Longe do auge da URSS, economia da Rússia pode encolher 11% com a guerra

A Rússia já amargava crescimento baixo e economia exposta à volatilidade do petróleo. Agora, sanções podem trazer efeitos sem precedentes ao país
 (Andrey Rudakov/Bloomberg/Getty Images)
(Andrey Rudakov/Bloomberg/Getty Images)
Por Carolina RiveiraPublicado em 05/03/2022 08:00 | Última atualização em 07/03/2022 20:18Tempo de Leitura: 11 min de leitura

A Rússia é “incrivelmente desimportante para a economia global — exceto por petróleo e gás”.

A frase dita ao jornal The New York Times por um ex-assessor do governo Barack Obama, o economista Jason Furman, gerou debates nos últimos dias à medida que potências do Ocidente ampliam sanções sobre o país liderado por Vladimir Putin.

Para Furman, a Rússia é “basicamente um grande posto de gasolina” do mundo. Não necessariamente é pouca coisa: o país é o terceiro maior produtor de petróleo, atrás de Arábia Saudita e Estados Unidos, e crucial para a cadeia de energia do planeta.

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Mas com restrições sem precedentes anunciadas desde o ataque à Ucrânia, como a retirada dos russos do sistema internacional Swift, a grande discussão nos mercados é o quanto o país será capaz de suportar o choque. Para a economia russa, a 11ª maior do mundo, o risco é que seus conhecidos desafios estruturais — do crescimento baixo à dependência do preço internacional do petróleo — fiquem ainda mais escancarados.

Com as sanções, o Goldman Sachs estima uma queda do PIB russo de 7%, e o JPMorgan, de 11%. Antes da guerra, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetava crescimento de 2,8% neste ano.

Um choque dessa magnitude seria o maior desde o fim dos anos 1990, quando o país viveu uma profunda crise da dívida em meio à transição pós-fim da União Soviética.

Também não se compararia às sanções impostas pelo Ocidente após a anexação da Crimeia em 2014, que levaram a uma queda do PIB de quase 4% no ano seguinte, mas recuperação na sequência e cortes muito menos bruscos com a Europa.

O presidente russo, Vladimir Putin, preside uma reunião sobre questões econômicas no Kremlin, em Moscou, em 28 de fevereiro de 2022.

Putin com membros do governo em reunião em fevereiro: sanções sem precedentes podem derrubar a economia russa (afp/AFP)

Desta vez, a incerteza sobre o fim do conflito na Ucrânia não ajuda, deixando em aberto a possibilidade de novas sanções em outras frentes.

“Até agora, os países do Ocidente não aplicaram sanções sobre as exportações de commodities russas. Contudo, as ações direcionadas ao sistema financeiro russo, e o medo de mais sanções por vir, estão causando um impacto”, escreveram analistas do banco suíço UBS em relatório a clientes nesta sexta-feira, 4 de março.

“Por exemplo, há relatos de bancos se recusando a financiar carregamentos, e de compradores que não estão dispostos a comprar petróleo russo porque temem que medidas que tenham como alvo a energia de forma mais direta possam ser impostas antes que consigam receber a entrega.”

A vida mais cara em Moscou

Em alguma medida, os impactos da guerra começarão a chegar ao bolso do cidadão russo, apesar das críticas ao governo Putin de controlar a comunicação no país e perseguir opositores.

Magnatas russos já vêm sofrendo pressão, com bens congelados ou ameaçados pelo clima de "caça às bruxas" em centros financeiros como Londres e Nova York.

E em Moscou, o Banco Central russo aumentou a taxa de juros de 9,5% para 20%, acima da alta que havia instituído pós-anexação da Crimeia. A autoridade monetária diz que a medida foi “necessária para compensar a depreciação crescente e riscos de inflação”.

Roman Abramovich: com a caça às bruxas em Londres, bilionário russo colocou o Chelsea à venda (Michael Regan - FIFA/Getty Images)

As expectativas negativas também fizeram o rublo chegar a seu menor valor, e a bolsa de valores segue fechada há dias. O BC russo diz que continuará perseguindo inflação a 4%, em parte porque o governo subsidia custos dos combustíveis, mas o índice anual hoje supera 9%.

“As sanções contra a Rússia na semana passada vão afetar significativamente a saúde do setor bancário e a disposição para emprestar. O impacto disso na inflação será agravado pela forte desvalorização da moeda e isso pesará muito no poder de compra das famílias”, afirma Liam Peach, economista da casa de análise Capital Economics e especializado nos mercados emergentes da Europa.

A lista de empresas americanas e europeias que anunciaram interrupção das operações na Rússia também traz efeitos diretos ou indiretos aos russos. Um símbolo se tornou a rede de móveis sueca IKEA, que viu filas quilométricas ao anunciar que pausaria atividades no país.

(A Suécia, vale lembrar, está no centro do embate ao ter sido nominalmente citada pelo Kremlin, que demanda que o país não entre na Otan. O também sueco Spotify, aliás, foi outro que fechou seu escritório.)

Fila na porta da Ikea, em Moscou: companhia sueca anunciou que vai pausar operações (Vlad Karkov/SOPA Images/LightRocket/Getty Images)

Herdeira, mas não tanto

Com seu foco em exportação de minérios, petróleo, gás e derivados, a Rússia passou o Brasil depois de 2019 e se tornou a 11ª maior economia do mundo, em dólar, ou a 6ª em dólar paridade de compra (que minimiza as diferenças no câmbio).

São números significativos, mas também inegavelmente distantes de um passado de potência econômica como era a União Soviética. A URSS chegou a ser a segunda maior economia do mundo até os anos 1990, situação à qual a Rússia nunca mais voltou.

