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Ex-alunos da Saint Paul visitam gravuras de Beatriz Milhazes com a Bvlgari

Passeio pela Pinacoteca combina obras, bastidores do restauro e relatos de quem viveu a experiência

Ex-alunos da Saint Paul na Pinacoteca para passeio guiado pelas obras da Beatriz Milhazes

Ex-alunos da Saint Paul na Pinacoteca para passeio guiado pelas obras da Beatriz Milhazes

Publicado em 26 de agosto de 2026 às 16h11.

Última atualização em 27 de agosto de 2026 às 09h59.

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Um grupo de ex-alunos da Saint Paul passou uma manhã percorrendo a exposição "Beatriz Milhazes: Gravuras do Acervo da Pinacoteca de São Paulo" e os bastidores do laboratório de restauro do museu, na Luz, região central da cidade, evento organizado pelas Comunidades dos HIPs.

O roteiro, viabilizado pela Bvlgari, incluiu uma área normalmente fechada ao público e mantida desde 2025 com apoio da marca.

Foi um passeio guiado do início ao fim: primeiro pelas gravuras, com o curador da mostra explicando a técnica de Beatriz Milhazes, depois pelo trabalho diário de conservação que sustenta o acervo da Pinacoteca. No fim da visita, cada participante levava uma leitura diferente da mesma experiência.

Um laboratório respeitado até pelo Getty

O laboratório de conservação e restauro nasceu junto com a reforma da Pinacoteca em 1998, sob a direção de Emanuel Araújo, e foi projetado desde o início para ser visto: painéis de vidro separam a área de trabalho do público, para que as pessoas entendessem um pouco dos bastidores. 

É uma ideia que já inspirou outras instituições, segundo Camilla Vitti, coordenadora de conservação e restauro da Pinacoteca, que cita um museu de Curitiba como exemplo de quem replicou o modelo depois de visitar o espaço.

O trabalho, segundo Camilla, é rotineiro e pouco glamouroso, embora o resultado não pareça. 

"É um trabalho de formiguinha, que aí depois você vê o resultado ao final", diz ela. A equipe cuida de cerca de mil obras em exposição, mais 1.500 na reserva técnica e 29 no Parque da Luz, e faz desde a limpeza semanal das telas até o controle de temperatura e umidade da sala. "Como tirar poeira de casa, a gente tem que tirar também das obras", diz Camilla.

Uma das paredes do laboratório concentra um acervo à parte: os pigmentos criados pelo pintor Alfredo Volpi, conhecido pelas bandeirinhas de suas telas, e doados à Pinacoteca por Eleanor Koch, artista já falecida que aprendeu com Volpi a técnica de produção do pigmento e decidiu, ainda em vida, doar o material ao museu como registro histórico do próprio ofício.

"Ela entrou em contato com o Marcelo Araújo, que era o diretor na época, porque ela queria doar os pigmentos, mas de uma forma quase como um pensamento de artista", conta Camilla. Os potes, identificados com rótulos como "vermelho VOLP 3" que é uma referência ao nome de seu criador —, viraram atração à parte. "O pessoal fica no vidro ali, tirando várias fotos, fazendo self, porque é muito legal", diz.

Foi essa reputação técnica, mais do que a fama da artista, que levou Beatriz Milhazes a escolher a Pinacoteca como sede da sua obra gráfica. Renato Menezes, curador da mostra, credita o feito a uma conversa inesperada em Los Angeles. 

Durante um programa de formação de lideranças no Getty Research Institute, referência global em restauro, ele ouviu profissionais de outros países citarem espontaneamente o trabalho da equipe da Pinacoteca. 

"Não é brincadeira, a coisa é muito séria, muito respeitada", diz Menezes sobre a equipe liderada por Camilla. Foi por essa confiança que a artista doou o conjunto de 27 gravuras, reunido pela primeira vez na mostra atual. "É uma oportunidade excepcional, única", diz o curador.

As 27 gravuras que resumem duas décadas de ofício

Beatriz Milhazes integra a geração de artistas revelada pela mostra Como Vai Você, Geração 80, no Rio de Janeiro, período marcado pelo retorno à pintura depois de anos de arte conceitual e geométrica no Brasil. 

Sua trajetória internacional se consolidou a partir da representação do Brasil na Bienal de Veneza de 2003, ponto a partir do qual suas telas geométricas e coloridas passaram a atrair a atenção do circuito de arte global, segundo a casa de leilões Sotheby's.

Antes de chegar ao formato pelo qual é conhecida hoje, a artista passou por fases pouco lembradas. Segundo Menezes, ela começou pintando diretamente sobre a tela, técnica que sempre lhe causou desconforto. Foi experimentando colagens com tecidos baratos, os chamados "tecidos pop", como o chita, e se aproximando de referências até então pouco valorizadas no circuito da arte erudita, como pinturas corporais indígenas, serralheria popular e a técnica exigida pelo carnaval, que Beatriz encontrou o repertório visual que marca sua obra.

