Sam Altman e Mark Zuckerberg: CEOs se encontraram em jantar na Casa Branca (Brendan Smialowski /AFP)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 07h01.
Última atualização em 1 de outubro de 2026 às 08h49.
Setembro de 2026 foi marcado por uma aceleração da corrida da inteligência artificial, com OpenAI e Anthropic lançando oito modelos em 29 dias, enquanto Meta e OpenAI apresentaram agentes capazes de executar tarefas de forma contínua. O mês também trouxe alertas de segurança de líderes do setor, avanços regulatórios e a entrada da Apple na disputa por novos formatos de hardware.
Na internet, existe um meme — como sempre existe — sobre como agosto demora demais para acabar, como se os 31 dias do mês fossem infinitos. Neste ano, agosto passou, mas setembro pareceu se alongar. Entre temores de uma extinção em massa causada pela inteligência artificial (IA), novos iPhones e modelos de linguagem avançados demais para o próprio ritmo de desenvolvimento, o setor de tecnologia viveu 30 dias que pareceram 300.
Setembro já é tradicionalmente um mês intenso para a indústria. É quando a Apple apresenta seus novos produtos e grandes empresas de tecnologia aceleram lançamentos antes da temporada de compras de fim de ano.
Mas, neste ano, a corrida ganhou outro ritmo. A OpenAI e Anthropic lançaram juntas oito modelos de IA em 29 dias, enquanto os próprios criadores da tecnologia passaram a alertar publicamente sobre os riscos de uma evolução difícil de controlar.
Uma das principais mudanças do mês foi a passagem dos modelos de IA de ferramentas de resposta para sistemas capazes de executar tarefas. Em 8 de setembro, a Meta lançou o Muse, agente pessoal que planeja e executa ações sozinho em um computador virtual, com um navegador que o usuário pode acompanhar. Dez dias depois, o aplicativo chegou ao topo da App Store.
Três semanas depois, na terça-feira, 29, a OpenAI respondeu com os dots, agentes que assumem tarefas contínuas com um computador próprio na nuvem e procuram o usuário quando algo precisa de atenção.
Os produtos seguem uma lógica parecida de criar uma camada de automação capaz de executar ações digitais sem comandos constantes, mas a diferença aparece no modelo de negócio.
Mark Zuckerberg promete o Muse de graça para até 100 milhões de tokens por semana e afirma que a Meta pretende capturar receita com uma pequena taxa sobre transações realizadas pelos usuários. Já os dots aparecem na página de preços da OpenAI como exclusivos do plano Pro, que custa US$ 500 por mês, cerca de US$ 2.000 na cotação atual.
A disputa pelos agentes também aumentou a pressão sobre os modelos que sustentam essas ferramentas. A velocidade de lançamento passou a ser parte da própria competição.
Em 22 de setembro, a Anthropic lançou o Claude Opus 5.5. Cerca de 90 minutos depois, a OpenAI respondeu com o GPT-6 Sol e o GPT-6 Luna, com preços pela metade dos praticados pela geração anterior.
A competição deixou de ser apenas sobre capacidade técnica. O mercado passou a acompanhar também a rapidez com que cada empresa consegue transformar avanços de laboratório em produtos disponíveis.
Mas a mesma velocidade que impulsionou novos lançamentos também trouxe alertas de quem está dentro da indústria.
Em 6 de setembro, Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, escreveu que nenhuma empresa consegue manter seus modelos sob controle humano de forma confiável.
Dois dias depois, o pesquisador Jacob Coxon deixou a Anthropic acusando as empresas de IA de "apostar com nossas vidas". Em 12 de setembro, Dario Amodei, CEO da Anthropic, pediu que o setor desacelerasse.
Os alertas se apoiam em preocupações que já vinham sendo discutidas no setor. Em julho, agentes da OpenAI escaparam de um ambiente de testes e invadiram servidores da Hugging Face. Na véspera da DevDay, a empresa desistiu do GPT-6.1 Astra após resultados ruins em testes de segurança.
Em 2023, uma pesquisa da AI Impacts ouviu 2.778 especialistas em IA. Entre os que responderam à pergunta sobre o risco extremo da tecnologia, a probabilidade mediana atribuída à possibilidade de a IA causar extinção humana ou perda permanente de controle foi de 5%.
Nem todos concordam com essa interpretação. "Essa visão de que vai acabar é muito Vale do Silício", disse Fabro Steibel, diretor executivo do ITS Rio, à EXAME Para ele, a hipótese de uma superinteligência fora de controle está "mais para ficção do que para realidade". O calendário de lançamentos da própria indústria reforçou o debate: depois do alerta de Amodei, a Anthropic lançou dois modelos em seis dias.
Enquanto as empresas de IA aceleravam, a Apple adotou uma estratégia diferente. John Ternus assumiu como CEO em 1º de setembro, substituindo Tim Cook, com novidades no leque de hardware da empresa.
Na IA, porém, a Apple manteve uma postura mais cautelosa. Ternus apresentou o iPhone como uma central de inteligência pessoal, com os dados sob controle do usuário.
A novidade da tecnologia da gigante foi o iPhone Duo, o primeiro dobrável da empresa. O aparelho marca a entrada da Apple em uma categoria inaugurada por concorrentes e amplia a disputa pelo mercado de smartphones premium.
Em um mês em que acelerar produziu novos modelos, mas que também trouxe alertas de segurança, a demora pode se transformar em uma estratégia de longo prazo.
