Heated Rivalry: série canadense de sucesso foi financiada por mecanismo que obriga streamings dos EUA a investir em produções locais (Harold Feng/Getty Images)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 26 de agosto de 2026 às 16h23.
A nova guerra comercial entre os Estados Unidos e seu vizinho Canadá, com anúncios de tarifas nesta segunda-feira, 24, e terça-feira, 25, terá efeitos em um setor da economia menos óbvio: o audiovisual.
Ambos os países cultivaram ao longo das décadas relações próximas na indústria televisiva, cinematográfica e de animação. É um fenômeno comum, por exemplo, filmes passados em Nova York na verdade serem filmados um pouco mais ao norte, em Toronto.
Agora, as tensões comerciais ameaçam atingir as regras que obrigam plataformas americanas de streaming a investir em produções canadenses, colocando em xeque uma das principais fontes de financiamento da indústria audiovisual do país.
O Canadá possui regras que obrigam grandes plataformas digitais americanas, como Netflix, HBO Max e Disney+, a destinar parte de seus recursos à produção de conteúdo local. O objetivo é financiar filmes e séries voltados tanto ao público canadense quanto ao mercado internacional.
A legislação, conhecida como Online Streaming Act, tornou-se um dos pontos de disputa nas negociações comerciais entre os dois países. Produtores americanos contestam as exigências nos tribunais e argumentam que obrigar empresas dos Estados Unidos a financiar produções canadenses representa um tratamento discriminatório.
Do outro lado, produtores independentes, sindicatos e entidades do setor defendem que as plataformas americanas, que faturam bilhões de dólares no mercado canadense, devem contribuir mais para a produção doméstica.
Entre os exemplos de produções beneficiadas pelo modelo estão a série de drama sobre hóquei Heated Rivalry, o programa de comédia indígena North of North, da CBC, e o drama em francês Fem, da Netflix.
A eventual retomada das exigências previstas no Online Streaming Act pode aumentar os custos das plataformas americanas no Canadá, enquanto uma redução dessas obrigações pode diminuir uma fonte importante de recursos para produtores locais.
O impasse também pode ser acompanhado por outros governos que estudam adotar regras semelhantes para plataformas estrangeiras. Segundo o Hollywood Reporter, a maneira como a disputa entre Canadá e Estados Unidos será resolvida pode servir de referência para países que avaliam impor obrigações de financiamento à produção audiovisual doméstica.
A disputa ganhou força porque o governo canadense havia decidido retirar algumas das exigências sobre as plataformas americanas na tentativa de melhorar as condições de um possível acordo comercial com os Estados Unidos.
No início de junho, Ottawa desistiu de um plano que previa triplicar um imposto sobre serviços de streaming estrangeiros, em sua maioria americanos. A decisão fazia parte dos esforços para evitar que as regras de conteúdo digital se transformassem em mais um obstáculo nas negociações sobre tarifas.
O governo também havia optado por ampliar em 600 milhões de dólares canadenses o financiamento público destinado à produção de conteúdo nacional, em uma tentativa de compensar a redução das obrigações impostas às empresas estrangeiras.
A estratégia, porém, não foi suficiente para impedir o agravamento da disputa comercial. Com o fracasso das negociações, produtores canadenses passaram a pressionar pela retomada das medidas previstas no Online Streaming Act.
A Canadian Media Producers Association, que representa produtores independentes, defende que o governo volte a exigir contribuições das grandes plataformas americanas.
Para a entidade, a regulamentação é uma forma de proteger a produção cultural canadense e garantir que empresas globais que lucram com o mercado do país também contribuam para o ecossistema local de produção.
O presidente e CEO da associação, Reynolds Mastin, afirmou que os canadenses precisam manter o controle sobre suas próprias histórias e que as plataformas globais devem seguir as regras nacionais e contribuir de forma significativa para a indústria audiovisual.
O debate também envolve a proteção da língua francesa. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que negociadores americanos se opuseram a regras relacionadas ao conteúdo em francês, que podem elevar os custos de operação das empresas dos Estados Unidos interessadas em distribuir produções para Quebec.
Carney classificou a questão como um ataque à cultura e à identidade canadenses e afirmou que houve tentativas de restringir as proteções destinadas à língua, à cultura e à soberania do país.
A disputa acontece em meio à escalada das tarifas entre os dois países. Os Estados Unidos aplicaram novas tarifas de 50% sobre cerca de 20 bilhões de dólares em produtos canadenses, enquanto o Canadá anunciou medidas de retaliação que entrarão em vigor em 8 de setembro.
As tarifas canadenses atingirão cerca de 700 produtos americanos, com alíquotas de 15%, 25% e 50%, dependendo da mercadoria. O governo também anunciou um pacote de 7,5 bilhões de dólares canadenses para apoiar empresas e trabalhadores afetados pelas novas barreiras comerciais.
Embora as tarifas tenham impacto direto principalmente sobre setores de bens físicos, o conflito comercial também aumenta a pressão sobre empresas americanas que atuam no mercado audiovisual canadense.
O setor se tornou parte das negociações justamente porque as regras de financiamento de conteúdo colocam em disputa quanto as plataformas americanas devem investir para operar no país.