos de experiência com passagens por veículos, agências, marcas e empresas.