Brasil

Tarcísio e Haddad nacionalizam debate na Band, com embate sobre segurança e privatização

Governador e ex-ministro trocaram críticas sobre segurança pública, educação e economia e levaram Lula e Bolsonaro ao centro do primeiro debate da disputa pelo governo paulista

 (Renato Pizzutto/Band/Flickr)

(Renato Pizzutto/Band/Flickr)

Publicado em 9 de agosto de 2026 às 21h50.

Última atualização em 10 de agosto de 2026 às 08h16.

Em um debate com cara de segundo turno antecipado, o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), nacionalizaram as discussões do primeiro encontro dos candidatos no primeiro turno e tiveram a segurança pública como grande tema.

As estratégias foram claras desde o primeiro bloco: enquanto Tarcísio defendeu os feitos da sua gestão e criticou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Haddad criticou a atuação do atual governo paulista em áreas como educação, segurança e privatizações e defendeu as entregas da gestão petista ao estado de São Paulo.

A primeira pergunta do bloco para os dois candidatos foi sobre educação, em que foi questionado sobre o resultado do Ideb no Estado, que foi apenas de avanço de 0,1 ponto.

Tarcísio defendeu a sua gestão e afirmou que "está fazendo um trabalho muito forte" e prometeu lançar um pacto pela matemática, avançar com o ensino integral e alfabetização.

"Vamos lançar um programa de educação com Inteligência Artificial", afirmou. O governador afirmou que a sua gestão recebeu selo ouro da alfabetização do Ministério da Educação (MEC) e tem avançado no ensino técnico.

Ao responder à mesma pergunta, Haddad, que ocupou o Ministério da Educação entre 2005 e 2012, classificou a situação da educação no estado como "grave".

O ex-ministro disse que a gestão Tarcísio recebeu São Paulo na terceira posição do Ideb e caiu posições depois de quatro anos.

"São Paulo está com 61% das crianças alfabetizadas na idade certa, contra 66% do nível nacional e isso é inadmissível", disse.

Na sequência, os candidatos tiveram tempo para perguntas sem temática definida.

Nesse momento, Tarcísio valorizou o classifica como o fim da Cracolândia, cenas abertas de uso de drogas no centro de São Paulo, e questionou o programa Braços Abertos, lançado por Haddad quando era prefeito da cidade.

Ao responder à questão, o ex-ministro disse que a pretensão do projeto não é combater o tráfico de drogas.

"Dois terços das pessoas atendidas pelo programa deixaram o uso do crack e das drogas", disse.

Nesse momento, Haddad questionou o aumento de feminicídio no estado de São Paulo e chamou de "epidemia" a violência contra a mulher.

Ao responder à pergunta, Tarcísio disse que o estado tem muito o que avançar, mas que diversos indicadores avançaram.

O governador citou a ampliação da rede de proteção às mulheres, o protocolo Não se Cale e o Espaço Lilás. Também afirmou que policiais receberam treinamento para atender vítimas de violência.

Tarcísio afirmou ainda que São Paulo tem os menores indicadores do país de homicídio, latrocínio e roubo de carga. O governador também destacou o aumento do efetivo policial, a realização de concursos para as forças de segurança e investimentos em inteligência.

Haddad, por outro lado, contestou o diagnóstico apresentado pelo governador e questionou a capacidade do Estado de combater organizações criminosas.

"Não é verdade que está havendo combate ao PCC", afirmou Haddad, ao citar suspeitas de infiltração do crime organizado nas forças de segurança.

O petista também questionou Tarcísio sobre mudanças no comando da Polícia Militar e voltou a cobrar explicações sobre a atuação do governo estadual na área. Haddad disse ainda que as operações foram encabeçadas pelo Ministério Público.

"Eu volto à pergunta: o que aconteceu com a segurança pública?", disse.

Tarcísio respondeu ao citar investigações e operações contra o crime organizado. Segundo o governador, a Operação Carbono Oculto teve origem em uma investigação da polícia paulista. Ele também mencionou a Operação Posto Lavado e disse que ambas tiveram participação do Estado.

O governador afirmou ainda que a gestão ampliou o efetivo policial e investiu em ferramentas como o Smart Sampa e a Muralha Paulista. "Queremos devolver a sensação de segurança à medida que os indicadores vão cedendo. A sensação de segurança melhorou 10 pontos", afirmou.

O embate sobre segurança também avançou para a composição do governo paulista. Haddad questionou Tarcísio sobre a permanência de integrantes da equipe e citou o secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite.

"Eu vou manter indicações do Eduardo Bolsonaro na Secretaria das Mulheres? Você colocou a tia do Eduardo para comandar as delegacias das mulheres. Você vai manter essa equipe? Vai manter o Derrite?", questionou Haddad.

Tarcísio negou ter recebido indicações do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e afirmou que a pessoa mencionada pelo adversário não seria tia do parlamentar, mas uma "parente distante".

"Nenhuma indicação do Eduardo Bolsonaro. Nosso secretariado é técnico", afirmou Tarcísio.

O governador disse ainda que atualmente a área citada por Haddad é comandada por uma delegada e afirmou que, caso seja reeleito, seu time continuará "profissional".

