ESG e conselhos de administração (wee dezign/Shutterstock)
Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola
Publicado em 8 de julho de 2026 às 10h00.
As corporações globais operam hoje sob uma névoa densa de incertezas interconectadas.
Tensões geopolíticas, rupturas latentes nas cadeias de suprimentos, o avanço avassalador da inteligência artificial generativa e a emergência climática formam um mosaico complexo que desafia a sobrevivência empresarial no longo prazo.
Diante desse cenário, um estudo recente desenvolvido pelo BCG em parceria com a Heidrick & Struggles e o INSEAD, joga luz sobre um agente crítico nessa transição: os conselhos de administração, especialmente nas economias emergentes.
O relatório revela um panorama de contrastes profundos e, ao mesmo tempo, aponta caminhos estratégicos indispensáveis para os líderes que pretendem capitanear organizações verdadeiramente resilientes.
O mapeamento traz à tona o que podemos chamar de “paradoxo dos mercados emergentes”.
Por um lado, os dados apontam que as empresas dessas regiões ainda registram uma defasagem em termos de desempenho consolidado em métricas ambientais, sociais e de governança (ESG), com uma pontuação média de 48, em comparação aos 68 pontos alcançados pelas contrapartes de mercados desenvolvidos.
Por outro lado, há vigor e senso de urgência notáveis: impressionantes 81% dos conselheiros em mercados emergentes reconhecem que o conselho tem um papel primordial ou altamente significativo na condução de pautas sociais e ambientais, superando os 75% registrados nos países desenvolvidos.
Esse engajamento se reflete na prática, com mais de 60% das companhias realizando investimentos substanciais de longo prazo em novas tecnologias voltadas à sustentabilidade, face a 48% no mundo desenvolvido.
Contudo, a boa intenção e o aporte financeiro encontram um gargalo estrutural na própria mecânica da governança.
O estudo do BCG evidencia que a sustentabilidade, na maioria dos conselhos de mercados emergentes, ainda é tratada como um item isolado na pauta do dia, em vez de ser um elemento integrado à estratégia central.
Soma-se a isso o fato de que esses colegiados dedicam significativamente menos tempo à sua própria educação e atualização em sustentabilidade — apenas 29% contra a média global de 49%.
Essa desconexão técnica e estratégica limita a capacidade dos conselheiros de enxergar além do óbvio.
Quando a sustentabilidade é tratada de forma periférica, o conselho se restringe a uma postura reativa, focada apenas em conformidade e na aprovação de relatórios superficiais, perdendo a oportunidade de liderar a criação de valor de longo prazo.
É justamente nessa lacuna que reside o papel mais nobre de um conselho de administração: a capacidade de monitorar constantemente o médio e longo prazos, chamada também de horizon scanning.
Os riscos corporativos mais devastadores raramente se manifestam de forma clara ou linear de imediato.
Mudanças nos regimes climáticos, estresse hídrico em cadeias de valor, transformações nas expectativas dos consumidores e novas exigências geopolíticas sobre direitos humanos são tendências que operam sob uma dinâmica de maturação lenta, mas de impacto disruptivo avassalador quando se materializam.
Mapear essas forças não óbvias exige que o conselho se prepare para tais leituras e adote metodologias sofisticadas de planejamento de cenários, simulando múltiplos futuros possíveis e testando as vulnerabilidades estruturais do negócio antes que as crises aconteçam.
Essa sofisticação analítica deve se desdobrar em uma atuação incisiva sobre o processo de alocação de capital.
Cabe aos conselheiros realizar testes de estresse rigorosos nos investimentos propostos pela diretoria executiva, avaliando se as decisões financeiras de hoje permanecerão viáveis em um mundo com severas restrições e maior escrutínio social.
A sustentabilidade eficaz não é uma agenda de caridade ou de marketing; ela é, fundamentalmente, uma discussão técnica sobre a resiliência dos ativos e a perenidade do modelo de negócios.
Ao ancorar as discussões estratégicas no propósito fundamental da organização, o conselho garante a firmeza de direção necessária para resistir às pressões do curto prazo, ao mesmo tempo em que preserva a flexibilidade necessária para redefinir rotas à medida em que novas variáveis emergem.