Há debates aguerridos entre economistas sobre os erros cometidos na transição russa, mas um consenso é geral nos dois lados da discussão: muita coisa deu errado no processo, de interferência do governo e estatais indo parar nas mãos de oligarcas sem muita transparência à falta de concorrência, modernização da indústria e infraestrutura.

A Rússia responde hoje por cerca de 1,7% do PIB global, em dólar paridade de compra. É menos do que a Índia (3%) e fatia similar à do Brasil. Os EUA representam 25%, a China, 17%, e a União Europeia, por mais de 15%.

De muitas formas, o poderio militar da URSS é uma das poucas coisas que sobraram do passado de glórias russo. É algo que Putin explora politicamente entre seu eleitorado, como mostrou um perfil do presidente feito pela EXAME.

Putin e Yeltsin, em 2000: com as turbulências na transição pós-URSS, Putin é visto como figura estabilizadora no país (AFP via Getty Images/Getty Images)

Por vários parâmetros, a popularidade de Putin em casa é alta. O ex-agente do serviço secreto, que assumiu nos anos 2000 e está no poder desde então, é visto como o líder que estabilizou o país após a conturbada transição pós-URSS. Uma pesquisa deste ano do Levada Center, instituto russo independente, identificou que o presidente tem perto de 70% de aprovação atualmente.

A crise na Ucrânia, a princípio, o fez crescer (a aprovação anterior era menor, de 61% em agosto), embora esse cenário possa mudar a depender dos desdobramentos da guerra.

Peach, da Capital Economics, aponta também que - ironicamente - a alta nos preços do petróleo e rublo desvalorizado podem dar ao governo Putin espaço fiscal “para fornecer apoio financeiro a famílias e empresas, suavizando o impacto na economia”.

O preço do petróleo chegou a seu maior patamar desde 2012, quando a guerra civil na Líbia impactou a oferta. O barril do tipo Brent fechou a semana cotado perto de US$ 120 e o WTI americano teve seu maior preço desde 2008, o que, apesar da leva de sanções, segue sendo boa notícia para as finanças do governo em Moscou.

Supermercado na Pensilvânia: inflação recorde nos EUA, puxada por preços do petróleo, é dor de cabeça para governo Biden (Hannah Beier/Bloomberg/Getty Images)

Crise em cascata no mundo

No exterior, no entanto, o efeito econômico do conflito na Ucrânia vai muito além dos 2% da parcela russa no PIB global.

É um choque que acontece em um momento em que o mundo tentava, aos trancos e barrancos, se recuperar da pandemia. Eventuais disrupções na cadeia de energia podem causar estragos no fornecimento à Europa e, mesmo para países a milhares de quilômetros de distância, ter efeitos diretos no aumento do preço dos combustíveis e da inflação.

Nos EUA, o assunto é uma especial dor de cabeça para o presidente Joe Biden, cujo Partido Democrata enfrenta eleições no Congresso neste ano com a popularidade do governo em baixa.

No caso do Brasil, há uma preocupação extra também com o suprimento de fertilizantes, mais de 20% vindos da Rússia. A Embrapa tem estudado alternativas para racionamento e eficiência no uso do estoque que já está no país.

Se houver problemas na safra por falta de fertilizantes, até mesmo setores como a indústria de caminhões e mão de obra podem ser afetados, diz Alex Agostini, economista-chefe no Brasil da agência de risco Austin Rating.

Estão na lista ainda outros impactos potenciais, como na exportação de trigo da região em guerra. “No limite, há uma série de efeitos indiretos para o Brasil. Até o mercado imobiliário é afetado, porque sobe inflação e sobem os juros”, diz Agostini.

Bombeiros apagam fogo em universidade após bombardeio de Kharkiv, na Ucrânia (SERGEY BOBOK/AFP/Getty Images)

E se a Rússia está longe do poderio econômico que foi a URSS, a crise na Ucrânia é um ponto de atenção no jogo de poder global para uma nova potência: a China, que tende a substituir a Europa como destino de parte das exportações russas.

A relação crescente com a China não é, como se sabe, exclusividade da Rússia, sobretudo no caso dos países em desenvolvimento. Embora as economias do chamado grupo dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) nunca tenham se tornado a potência prometida, a China é uma exceção.

Pequim passou a ter a segunda maior economia do mundo e exporta não só manufaturas baratas como, mais recentemente, alta tecnologia, enquanto compra commodities de emergentes, aponta Thiago de Aragão, especialista em geopolítica da consultoria Arko Advice.

Para alguns países — lista na qual Aragão inclui também o Brasil e outros latino-americanos como Argentina e Venezuela —, a relação com a China se tornou de certa “dependência”, seja comercial, financeira ou tecnológica. O caso da Rússia já se encaixava nessa tendência, mas agora tende a ser intensificado com as sanções do Ocidente.

“Antigamente, as sanções cobriam países que não tinham poder de gerar um ambiente comercial saudável entre eles”, diz Aragão, citando exemplos como Cuba, Coreia do Norte ou Venezuela. Mas, num grupo que inclui China, Rússia e até mesmo o Irã, a história é outra.

“Eles produzem o suficiente, podem criar um microcosmo entre eles, e o impacto das sanções poderia acabar sendo minimizado”, diz.

O risco russo é alto ainda assim: menos de 20% das transações sino-russas hoje usa o yuan, moeda chinesa, e o substituto chinês do Swift (o CIPS) está longe do poderio do sistema usado no Ocidente.

“A Rússia selou um divórcio com o mundo ocidental, e vai ter de se virar a partir disso”, resume Aragão. Com uma saída diplomática ainda engatinhando na Ucrânia, os próximos dias seguirão sendo de incerteza para a economia global — e para o bolso dos russos.

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