Foi em 1989 que ela criou o monotransfer, técnica própria que consiste em pintar sobre uma folha de plástico transparente e transferir o resultado para a tela depois de seco, preservando as falhas do processo. 

"Interessava a ela esse aspecto desgastado da pintura", diz Menezes. A técnica levou tempo até encontrar um parceiro capaz de traduzi-la para o papel: dois estúdios de gravura recusaram o projeto por falta de mercado internacional para a artista, até que ela encontrou Jean-Paul Russell, fundador da Durham Press, estúdio de impressão sediado na Pensilvânia e formado no ambiente experimental que atendeu nomes da pop art americana.

O conjunto exibido na Pinacoteca reúne, pela primeira vez, as 27 gravuras em médio e grande formato que Beatriz produziu com Russell entre 1996 e 2019. Segundo Menezes, a Pinacoteca é o único museu do mundo a deter o conjunto completo dessa produção gráfica. Na primeira visita ao estúdio americano, em 1996, a artista produziu sete gravuras e editou apenas uma, "Cabeça de mulher". Na segunda visita, retomou dois dos seis experimentos descartados para produzir "O pato" e "Uva selvagem".

Ex-alunos da Saint Paul em visitação na Pinacoteca

O processo nunca foi linear. Menezes lembra que, em determinado momento, Beatriz entrou em crise criativa e quase abandonou o projeto, além de enfrentar problemas técnicos reais: o papel, diferente da tela, não é elástico, e o excesso de tinta em algumas gravuras chegou a craquelar depois de prontas, gerando devoluções de clientes. 

Foi ajustando a quantidade de camadas e o tipo de papel que a parceria amadureceu, ao ponto de, a partir de 2003, acompanhar o aumento de escala que a própria pintura da artista vinha ganhando. Ao longo de mais de duas décadas, esse jogo de embaralhar e recombinar matrizes deu origem ao restante do conjunto doado ao museu.

Da semiótica à sala de reunião

Para José Cláudio Securato, CEO da Saint Paul, entender uma obra como as de Beatriz Milhazes exige o mesmo esforço interpretativo de uma decisão de negócio, porque nenhuma das duas coisas tem sentido pronto. 

"A gente, humano, vive de criação de sentido. A criação de sentido se dá por abstrações cerebrais", diz o executivo, que usa a linguagem como exemplo: um mesmo sinal pode gerar significados diferentes dependendo de quem o recebe, o que explica por que a comunicação, mesmo entre pessoas que falam o mesmo idioma, se perde no caminho.

É desse raciocínio que Securato parte para comparar a leitura da obra ao método do SEER, curso da Saint Paul: assim como a arte contemporânea não entrega uma leitura única, a diversidade e a complexidade do mundo atual, ao contrário do mundo moderno regido por padrões, cobram do executivo a mesma disposição para tolerar ambiguidade antes de decidir. 

"Será que a Beatriz desorganiza o moderno? Ou será que ela traz alguma organização ao caos? Cada obra tem um significado para cada pessoa. A gente vai criar esses sentidos de forma bastante única" José Cláudio Securato, CEO da Saint Paul

José Cláudio Securato, CEO da Saint Paul, na visitação à Pinacoteca

O que ficou para quem participou

Entre os presentes estava Mônica Delgado, hoje conselheira da R-Post e ex-aluna da Saint Paul. "Eu saio dessa exposição hoje da Beatriz Milhazes muito emocionada, e me fez lembrar muito do curso", diz Mônica, referindo-se ao SEER, curso que fez na escola. Para ela, a experiência reforçou algo que já levava do curso para o dia a dia

"A importância da gente ampliar os olhares, novas perspectivas, tentar o novo, ser persistente. Isso traz um repertório diferente que, às vezes, a gente não imaginava utilizar. E a arte faz isso. A arte tira a gente do automático", diz.

Para a Bvlgari, patrocinadora do laboratório de restauro visitado no fim do passeio, o encontro também carrega um propósito específico: aproximar clientes e parceiros de instituições culturais brasileiras que, muitas vezes, ficam de fora do roteiro de quem mora na própria cidade. 

"A gente tem muitos museus maravilhosos no Brasil e que a gente, às vezes, deixa passar. Eu vi muita gente comentando que nunca tinha vindo na Estação da Luz", diz Carolina Pupo, gerente de relacionamento da marca, que costuma levar grupos de clientes à Pinacoteca desde que a Bvlgari assumiu o apoio ao núcleo de conservação e restauro.

Para Carolina, a escolha da mostra de Beatriz Milhazes não foi acidental. "Para a Bvlgari, como marca, é muito importante todo o legado da nossa história, essa conexão com a arte, com o legado romano, italiano. Então, para a gente, é muito importante mostrar também para os alunos, para os clientes, essa conexão e essa importância da arte no dia a dia", diz.

A manhã na Pinacoteca não ensinou arte a ninguém. Deixou, para cada participante, uma pergunta diferente sobre como olhar para o que não tem resposta única.

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