Lela Brandão: comunicadora, empresária, autora do livro 'Vertigem' e apresentadora do podcast 'Gostosas Também Choram'. (Divulgação/Bianca Souza)
Repórter
Publicado em 23 de julho de 2026 às 07h59.
Última atualização em 23 de julho de 2026 às 08h53.
Roupas desconfortáveis, pressão estética, rotinas duplas (e até triplas) e autocobranças intermináveis. Ser mulher traz consigo uma carga pesada nas costas. E uma hora o corpo vai cobrar.
Em "Vertigem", de Lela Brandão, é exatamente esse acerto de contas que a autora propõe. Comunicadora, empresária e criadora do podcast Gostosas Também Choram (um dos mais ouvidos do Brasil), Brandão lançou pela Editora Sextante seu primeiro livro, que em poucas semanas já se tornou um fenômeno de vendas: entre 15 e 21 de junho, "Vertigem" foi o livro mais vendido do país, ficando atrás apenas dos álbuns de figurinhas da Copa na lista Nielsen/PublishNews. Na Amazon Brasil, segue como 1º lugar em sua categoria.
O livro, narrado inteiramente pela autora, destrincha como recuperar o poder sobre o próprio corpo após anos de redes sociais e distanciamento emocional.
A comunicadora convida o leitor (ou a leitora, como prefere chamar) de maneira bastante intimista a retomar a consciência corporal que muitas vezes se encontra perdida e em "queda livre".
De histórias pessoais a conversas com amigas, a leitura se torna uma via de mão dupla: mesmo após terminar um parágrafo, as reflexões dele passam a permear, e você (sim, você) completa a experiência individual com reflexões próprias. Aqui, o caminho são as perguntas — não espere respostas.
Mas, antes de ser um best-seller, "Vertigem" foi uma dúvida.
"Menina, eu não sabia que era tão desafiador", diz Brandão à EXAME sobre o processo de escrita, que levou dois anos e meio.
Depois de mais de uma década comunicando pelas redes sociais — onde tudo tem prazo de um mês, segundo ela — encarar a lentidão de um livro foi um choque de ritmo.
"Eu olhava aquelas páginas, aquele documento do Google, e falava: 'Meu Deus do céu, isso nunca vai ter fim'. Eu nunca vou conseguir concluir.'"
Lela não começou o livro sabendo sobre o que estava escrevendo. Foi em conversa com sua mentora de escrita, Ana Holanda, que a chave apareceu.
Em meio a reflexões sobre redes sociais, descanso e superprodutividade, Lela relatou sua fixação em observar como as pessoas, ao pegarem o celular, "vão para outra dimensão e deixam o corpo aqui". Foi então que Ana apontou: talvez o tema central fosse justamente esse — o corpo.
"Na hora que ela falou isso, sabe quando parece que puxa uma linha e tudo se conecta?", afirma a escritora. A percepção se confirmou pouco depois, numa troca com a psicóloga Marcela Ceribelli, autora de "Aurora: O despertar da mulher exausta" e uma das vozes que assina o prefácio de "Vertigem".
Ceribelli resumiu a diferença entre os dois livros numa frase: um trabalha em cima das emoções, o outro, do corpo. "Nossa, é óbvio", diz Brandão.
Não à toa, a última parte do livro — dedicada ao corpo — é a preferida da própria autora. É também o trecho que, segundo leitoras, provoca a identificação mais profunda, inclusive fora do universo hiperconectado que Lela normalmente ocupa.
Se tem uma marca registrada em Vertigem, é a ausência de fórmulas prontas. Lela é categórica: o livro não é de autoajuda e não pretende ser.
"Ele não tem respostas. Como eu falo desde o começo que ele não tem respostas", afirma.
Cada capítulo nasce de uma pergunta, reflexo direto de um caminho que a autora descobriu em dez anos de análise.
"Eu entendi que as respostas, quando vêm de fora, sempre vêm com uma camada que não é sua", diz. "O movimento se gera a partir da pergunta."
A psicanalista e escritora Ana Suy, autora de "A gente mira no amor e acerta na solidão" e uma das vozes que assinam a contracapa do livro, resume o efeito do texto: Vertigem é "um livro-corpo, um convite à queda mais fundamental de todas, que é a queda em nós mesmas."
Ceribelli, no prefácio, sintetiza o que talvez seja o maior mérito da obra: Lela "não oferece apenas interpretação, mas permissão para nomear o que sentimos."
A comunicadora e empresária Lela Brandão, autora do livro 'Vertigem' e apresentadora do podcast 'Gostosas Também Choram' (Divulgação/Bianca Souza)
Não passa despercebido o contraste entre o trabalho de Lela — construído nas redes sociais — e sua defesa recorrente de menos tempo de tela.
"Se não fosse a internet, eu não teria criado tantas coisas legais", diz, citando a própria Lela Brandão Co., marca de roupas que ela e o marido, Viktor Murer, fundaram durante a pandemia com o dinheiro de uma viagem cancelada, e que hoje é parte de um ecossistema de fabricação que atende outras marcas independentes.
Para Brandão, as redes são apenas um canal, um entre muitos que ela já usou para comunicar, da arte de rua às oficinas de lambe-lambe, do podcast ao livro.
O que ela questiona não é a existência das plataformas, mas o uso automático e sem limites que fazemos delas.
"A gente não tem como brigar contra as redes sociais porque elas não vão deixar de existir tão cedo. Mas a gente tem como contestar individualmente como faz sentido incluir as redes sociais na nossa vida", diz a autora
Essa provocação ganhou um desdobramento lúdico: o jogo de perguntas lançado ao lado do podcast, criado para tirar os temas do universo digital e levá-los para conversas reais — entre casais, amigos, familiares.
"Teve uma menina que jogou com o porteiro da família", conta Bradão. "Isso resume muito o que eu quero com o podcast: levantar coisas que vazem para a vida real."
Marca de roupas, podcast, livro, palestras — Brandão é, ela mesma admite, "uma mulher que quer muitas coisas". Mas hoje trata isso como um dado da própria identidade, não como um problema a resolver.
"Se eu tivesse só a marca de roupa, eu sei que em algum momento eu ia morrer de fome. Na alma", afirma Lela Brandão.
O que mudou, segundo ela, não foi a vontade de fazer — foi a forma de estruturar o trabalho ao redor dela, e não o contrário. "Hoje o trabalho cabe na minha rotina, e não eu preciso caber na rotina do trabalho."
Depois da explosão de vendas, Lela Brandão desembarca na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em uma programação que segue os temas do livro.
Nesta quinta-feira, 23, participa de dois debates: às 14h, ao lado de João Pedro Paes Leme e mediação de Ricardo Moreno, discute os limites da criatividade na era da economia da atenção; às 16h, divide a mesa com Marcela Ceribelli para uma conversa sobre exaustão, corpo, desejo e novos modelos de vida a partir de Aurora, Sintomas e Vertigem.
Na sexta-feira, 24, às 14h30, participa da mesa "Livros que abraçam", ao lado de Virginie Leite, sobre leitura como espaço de acolhimento e comunidade.