Da concorrência chinesa à guerra e inflação, G7 é símbolo de 'moral em baixa' no Ocidente

Cúpula do G7 deu a largada na Alemanha, com líderes do mundo rico confrontados por longa lista de crises
Foto na abertura da cúpula do G7, na Alemanha: países ricos buscam saída para inflação global e guerra prolongada na Ucrânia (Stefan Rousseau - Pool/Getty Images)
Foto na abertura da cúpula do G7, na Alemanha: países ricos buscam saída para inflação global e guerra prolongada na Ucrânia (Stefan Rousseau - Pool/Getty Images)
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Carolina Riveira

Publicado em 27/06/2022 às 06:00.

Última atualização em 27/06/2022 às 10:27.

Há um ano, o presidente americano, Joe Biden, fazia no Reino Unido sua estreia global como mandatário. Era momento de uma aguardada cúpula do G7, grupo dos sete entre os países mais ricos do mundo, que se reunia pela primeira vez na era Biden e pela primeira vez desde o começo da pandemia da covid-19.

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Era um mundo no qual as primeiras vacinas haviam sido aplicadas em massa nos países desenvolvidos, já reabertos (embora não fosse ainda o caso nos países mais pobres, o que não impedia o otimismo no norte global). Enquanto isso, Biden, com o discurso de que os EUA estavam de volta à cena internacional, se esforçava para mostrar a aliados na Europa um contraste com o ex-presidente Donald Trump, com quem o G7 viveu quatro anos em pé de guerra.

O clima só sorrisos daquela reunião não poderia ser mais diferente agora. Na cúpula do G7 que começou nesse fim de semana, nos Alpes da Baviera, na Alemanha, os líderes das maiores economias do globo são confrontados com uma lista quase infindável de crises, da guerra na Ucrânia à inflação que corrói a popularidade interna de todos eles.

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O G7 é composto hoje por Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Japão, Canadá e Itália, além de representação da União Europeia.

Sem a Rússia na mesa desde 2014 — quando o país foi excluído do grupo, então chamado G8, após a anexação da Crimeia —, as potências tentam sobretudo encontrar uma saída para punir o governo de Vladimir Putin pela guerra, mas sem destruir suas próprias economias.

Tem sido difícil. As sanções sem precedentes estabelecidas até agora não quebraram a Rússia como o Ocidente previa. Em parte pelo auxílio da China (que superou a Alemanha como maior compradora de energia russa), em parte porque o preço alto do petróleo com a guerra enche os cofres de Moscou.

Por outro lado, as sanções e a guerra colocam o mundo em uma trajetória de economia em alerta. A inflação anual supera 8% nos EUA e 9% no Reino Unido, números que não eram vistos desde o choque do petróleo nos anos 1970. As popularidades dos governos da Europa aos EUA estão no chão com o aumento do custo de vida.

Biden, em especial, viajou à Alemanha logo após uma série de derrotas dentro de casa. No intervalo de uma semana, a Suprema Corte de maioria conservadora anulou uma lei mais rigorosa contra armas em Nova York e reverteu a decisão de 1973 que assegurava o direito ao aborto em todo o território norte-americano.

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Já os massacres recentes (incluindo com a morte de 19 crianças em uma escola no Texas) não foram suficientes para que o Congresso americano passasse leis mais rigorosas contra armas, como era desejo de Biden e do Partido Democrata. Os democratas, além de tudo isso, caminham para perder sua maioria no Congresso.

O caso de Biden pode ser o mais drástico, mas a moral baixa se estende a todos. O presidente francês, Emmanuel Macron, chega ao G7 após perder sua maioria absoluta no Parlamento para a esquerda, o que lhe dará dor de cabeça em dobro já no começo de seu segundo mandato.

O anfitrião, o chanceler alemão Olaf Scholz, cuja coalizão de centro-esquerda tirou o partido de Angela Merkel do poder após 16 anos, mal pode comemorar a vitória e já se viu às voltas com uma guerra. O governo foi eleito com promessas como transição energética e melhorias no Estado de bem-estar social, mas não houve tempo para nada disso, e Scholz tem sido amplamente criticado por sua liderança (ou falta dela) no trato com Putin e na pauta da guerra.

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É nesse cenário que, para além do encontro do G7, que termina na terça-feira, 28, os países ricos se voltam na sequência para a Espanha, onde acontece também nesta semana a cúpula da Otan, aliança militar do Atlântico Norte.

Alberto Fernández, presidente da Argentina, ao chegar ao G7: países em desenvolvimento foram à cúpula pedir atenção aos efeitos no Sul global (Tobias Hase/picture alliance/Getty Images)

Por ora, no primeiro dia de reunião do G7, no domingo, 26, os países anteciparam novas sanções, afirmando que vão banir transações em ouro da Rússia. Em outra frente, enquanto isso, o grupo promete mobilizar um pacote de US$ 600 bilhões até 2027 para investir na infraestrutura global — uma forma de fazer frente à crescente participação da China como investidora de países em desenvolvimento com sua “Nova Rota da Seda”.

Em tempo: na reunião deste ano, está presente o presidente da Argentina, Alberto Fernández, o único latino-americano convidado (apesar de a Argentina ser só a terceira economia da região, atrás de Brasil e México). Como representante de uma América Latina onde a China já é o maior parceiro comercial de vários países, o presidente argentino deve, em sua tese geral às potências ocidentais, alertar para os impactos da guerra ao desenvolvimento do Hemisfério Sul, segundo disse a Casa Rosada. Nomes como Narendra Modi (premiê da Índia) e Cyril Ramaphosa (da África do Sul) também foram à cúpula com pauta semelhante.

Com a pobreza crescendo nos países mais pobres, o Programa Mundial de Alimentos, da Organização das Nações Unidas (ONU), incitou nesta semana os países do G7 a "agir para evitar uma fome recorde" no mundo.

As consequências da guerra e de um pós-covid conturbado poderão ser cada vez mais devastadoras, do norte ao sul global. A ver o quanto os líderes reunidos na Alemanha conseguirão responder a elas.

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