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Efeito Ozempic? Rede plus-size vai fechar a operação após 40 anos

O encerramento da Kauê Plus Size acontece em um momento de transformação no mercado de saúde e, por consequência, no de roupas

Kauê Plus Size: marca funcionará no digital até fim do estoque

Kauê Plus Size: marca funcionará no digital até fim do estoque

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 06h30.

Após quase quatro décadas de operação, a rede de moda Kauê Plus Size vai encerrar todas as lojas físicas e o e-commerce. O movimento coloca um ponto final na história de uma das marcas especializadas em tamanhos grandes mais tradicionais de São Paulo.

Fundada em meados dos anos 1980, a marca chegou a operar 16 lojas — incluindo unidades fora da capital paulista. Hoje, após um ciclo de retração iniciado no pós-pandemia, se prepara para fechar as oito restantes, além da operação online, segundo a sócia-fundadora Márcia Chican.

“Resolvemos fechar a operação porque o mercado está difícil”, diz a empresária. A ideia, afirma, é “fechar de uma vez só para não ter nenhum problema e sair do mesmo jeito que entrou”, sem deixar dívidas ou litígios para trás.

Especializada em numerações do 50 ao 80, a Kauê Plus Size construiu sua base de clientes em torno da promessa de “tamanho real” e de uma modelagem pensada para corpos maiores, tanto femininos quanto masculinos.

No auge, foram 16 lojas espalhadas por São Paulo, litoral e Grande ABC, além da operação digital. O processo de fechamento começou depois da pandemia: primeiro as unidades fora da capital, depois parte das lojas de rua e de shopping. Duas lojas foram encerradas em dezembro; agora, restam oito pontos físicos e o site, todos em fase final de operação.

Chican conta que o anúncio mobilizou uma base fiel de clientes. “Tem muita gente triste pelo nosso fechamento”, afirma. “Tem cliente que chegou na loja com uma peça de mais de dez anos”.

A culpa é do Ozempic?

O encerramento da Kauê Plus Size acontece em um momento de transformação no mercado de saúde e, por consequência, no de roupas. Nos últimos anos, cirurgias bariátricas e o boom das chamadas “canetas emagrecedoras”, como Ozempic e Mounjaro, passaram a fazer parte da rotina de brasileiros com obesidade ou sobrepeso.

Chican diz ter percebido essa mudança no dia a dia das lojas. Primeiro, com a bariátrica: “No começo da bariátrica, nós perdemos muitos clientes”, lembra. Mais recentemente, com o avanço dos medicamentos injetáveis: “Eu mesma atendi vários clientes que estão tomando Mounjaro, mas que ainda continuam comprando na Kauê, só que em outro tamanho”, afirma.

Na prática, parte do público que vestia manequins acima de 60 passou a migrar para tamanhos menores, como o 52 — faixa em que há mais oferta no varejo tradicional. “Quem era tamanho 60, por exemplo, que toma um remédio e vai para o 52, consegue achar no mercado um produto para o 52”, diz.

Chican não atribui o fechamento apenas às canetas emagrecedoras, mas reconhece que o fenômeno entra na equação de um negócio que sempre foi “bem plus size”. “A tendência é essa mesmo”, resume.

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O contexto ajuda a dimensionar essa força: o mercado brasileiro de canetas emagrecedoras à base de GLP-1 — como Wegovy, Ozempic e Mounjaro — pode ter alcançado entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões em 2025, segundo estimativa da XP. Já a PWC indica que o mercado global pode atingir US$ 150 bilhões até 2030.

No Brasil, a estimativa é que somente as importações desses medicamentos devem ter crescido cerca de 82% em 2025. Em breve, a quebra de patente também abrirá espaço para genéricos de baixo custo: EMS, Cimed, Biomm e Hypera já estão se preparando para lançar suas versões da semaglutida em 2026.

O novo normal do varejo?

Se o número de clientes em tamanhos muito grandes diminuiu, a concorrência disparou nos demais. Para Chican, um dos pontos de inflexão foi a chegada de plataformas globais e marketplaces ao guarda-roupa das consumidoras.

A executiva cita diretamente Shein, Shopee e Mercado Livre como exemplos de concorrência “desleal” — menos pela existência em si e mais pela combinação de preço baixo e falta de clareza sobre modelagem e qualidade. “Hoje todo mundo vende plus size, na verdade. Todo mundo fala que é plus size. Só que não é bem a realidade”, afirma.

Na avaliação da empresária, o espaço para marcas com oferta mais estruturada, estudo de medidas e foco em durabilidade ficou apertado em um cenário em que peças em tamanhos grandes são anunciadas por R$ 50. “Nós estávamos dentro do mercado em termos de custo. Só que hoje é muito difícil competir com quem acha que vender por 50 reais uma peça de tamanho grande é normal”, diz.

A pressão sobre o segmento não é exclusiva do Brasil. Nos Estados Unidos, a Destination XL, varejista especializada em moda masculina para homens grandes e altos, viu as vendas comparáveis recuarem 5,8% no período de festas de 2025 e a receita cair quase 9% em doze meses, em meio à queda de tráfego nas lojas físicas e à necessidade de fusão com a também especializada FullBeauty para ganhar escala.

Na mesma direção, a varejista Torrid, focada em público jovem plus size, anunciou um plano para cortar até 30% das lojas físicas em 2025, incluindo o fechamento de até 180 pontos com baixo desempenho, enquanto 70% da demanda já vem do online.

Até a Forever 21, que acabou com a operação no Brasil, desativou o perfil de Instagram da linha plus size e migrou parte da oferta de tamanhos grandes para o ambiente digital. Vale ressaltar que a antiga gigante tenta sobreviver entre pedidos de falência, o que também pode ter motivado a decisão sobre a linha.

O que emerge desse quadro é um redesenho do varejo plus size: menos lojas físicas especializadas, mais compras em plataformas globais e uma disputa intensa por preço, muitas vezes à custa de modelagem e qualidade.

“O custo de moda é muito caro. Os moldes são muito caros, encarecem muito a mercadoria. Vai ficando inviável”, afirma Chican.

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