Lehmann, da USP: novo governo alemão será à esquerda, mas nem tanto

Após 16 anos de Angela Merkel, a esquerda volta ao poder na Alemanha. Kai Lehmann, da USP, vê programa do novo governo como moderado — e desafios à frente com vacinação e economia
 (Reprodução/Reprodução)
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Por Carolina RiveiraPublicado em 05/12/2021 08:00 | Última atualização em 05/12/2021 09:01Tempo de Leitura: 8 min de leitura

Com o fim da era de Angela Merkel como chanceler na Alemanha, os olhos do mundo se voltam nesta semana ao começo do governo de Olaf Scholz. No papel, a mudança é da centro-direita de Merkel para a centro-esquerda do Partido Social Democrata (SPD), vencedor das eleições e que se uniu a Verdes (à esquerda) e FDP (liberais) na coalizão governista.

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Mas, na prática, a moderação deve dar o tom do novo governo, diz o cientista político alemão Kai Enno Lehmann, hoje professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e formado pela Universidade de Liverpool. O motivo, argumenta ele, são tanto as concessões feitas para montar a inédita coalizão (como a promessa de não aumentar impostos para os ricos), quanto a linha absolutamente centrista de Scholz. O novo chanceler, embora seja do esquerdista SPD, é muitas vezes comparado à própria Merkel. "A ala do SPD que ganhou é claramente a facção 'de direita' do partido", diz Lehmann.

Nesta entrevista à EXAME, o especialista em política europeia analisa o que esperar do governo alemão, as polêmicas da vacinação no país e as futuras relações com o presidente Jair Bolsonaro — que, para Lehmann, "certamente não vão melhorar". Leia abaixo os principais trechos.

O que podemos esperar da liderança de Scholz?

Assim como Merkel, Scholz não tem carisma, não é um cara que vai, digamos, cativar as massas. Ele é muito sério, muitas pessoas o descrevem como até frio. Me parece que Scholz vai se comportar como uma espécie de coordenador, quase apartidário, o cara que vai garantir que as coisas funcionem diante das dificuldades, que certamente vão existir dentro dessa coalizão.

Os três partidos da coalizão são ideologicamente diferentes, sobretudo com FDP mais à direita e Verdes e SPD à esquerda. Que mudanças esse governo pode trazer?

Tem uma coisa para cada um nesse programa que foi divulgado. Ao menos no papel, há ênfase na transição energética e no meio ambiente, defendida pelo Partido Verde; há menos coisas do que esperado em termos de bem-estar social, reforma tributária, cuidado com idosos, e isso tem mais a mão do FDP. Onde os três parecem ter se encontrado: na reforma do sistema migratório. Primeiro, porque todos os partidos têm elementos liberais sociais; segundo, porque a Alemanha precisa desesperadamente de imigração, a população está envelhecendo. Dos planos de mudanças que a coalizão tem, esse me parece o mais profundo e o mais radical. Se der certo, será muito importante.

A Alemanha vive uma nova onda de casos de covid-19, e o governo avalia medidas mais duras. Isso pode gerar um desgaste de largada com parte da população?

A pandemia vai ser a prioridade, o próprio Scholz já disse isso. Durante as negociações da coalizão, um grande debate foi sobre a obrigatoriedade da vacina. Foi decidido que haverá regras mais unificadas no país, e restringindo a vida daqueles que não se vacinaram. Pode ser um primeiro passo antes de uma possível obrigatoriedade.

Só que para um partido como o FDP, que tem muito foco nas liberdades pessoais, isso é difícil politicamente. Mas diante do número de casos, tiveram de ceder nesse ponto. E vale reforçar, embora o número de casos esteja subindo, o número de mortos não está subindo tanto, o que é um argumento a favor da vacinação.

Na economia, o FDP ficará no Ministério das Finanças, que era ocupado até agora pelo SPD com o próprio Scholz (no governo Merkel). Foi uma derrota para a esquerda abrir mão desse cargo?

Não acredito que haverá enormes diferenças entre a gestão do FDP e o que já havia com Scholz no ministério. E também depende da pandemia. O FDP é um partido de disciplina fiscal, e não sei se isso vai ser totalmente possível no cenário econômico e social da Alemanha durante e pós-pandemia. Me parece que talvez o FDP tenha de fazer coisas contra o próprio instinto.

