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Concorrência e tecnologia: startups dos Estados Unidos pedem manutenção do acesso a modelos abertos de IA desenvolvidos na China
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 23 de julho de 2026 às 08h21.
Uma associação de fundadores de startups americanas enviou na quarta-feira, 22, uma carta ao governo de Donald Trump pedindo que não restrinja o acesso de desenvolvedores dos Estados Unidos a modelos de inteligência artificial (IA) de pesos abertos disponíveis no exterior — incluindo os chineses.
O documento, assinado pela Little Tech Association, foi endereçado a Michael Kratsios, diretor do Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca, e a Howard Lutnick, secretário de Comércio, com cópia para o presidente, o vice-presidente e o diretor nacional de segurança cibernética, Sean Cairncross.
A carta chegou no mesmo dia em que Kratsios acusou publicamente a chinesa Moonshot AI de destilar o modelo Fable, da Anthropic, para desenvolver o Kimi K3, e de acessar servidores com chips restritos da Nvidia. A Moonshot não se manifestou sobre as acusações.
Segundo o documento, negar às startups americanas o acesso a modelos disponíveis no exterior "sufocaria a concorrência, entrincheiraria os incumbentes e funcionaria como um imposto sobre a inteligência".
Os fundadores de startups argumentaram também que "a medida elevaria custos e reduziria escolhas de empresas americanas", enquanto concorrentes estrangeiros mantêm acesso ao mercado global.
Modelos de pesos abertos são aqueles cujos parâmetros podem ser baixados, executados e modificados por qualquer desenvolvedor, sem depender dos servidores de quem os criou.
NEW: 🚨 in a letter that just dropped, nearly 200 companies (members of @LittleTechOrg) call upon the White House to not ban open weight models. pic.twitter.com/e3XYlgIXEC
— Luther Lowe (@lutherlowe) July 23, 2026
A carta sustenta que isso permite a um fundador trocar de fornecedor, avaliar um modelo e rodá-lo no ambiente do próprio cliente, mesmo que uma plataforma mude preços ou direção.
A entidade cita setores em que a customização importa: hospitais rurais, fábricas, órgãos públicos, fornecedores de equipamento de defesa e equipes de resposta a ataques cibernéticos. Quando essas organizações hospedam os próprios modelos, argumenta, dados como prontuários, informações industriais e credenciais de acesso permanecem sob seu controle.
Segundo a carta, uma pesquisa recente com fundadores ligados à aceleradora Y Combinator indicou que quase metade das empresas respondentes roda a maior parte de suas operações em produção sobre modelos de pesos abertos — em sua maioria, em provedores americanos ou em hardware próprio. O dado é apresentado pela própria associação, sem verificação independente.
O documento lista cinco princípios. O primeiro é que desenvolvedores americanos permaneçam livres para publicar os pesos de seus modelos, a menos que o governo demonstre que a publicação em si cria um risco material — e que salvaguardas mais restritas não seriam suficientes.
Outro ponto distingue o uso comercial comum do uso sensível: agências federais poderiam aplicar exigências reforçadas a modelos controlados por entidades sob jurisdição de adversários estrangeiros quando usados em sistemas de governo ou infraestrutura crítica, mas hospedagem doméstica e ajuste fino de pesos públicos não deveriam, por si só, disparar essas exigências.
Donald Trump: startups americanas enviaram carta ao governo pedindo manutenção do acesso a modelos abertos de inteligência artificial desenvolvidos na China (Julia Demaree Nikhinson / POOL/AFP)
A entidade argumenta ainda que, uma vez publicados, os pesos de um modelo podem ser copiados entre países a custo quase zero, o que torna difícil impor controles depois do lançamento. Por isso, defende que o governo se concentre em medidas que consiga de fato observar e fazer cumprir.
Ao acusar a Moonshot, Kratsios fez questão de marcar uma distinção. Segundo ele, o governo "apoia fortemente o desenvolvimento livre e justo da IA", incluindo um ecossistema que abrange modelos de fronteira, sistemas especializados e modelos de pesos abertos — a diferença, em sua leitura, está entre destilação legítima e o que classificou como roubo em escala industrial.
Há também quem aponte o interesse comercial embutido na disputa. Suhail Doshi, fundador da Particle, afirmou que uma proibição colocaria em crise centenas de empresas que dependem de modelos abertos de inteligência artificial e beneficiaria justamente as desenvolvedoras de modelos fechados, entre elas a Anthropic. A avaliação é dele, não da associação.
Por ora, a carta é preventiva. O governo Donald Trump investiga se modelos chineses copiaram sistemas americanos por destilação, mas não apresentou proposta formal de banimento, e o Departamento de Comércio não elaborou plano de inclusão dessas empresas em lista restritiva, segundo apuração da Politico.
O pano de fundo é a mudança de estratégia das empresas de tecnologia na China, que a própria carta registra: a Moonshot lançou o Kimi K3 e marcou a publicação dos pesos para 27 de julho, enquanto a Alibaba apresentou o Qwen3.8 Max e informou que abriria os pesos para desenvolvedores após o lançamento da ferramenta no mercado global de tecnologia.