Governo Lula entra no centro do debate

O embate sobre segurança abriu espaço para outro eixo que marcou o debate: a relação entre o governo de São Paulo e a administração do presidente Lula.

Haddad cobrou Tarcísio sobre recursos federais destinados ao Estado e afirmou que o governo paulista recebeu apoio da União em áreas como infraestrutura, crédito e renegociação da dívida estadual.

"O centro administrativo é importante. Mas, nas cidades do interior em que passamos, a pergunta é a mesma: cadê o governador? Do mesmo jeito que o presidente Lula te apoiou, você deveria apoiar os prefeitos", afirmou.

Tarcísio rebateu e disse que a relação entre os governos não seria "tão republicana assim". O governador afirmou que financiamentos de interesse de São Paulo estavam parados no governo federal e citou recursos destinados à Linha 5-Lilás do Metrô.

A discussão avançou para o Propag, Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, criado para renegociar os débitos estaduais com a União.

Haddad criticou a demora de São Paulo para aderir ao programa. "Outros governadores que aderiram ao Propag aderiram em março de 2025, você entrou em dezembro", afirmou. O ex-ministro também acusou o governador de ter provocado perdas financeiras ao Estado durante o período próximas de R$ 1 bilhão.

Tarcísio disse que a adesão nas condições iniciais não atendia aos interesses paulistas e afirmou que São Paulo entrou no programa após mudanças relacionadas aos vetos presidenciais restabelecidos pelo Congresso.

"Não fazia sentido aderir ao Propag e o estoque de investimento que íamos ter seria menor se aderíssemos ao Propag. Não valia a pena e não atendia aos interesses de São Paulo", disse Tarcísio.

O governador também afirmou que precisou recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) em discussões envolvendo o programa e o ICMS.

O confronto ganhou um componente político quando Haddad citou o ex-presidente Jair Bolsonaro. O ex-ministro questionou se Tarcísio teria vergonha do ex-presidente.

Tarcísio, por sua vez, reafirmou sua relação com o ex-presidente. "Foi a pessoa que me abriu as portas. Eu tenho gratidão, vou ter gratidão sempre pelo que você fez na minha vida e pelo que você representa", afirmou.

Haddad questiona privatizações de Tarcísio

No terceiro bloco, Haddad direcionou as críticas para o programa de concessões e privatizações do governo paulista. O ex-ministro afirmou não ser contrário à participação da iniciativa privada, mas questionou o modelo adotado pela atual gestão.

"Não sou contra o setor privado, mas agora está tendo uma onda de privatizações", afirmou. Haddad citou o sistema funerário, parques e a Sabesp, além de questionar os planos do governo para a rede estadual de ensino.

O petista também fez críticas à situação do transporte metropolitano e cobrou uma avaliação do governador sobre problemas registrados em serviços concedidos ou administrados pelo Estado.

"Tarcísio, você é um cara meio decoreba, meio concurseiro. Joga nomes e dados achando que vai me intimidar e não respondeu à minha pergunta", afirmou Haddad.

A economia também entrou no confronto. Tarcísio questionou Haddad sobre a situação fiscal do país e apontou juros elevados, endividamento de famílias e empresas, baixo investimento e produtividade como fragilidades da economia brasileira.

"Você desconsidera um arcabouço fiscal frouxo. Está desconsiderando que está caminhando para uma recessão. Você que esteve na Fazenda esse tempo todo", afirmou o governador.

Haddad, por sua vez, defendeu os resultados econômicos do governo Lula e destacou crescimento e geração de empregos. Também citou as medidas adotadas pelo governo federal diante do tarifaço imposto pelo governo Donald Trump e afirmou que o país registrava recordes de exportação.

Haddad também reforçou o papel do governo federal nos investimentos feitos em São Paulo durante a gestão Tarcísio e comparou a liberação de crédito com o período do governo de Jair Bolsonaro.

"Se a União parasse os empréstimos para São Paulo agora, já teríamos liberado quatro vezes mais do que no governo Bolsonaro", afirmou.

O ex-ministro também defendeu a resposta do governo federal e fez referência ao fato de Tarcísio ter uma foto com o boné de Trump.

"O Plano Brasil Soberano foi histórico. O que o governador precisa fazer é colocar o boné certo. Estamos batendo recordes de exportação mesmo com o tarifaço", disse.

Segurança volta ao debate

A segurança pública voltou ao centro do confronto após uma pergunta do jornalista Pedro Campos sobre o controle de territórios por organizações criminosas. Haddad defendeu que o governador assuma diretamente a coordenação das políticas para a área.

"Para mim, essa questão está tão séria que deve ser administrada pelo governador sem terceirizar. Eu vou montar um gabinete presidido por mim, com participação de todos os órgãos de segurança pública", afirmou Haddad.

O petista disse que pretende dar um "choque de gestão" na segurança pública e voltou a trocar acusações com Tarcísio sobre o conhecimento e o enfrentamento das organizações criminosas.

"Que deselegância. Eu não conheço o crime organizado como você conhece. Se sabia que ela era traficante, por que não prendeu? Baixa a bola, Tarcísio", afirmou Haddad.