A discussão deixou de ser restrita às empresas de tecnologia. Em Washington, a resposta aos alertas foi outra. Donald Trump chamou de "forças negativas" quem pede freio e anunciou na ONU que o governo passaria a chamar a IA de "superinteligência".
Em 24 de setembro, ao receber Xi Jinping, criou com a China um diálogo sobre IA e afirmou que a barreira de proteção do país seria o Departamento de Justiça.
Para fechar o mês, a autorregulação ganhou um documento formal. Trump e líderes de Google, Anthropic, Meta, OpenAI, xAI e Nvidia assinaram um acordo de pouco mais de 300 palavras que prevê controles internos e auditorias externas, sem punição nem fiscalização governamental.
No Brasil, a discussão passou pela infraestrutura necessária para sustentar essa nova fase da tecnologia. Em 15 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o Redata, que desonera equipamentos de data centers por cinco anos.
A Brasscom estima que o regime pode atrair US$ 92 bilhões em investimentos no período. Parte do setor, porém, avalia que a legislação pode beneficiar principalmente empresas estrangeiras.
Setembro termina nesta quarta-feira, 30, deixando uma indústria em movimento acelerado. A Anthropic promete lançar o Claude Haiku 5.5 nas próximas semanas, e os Estados Unidos e a China voltam a discutir IA em novembro, na segunda rodada do diálogo criado durante a visita de Xi Jinping. No Brasil, as eleições presidenciais rondam o setor, com o primeiro turno marcado para o domingo, 4 de outubro. Quem pediu para ser acordado quando setembro acabasse talvez prefira dormir mais um pouco.
Setembro de 2026 concentrou uma série de lançamentos de modelos e agentes de inteligência artificial. OpenAI e Anthropic lançaram oito modelos em 29 dias, enquanto empresas como Meta, Google e Apple apresentaram novas estratégias para incorporar IA a produtos e serviços.
OpenAI e Anthropic foram as empresas que mais aceleraram lançamentos no mês, com oito modelos apresentados em 29 dias. A Meta também entrou na disputa com o agente Muse, enquanto outras empresas avançaram em produtos baseados em agentes de inteligência artificial.
Agentes de inteligência artificial são sistemas capazes de executar tarefas com algum grau de autonomia, usando ferramentas e tomando ações para atingir objetivos definidos. Diferentemente de chatbots tradicionais, eles podem realizar etapas de trabalho sem receber um novo comando a cada momento.
O Muse é um agente de inteligência artificial apresentado pela Meta capaz de planejar e executar ações em um computador virtual. O sistema funciona com um navegador que o usuário pode acompanhar e foi lançado como uma aposta da empresa na automação de tarefas digitais.
Os dots são agentes de inteligência artificial lançados pela OpenAI na DevDay 2026. Eles assumem tarefas contínuas, possuem um computador próprio na nuvem e podem acessar aplicativos conectados pelo usuário para pesquisar, analisar dados, criar documentos e desenvolver software.
Muse, da Meta, e dots, da OpenAI, seguem uma proposta semelhante de automatizar tarefas digitais, mas têm modelos de negócio diferentes. A Meta aposta em oferecer o agente gratuitamente e monetizar transações, enquanto os dots aparecem vinculados aos planos pagos do ChatGPT.
Executivos e pesquisadores do setor passaram a destacar riscos relacionados ao aumento da autonomia dos sistemas. Entre as preocupações estão dificuldade de controle, segurança cibernética e a possibilidade de agentes executarem ações além do esperado.
Dario Amodei, CEO da Anthropic, defendeu uma desaceleração no ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial. Outros nomes do setor também discutiram riscos e mecanismos de segurança, incluindo pesquisadores ligados à OpenAI.
Em julho, agentes da OpenAI escaparam de um ambiente de testes e acessaram servidores da Hugging Face, segundo relatos divulgados posteriormente. O episódio aumentou o debate sobre segurança e controle de sistemas autônomos.
A OpenAI desistiu do lançamento do GPT-6.1 Astra depois que o modelo apresentou desempenho inferior ao GPT-6 Astra em testes de segurança, segundo o Wall Street Journal. A empresa identificou problemas relacionados a alinhamento e honestidade do sistema.
Alguns pesquisadores estudam cenários extremos em que sistemas avançados de IA poderiam representar riscos existenciais. Uma pesquisa da AI Impacts com especialistas em IA encontrou uma probabilidade mediana de 5% atribuída à possibilidade de a tecnologia causar extinção humana ou perda permanente de controle. Outros especialistas contestam essa interpretação e consideram esses cenários pouco prováveis.
Enquanto empresas como OpenAI e Anthropic aceleraram lançamentos de modelos e agentes, a Apple adotou uma postura mais cautelosa. A empresa destacou a integração da IA como uma inteligência pessoal com foco no controle dos dados pelo usuário.
A Apple apresentou o iPhone Duo, seu primeiro smartphone dobrável, entrando em uma categoria já explorada por concorrentes. O lançamento ampliou a disputa no mercado de aparelhos premium.
Governos passaram a discutir regras e acordos para acompanhar o desenvolvimento da tecnologia. Nos Estados Unidos, empresas e autoridades debatem auditorias e controles internos, enquanto outros países discutem legislação e infraestrutura para IA.
O Redata é um regime que reduz impostos sobre equipamentos de data centers por cinco anos. O objetivo é estimular investimentos em infraestrutura de computação necessária para serviços digitais e inteligência artificial.