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A engrenagem que conecta bancos, iFood e WhatsApp — e você nem sabe

Em quatro anos de operação, a empresa de bastidor se tornou um dos maiores iniciadores de transações de pagamento do Brasil

Engrenagens 'conectadas' aos bancos, apps de delivery e mais: plataforma assume o relacionamento com o arranjo regulatório do Banco Central e entrega fluxos prontos para novos produtos (Edição EXAME via Canva)

Engrenagens 'conectadas' aos bancos, apps de delivery e mais: plataforma assume o relacionamento com o arranjo regulatório do Banco Central e entrega fluxos prontos para novos produtos (Edição EXAME via Canva)

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 12h56.

Última atualização em 3 de fevereiro de 2026 às 13h55.

Quase todo mundo que paga compras por Pix sem precisar copiar e colar nada já usou a infraestrutura do Iniciador, mas poucos ouviram falar da empresa.

Em quatro anos de operação, a companhia de bastidor se tornou um dos maiores iniciadores de transações de pagamento (ITP, empresa que faz a ponte técnica entre bancos e aplicativos para que um pagamento aconteça com autorização do cliente) do ecossistema de Open Finance no Brasil.

O que o Iniciador oferece é o “fio invisível” que permite, por exemplo, que o usuário veja o saldo de um banco dentro de outro aplicativo e autorize um pagamento sem sair da tela — como quando alguém paga um pedido usando saldo de outra instituição, sem abrir o app do banco.

A tecnologia roda nos bastidores e é a responsável por fazer as instituições “conversarem” entre si. A lógica da ferramenta se repete em bancos que funcionam dentro do WhatsApp, como Magie e Jota, que usam a infraestrutura do Iniciador para buscar saldo em outras contas, movimentar dinheiro entre instituições e executar pagamentos.

Segundo o Dashboard do Open Finance Brasil, são mais de 158 milhões de requisições e 98% de taxa de sucesso. Em termos práticos, isso significa que a cada cem tentativas de pagamento iniciadas pela plataforma, 98 são concluídas sem erros — um nível de eficiência considerado alto para uma infraestrutura ainda recente.


“Acabamos ficando por trás desses players e ajudando eles a impulsionarem”, resume Marcelo Martins, cofundador e CEO. A mesma base tecnológica atende também iFood Pago, Stone e outras adquirentes e bancos médios. A tecnologia de iniciação de pagamentos atua um serviço de bastidor — estratégico, mas invisível para o usuário final.

O paradoxo é que, apesar da liderança, a iniciação de pagamento ainda representa menos de 0,5% do volume total de operações via Pix. Ou seja: a base é pequena em comparação com o universo de transações no país, mas cresce sobre um mercado com potencial bilionário.

“O mercado é gigantesco e está no começo”, diz Martins. No final do ano passado, por exemplo, o Pix bateu o recorde de maior número de transações realizadas em apenas um dia, com 313,3 milhões. Também alcançou outro recorde de R$ 179,9 bilhões em dinheiro movimentado em um único dia — ao longo de um ano, o valor total ultrapassa os R$ 25 trilhões.

Em 2025, o Iniciador recebeu uma rodada seed de US$ 6 milhões para sustentar a expansão da operação, profissionalizar a gestão e atender clientes maiores. A empresa fechou o ano com faturamento de R$ 10 milhões, quatro vezes mais que no ano anterior.

Elas tinham uma banda de rock em SC. Hoje, monitoram R$ 40 bi por mês no Pix

Quem está por trás?

O Iniciador nasceu junto da regulamentação de Open Banking, em 2021, e hoje é uma instituição autorizada pelo Banco Central dedicada exclusivamente a esse universo.

Antes de fundar a empresa, Marcelo Martins já atuava há anos na indústria de pagamentos — de maquininhas a carteiras digitais — e participou de grupos de trabalho que desenharam tanto o Pix quanto as regras do Open Finance.

Ele também integra o conselho de administração do Open Finance Brasil e representa as fintechs pela Associação Brasileira de Fintechs, o que fez da companhia uma espécie de “laboratório” prático da regulação que ajudou a escrever. Na prática, o Iniciador testa e aplica no dia a dia as regras que ele próprio ajudou a construir.

Como cresce?

O Iniciador oferece um pacote “360º” de serviços para clientes: cuida da parte tecnológica, do regulatório e até do suporte com o ecossistema de Open Finance. A ideia é simplificar ao máximo a vida dos times internos dos bancos e empresas de pagamento.

“Basicamente, só a gente faz isso”, afirma Leonardo Ramos, diretor de marketing. Em vez de cada instituição montar uma equipe própria para lidar com integrações, segurança e monitoramento, a plataforma assume o relacionamento com o arranjo regulatório do Banco Central e entrega fluxos prontos para novos produtos, como Pix por biometria ou débitos automáticos construídos em cima da infraestrutura aberta.

A empresa promete ganho de escala: quanto mais transações passam pela sua infraestrutura, menor tende a ser o custo por operação para o cliente e maior o nível de inteligência aplicado ao fluxo.

É uma estratégia que ajuda a explicar por que a companhia domina hoje a base de adquirentes e já atende boa parte dos bancos médios do país, ainda que os grandes bancos continuem de fora da carteira, em processos de venda que podem levar até dois anos.

O que vem por aí?

Para o Iniciador, o desafio é acompanhar essa escala mantendo robustez, disponibilidade e segurança. “Construímos uma operação preparada para crescer 15, 30 vezes de novo”, diz o executivo.

A internacionalização aparece no horizonte, mas não no curto prazo. Países como Colômbia, Chile e México avançam em seus próprios arranjos de pagamentos instantâneos e de Open Banking, mas, na visão de Martins, continuam alguns anos atrás do Brasil em termos de regulação e adoção.

O executivo projeta um cenário em que, em quatro ou cinco anos, o modelo brasileiro de iniciação de pagamentos possa ser exportado, seja como tecnologia, seja como conhecimento regulatório.

Até lá, a prioridade é consolidar a posição local em um mercado que continua longe do teto — e onde, mesmo sem aparecer para o usuário final, a infraestrutura pode definir quem ganha a disputa pelos pagamentos do dia a dia.

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