Privatizações e concessões entram no confronto

No terceiro bloco, Haddad direcionou as críticas para o programa de concessões e privatizações do governo paulista. O ex-ministro afirmou não ser contrário à participação da iniciativa privada, mas questionou o modelo adotado pela atual gestão.

"Não sou contra o setor privado, mas agora está tendo uma onda de privatizações. Sistema funerário. Parques privatizados. A Sabesp foi vendida 20% abaixo do preço. Agora seu secretário da Educação disse que vai privatizar as escolas. Como você vai dar continuidade a esse programa?", questionou.

O petista também fez críticas à situação do transporte metropolitano e cobrou uma avaliação do governador sobre problemas registrados em serviços concedidos ou administrados pelo Estado.

"Tarcísio, você é um cara meio decoreba, meio concurseiro. Joga nomes e dados achando que vai me intimidar e não respondeu à minha pergunta", afirmou Haddad. O ex-ministro voltou a questionar o processo de privatização da Sabesp e citou problemas na CPTM.

Tarcísio rebateu as críticas e afirmou que o sistema de transporte sobre trilhos passou anos sem investimentos relevantes. A discussão avançou para tarifas de serviços concedidos e para a privatização da Sabesp.

Haddad questionou a promessa feita por Tarcísio durante a campanha de 2022 de redução da conta de água. O governador respondeu que as tarifas caíram após a privatização, mas argumentou que não poderiam permanecer congeladas.

"Logo depois da privatização, as contas abaixaram. Agora, não é de se esperar que as contas vão ficar congeladas, senão as empresas iriam quebrar. Aliás, empresa quebrando é especialidade da casa, vide os Correios", afirmou Tarcísio.

Haddad rebateu e afirmou que consumidores passaram a pagar mais por diferentes serviços após concessões e privatizações. "De novo o decoreba. As pessoas estão pagando gás mais caro, os usuários da Dutra também, pagando mais caro depois das privatizações", disse.

Tarcísio afirmou que a curva tarifária da Sabesp está atualmente 15% abaixo da projetada, enquanto Haddad disse que, caso eleito, pretende revisar contratos firmados pela atual gestão.

O debate sobre contratos também chegou aos benefícios tributários concedidos pelo Estado. Tarcísio afirmou que sua administração reduziu incentivos e direcionou os recursos obtidos para investimentos.

"Pela primeira vez nós tivemos coragem de rever e reduzir os benefícios tributários. Temos mais recursos para fazer investimento", afirmou.

Haddad e Tarcísio disputam protagonismo na saúde

Na saúde, os dois candidatos passaram a disputar a responsabilidade pelos recursos destinados ao SUS paulista.

Haddad afirmou que o governo federal recuperou o piso nacional da saúde e ampliou os repasses aos estados. Segundo o petista, São Paulo também foi beneficiado pelas medidas adotadas pela União.

"São Paulo conseguiu acelerar a fila das operações do SUS abaixo do nível nacional. A estratégia do governo de São Paulo resultou em uma aceleração de fila aquém da média nacional", afirmou.

Tarcísio destacou a criação da Tabela SUS Paulista, mecanismo pelo qual o governo estadual complementa os valores pagos por determinados procedimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde.

"Criamos a Tabela SUS Paulista, onde a gente paga três, quatro vezes mais do que o governo federal por uma operação. Fora os hospitais inaugurados. Nunca se inaugurou tanto hospital nem se abriu tanto leito quanto nesta gestão", disse.

O governador afirmou ainda que 14% dos recursos citados por ele teriam relação com o governo federal. Haddad contestou os números e voltou a acusar Tarcísio de minimizar a participação da União nas políticas executadas em São Paulo.

"Você nega a participação do governo federal [...] porque tem vergonha de agradecer ao Lula e ao governo federal", afirmou Haddad.

Mudanças climáticas e segurança hídrica

Na reta final, Tarcísio questionou Haddad sobre propostas para ampliar a resiliência hídrica, capacidade de um sistema de abastecimento de resistir e se adaptar a períodos de seca, eventos extremos e outras situações de escassez.

Haddad respondeu com críticas ao grupo político do governador e relacionou a discussão às mudanças climáticas.

"Vocês negam a mudança climática, vocês negam a vacina. Teu grupo político está fazendo propaganda agora contra a vacina. Você não tem um plano hídrico à altura de São Paulo", afirmou.

Do início ao fim do debate, Tarcísio e Haddad transformaram temas estaduais em um confronto mais amplo entre os governos de São Paulo e Lula, com referências recorrentes a Bolsonaro e disputas sobre a responsabilidade por investimentos e políticas públicas no Estado.
Acompanhe tudo sobre:Eleições 2026Debates eleitorais

Mais de Brasil

Pesquisa BTG/Nexus: Lula e Flávio Bolsonaro seguem em empate técnico no 2º turno

BTG/Nexus: Lula e Flávio Bolsonaro oscilam para baixo e ficam a 5 pontos de distância no 1º turno

Debate da Band para governador: veja horários, estados, regras e onde assistir

Debate para presidente nas eleições 2026: veja calendário, datas e regras