ESG

Elas no front do Rio Grande do Sul

Mulheres que fazem a diferença com olhar e atuação para necessidades específicas diante da grande tragédia que assola o estado

Lisiane Lemos, Secretaria de Inclusão Digital & Apoio às Políticas de Equidade do Rio Grande do Sul (Paula Paz)

Lisiane Lemos, Secretaria de Inclusão Digital & Apoio às Políticas de Equidade do Rio Grande do Sul (Paula Paz)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

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Publicado em 11 de maio de 2024 às 11h05.

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Sempre que assisto a grandes tragédias - e neste século elas não têm sido poucas - me lembro, sem menosprezar os efeitos em qualquer vítima ou qualquer ajuda, das palavras da escritora Svetlana Aleksiévitch, em “A guerra não tem rosto de mulher”: tudo o que sabemos de guerra, conhecemos por “uma voz masculina”. Grandes crises atingem de forma dramaticamente diferente mulheres e grupos minorizados, seja por estarem em maior condição de vulnerabilidade social e econômica, seja por estarem sujeitos a uma multiplicidade de violências em função de gênero e raça. 

De acordo com o último Censo Demográfico, cerca de 52% da população do Rio Grande do Sul é de mulheres. Na capital Porto Alegre, elas representam aproximadamente 54% da população. Portanto, a calamidade no Estado não deve escapar à regra, embora não seja possível ainda mensurar ou classificar as subpopulações mais impactadas. Por outro lado, em meio ao mar de mobilizações em todas as esferas, da pública à cívil, de pessoas físicas a poderosos CNPJs, algumas mulheres têm se destacado no front do enfrentamento e da contenção de danos específicos. Nesta coluna, listamos algumas delas como forma de lembrar e reconhecer outras (e outros tantos) que têm feito a diferença, combinando capacidades técnicas a um olhar empático e cuidadoso. E certamente já são parte de uma história que será contada, tristemente, de forma mais plural. 

Lisiane Lemos, Secretaria de Inclusão Digital & Apoio às Políticas de Equidade do Rio Grande do Sul

Natural de Pelotas, Lisiane se tornou, em janeiro de 2023, a mais jovem secretária - e única mulher preta - a integrar a equipe do então governador eleito pelo Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Chegou para assumir uma secretaria extraordinária, com a missão de modernizar e democratizar o acesso à digitalização para 11 milhões de cidadãos em quase 500 municípios. No atual contexto, a experiência acumulada por ela em big techs como Microsoft e Google foi determinante na negociação de compra à logística e mapeamento de maiores necessidades de terminais da Starlink - empresa de fibra óptica que fornece conexão à internet e fará enorme diferença para a comunicação não só de populações isoladas pela falta de estrutura, como de órgãos como a Defesa Cívil, Corpo de Bombeiros e outras instituições. Seus esforços incluíram ainda atuação em outras frentes, como a negociação de sistemas de reconhecimento facial para identificação de quem perdeu tudo, incluindo documentos.  

Mariana Serra, idealizadora de cofundadora da Vvolunteer (VV)

Tendo trabalhando com ações voluntárias desde muito jovem, Mariana Serra já liderou ações sociais e humanitárias em mais de 20 países, atuando em conflitos e crises emergenciais. Antes de fundar a plataforma humanitária VV em 2014, foi assistente de Luiz Feliz Lampreia, quando Ministro das Relações Exteriores. Vivendo em Porto Alegre, deixou momentaneamente os cuidados com Pedro, o filho de dois meses e meio, para arregaçar as mangas em um esforço coordenado para reunir doações e também capacitar voluntários, por meio de um programa gratuito e online. Todas as campanhas da VV apresentam relatórios de impacto, onde é possível verificar tudo o que foi feito com recursos destinados à plataforma. Na campanha empreendida em setembro de 2023, Mariana e seu time puderam apoiar e financiar a reconstrução de escolas e casas e doações para diversos municípios. 

Mariana Gutheil, CEO da No One 

Há cerca de uma semana, Mariana e outros voluntários passaram a atuar na ajuda a pessoas ilhadas em Porto Alegre. Hoje com um time de mais de 150 pessoas, já resgataram mais de dois mil moradores e animais. A rotina de seu grupo inclui rondas que começam pela manhã e também distribuição de doações direcionadas como envio de caminhão pipa para regiões ainda sem água potável e abastecimento de instituições como lares de idosos, além de recursos, mantimentos e medicamentos para resgatistas da região metropolitana.

Deise Falci, ativista da causa animal

Desde 2008, a gaúcha de Porto Alegre se dedica a resgatar animais abandonados. Antes disso, fez carreira como esgrimista, chegando a representar o Brasil em jogos internacionais. Mas ficou célebre mesmo recentemente, pela luta por salvar animais ilhados, de cachorros e gatos a galinhas e outras espécies, ao lado do veterinário Gustavo Carvalho e um grande time de voluntários. As desventuras que renderam fama como a líder do principal grupo dedicado a estes resgates também trouxeram um diagnóstico de leptospirose. A socorrista, no entanto, segue firme, postando tanto o dia a dia como prestação de contas das doações que recebe.

Amanda Momente, CEO da Wondersize

Empreendedora baseada em São Paulo, Amanda passou a arrecadar, por meio de sua marca plus size, tecidos e doações em dinheiro para confecção de peças íntimas em tamanhos grandes - algo ainda pouco produzido na indústria da moda e menos lembrado ainda por quem faz doações de vestuário. Em poucos dias conseguiu mais de duas toneladas de matéria prima para atender abrigos do Sul, onde muitas mulheres desabrigadas acabavam usando lençois para se vestir, na falta de roupas maiores. Além de fabricar a preço de custo, Amanda disponibilizou moldes para outros fabricantes e organizou um cadastro para mapear as necessidades por município. Em Porto Alegre, as doações plus size têm sido organizadas por Viviane Lemos, empreendedora à frente da BPSPOA - Feira Moda Plus Size.

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