Ironicamente, para os outros da coalizão, isso pode até ser benéfico. Você coloca o FDP numa posição importante, mas, se não conseguirem controlar as coisas, os partidos à esquerda podem dizer, "bom, a gente colocou lá um partido que prega disciplina fiscal, nós colaboramos". Uma das principais revistas da Alemanha, a Der Spiegel, publicou que, de alguma forma, a sensação é de que ninguém queria esse ministério no fundo. De fato, vai ser um ministério politicamente difícil. Acho que os outros dois, no final, estavam quase felizes de abrir mão.

Annalena Baerbock (líder dos Verdes), Olaf Scholz (do SPD) e Christian Lindner (do FDP): Lindner deve ser o próximo ministro das Finanças, defendendo controle fiscal e sem aumento de impostos (Kay Nietfeld/picture alliance/Getty Images)

O SPD vinha perdendo espaço, criticado por aceitar coalizões com Merkel e por se mostrar moderado demais. Desta vez, o programa de governo não tem pontos tradicionais da esquerda como aumento de impostos para os ricos, além de usar termos como "justiça" em vez de "igualdade". Será um governo moderado?

Dá para ver duas coisas: o SPD, embora esteja liderando, está numa coalizão de três partidos, teve de encontrar um meio-termo. E a segunda coisa é ter Scholz como chanceler. A linha do SPD que ganhou é claramente a facção mais "de direita" dentro do partido. Scholz é bastante centrista. Tem algumas coisas no programa que são muito do SPD, moradia, salário mínimo. Mas não há nada lá que a gente possa ver como radical. Isso é a influência do chanceler, que inclusive faz parte do atual governo [de Merkel]. Seria difícil ele dizer "vamos mudar tudo". E no final das contas, a Alemanha é um país de posições que são sociais, mas são de centro. Não vai muito aos extremos, no geral.

O que podemos esperar na posição internacional da Alemanha? O que muda em relação a Merkel?

Na União Europeia, não vai mudar muito. Scholz conhece a União Europeia, embora ainda não como líder, mas ele acompanhou a política de Merkel ao longo dos anos. E a Alemanha vai ter uma ministra das Relações Exteriores [Annalena Baerbock, líder dos Verdes] com muito pouca experiência nessa área, não espero que ela lance iniciativas militarmente radicais, por exemplo. O segundo motivo são eleições francesas, na UE nada vai acontecer porque Macron vai estar em campanha.

Onde eu espero algumas mudanças é talvez em relação à China, e certamente em relação à Rússia. O governo deve se posicionar de forma mais dura contra Putin [presidente russo], algo que Merkel nunca quis fazer - por um monte de motivos, inclusive por sua experiência pessoal. Se vai resultar em uma mudança prática imediatamente, não sei. Mas acredito que retoricamente, verbalmente, vai acontecer. Temos a questão dos refugiados também, com a Rússia tendo um papel na fronteira com a Polônia.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrou com Scholz em viagem à Europa em novembro; dias antes, no G20, Scholz não teve um encontro bilateral com o presidente Bolsonaro. Como deve ser a postura do novo governo em relação ao Brasil?

Eu espero uma retórica um pouco mais dura, haverá uma ministra do Partido Verde nas Relações Exteriores, que deve ter muito foco nas questões climáticas, por exemplo. As relações certamente não vão melhorar. Mas também não vejo uma piora muito grande, já não havia uma relação muito boa com Merkel. O governo alemão, seja quem for, não ganha absolutamente nada em termos domésticos em tentar uma aproximação com Bolsonaro. Eles só têm a perder.

A sensação é que todos esses líderes estão esperando as eleições de outubro na esperança de uma derrota de Bolsonaro. Se isso não acontecer, vão ter que se recalibrar, ele vai estar lá por mais quatro anos, os governos terão de fazer alguma coisa. Mas, até outubro, não vejo nada em termos práticos acontecendo. O foco vai ser muito doméstico, a pandemia, a economia; não vejo grandes iniciativas na política externa, e nada em relação ao Brasil.