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100 anos do PC chinês: como os comunistas reinventaram o capitalismo

O Partido Comunista Chinês completa 100 anos em meio a uma história de repressão a opositores e crescimento econômico acelerado. Seu objetivo no futuro: transformar a China não apenas na maior economia global mas em uma nação rica

Congresso do Partido Comunista Chinês, em março deste ano: a longevidade da legenda que reúne 90 milhões de membros é fruto de pulso firme com os críticos e de flexibilidade diante das demandas da sociedade

Congresso do Partido Comunista Chinês, em março deste ano: a longevidade da legenda que reúne 90 milhões de membros é fruto de pulso firme com os críticos e de flexibilidade diante das demandas da sociedade (Kevin Frayer/Getty Images)

Nas últimas semanas tem havido uma movimentação crescente no vilarejo chinês de Xibaipo. As imagens mostram um grupo de estudantes ao lado de turistas de todas as idades se movimentando pelo cômodo de uma antiga casa, com fotos em preto e branco nas paredes e vermelho por todos os lados.

A residência pertenceu no passado a Mao Tsé-tung, e o vilarejo, a 350 quilômetros da capital Pequim, foi a última base rural dos então militantes comunistas antes de tomarem a capital, em março de 1949.

Após uma sangrenta guerra civil com os nacionalistas — que, derrotados, deixariam o país para criar Taiwan —, começaria ali o reinado do Partido Comunista Chinês (PCCh). Todos os anos, mais de 100 milhões de chineses se deslocam para regiões como Xibaipo e Yan’an, no que o governo chama de “turismo vermelho”.

Desta vez, as visitas têm uma conotação mais especial: o PCCh completa 100 anos no próximo mês de julho, após sua criação em 1921 por um grupo de jovens rebeldes inspirados no marxismo-leninismo da Revolução Russa de 1917. Além das viagens aos locais históricos, desfiles nas grandes cidades, calorosos discursos e programações na televisão oficial já estão a todo vapor para celebrar a data.

A mensagem é clara: “Passar adiante a bandeira vermelha de geração em geração”, disse em comunicado o presidente Xi Jinping — no comando do partido desde 2012 e talvez o mais poderoso líder chinês desde o próprio Mao.

A efeméride vem em um momento de boas notícias para o agora centenário Partido Comunista. A pandemia de covid-19, que gerou uma crise global da imagem chinesa depois que os primeiros casos foram descobertos em Wuhan, tem estado sob controle no país enquanto ainda assola parte do Ocidente.

Com testagem em massa que garante lockdowns localizados quando necessário e quarentenas rigorosas para os vindos do exterior, o país teve somente uma morte pela covid-19 em 13 semanas, até o começo de junho, segundo os dados oficiais. A vacinação que começou lenta alavancou em maio, chegando a mais de 20 milhões de pessoas por dia e 800 milhões de doses aplicadas, cerca de 40% da população tendo tomado pelo menos uma dose.

Sob o governo do presidente Xi Jinping desde 2012, a China foi a única grande economia a crescer no ano passado, com o produto interno bruto subindo 2,3%. Para 2021, a projeção do partido e dos principais bancos globais é de crescimento na casa dos 8%.

O Partido Comunista quer seguir liderando o país em uma trajetória de retorno a um passado glorioso: o antigo império chinês foi a maior economia do mundo em quase toda a história mundial — com exceção exatamente dos últimos 200 anos, quando ficou para trás nas revoluções industriais.

Projeções para o pós-pandemia já apontam que a China pode ultrapassar os Estados Unidos como maior PIB do mundo antes do fim desta década, mesmo crescendo menos: 5% ou até 4% ao ano.

“A pergunta não é mais se a China vai ultrapassar os Estados Unidos, mas quando. É uma questão de tempo, mesmo com a desaceleração natural do crescimento chinês”, diz Todd Lee, diretor executivo da consultoria IHS Markit.

 (Arte/Exame)

Quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, e os comunistas soviéticos deram lugar a uma transição rumo a um regime capitalista pleno, governos alinhados a Moscou entraram em estado de apreensão. Meses antes, o partido em Pequim já havia vivido em junho a crise dos protestos na Praça da Paz Celestial, que terminaram em massacre dos estudantes opositores.

“Havia membros seniores do partido que acreditavam, de fato, que o PCCh não resistiria”, diz Tony ­Saich, professor da Universidade Harvard e autor do livro recém-lançado One Hundred Years of the Chinese Communist Party (“100 anos do Partido Comunista Chinês”, numa tradução livre), sobre o centenário do partido. Mas foram em crises como essas ao longo de seus 100 anos que o Partido Comunista e seus líderes mostraram as facetas do que é hoje conhecido como o “modelo chinês”.

Da transição da questionada Revolução Cultural de Mao, que levou a 40 milhões de mortos pela fome generalizada e perseguiu opositores, para as reformas de mercado de Deng Xiaoping nos anos 1970, o partido foi capaz de se adaptar às demandas de cada momento antes que o ambiente político se tornasse insustentável.

 (Arte/Exame)

O modelo ditatorial do partido, com propaganda por todos os lados e controle rígido das dissidências, explica só uma parte de sua longevidade. Não há outra organização política no mundo como o Partido Comunista Chinês.

A começar pelo tamanho: com 91 milhões de membros, só fica atrás do Partido do Povo Indiano, do premiê Narendra Modi, que tem o dobro de filiados. Sua enorme estrutura se construiu para ser a voz do regime em todo canto da China. Estão na legenda grandes e pequenos empresários, elites milenares, pequenos camponeses e líderes comunitários que vão das regiões urbanas aos vilarejos mais isolados.

Todo e qualquer jovem brilhante que deseje galgar posições na sociedade chinesa precisa estar lá. Com tanta gente e sem a possibilidade de criar um novo partido, as discordâncias internas são inevitáveis e podem gerar crises profundas. Por isso, embora o partido seja obcecado pelo que especialistas chamam de “unidade de pensamento”, e as principais diretrizes venham do comando central, o PCCh também possui mecanismos de ouvidoria para dar voz aos filiados — e, por tabela, aos dilemas contemporâneos que acabam sendo carregados para dentro pelos 90 milhões de membros.

Alguns ideais comunistas terminaram se adaptando aos tradicionalismos milenares chineses, como os festivais religiosos. Essas frequentes aberturas à adaptação foram um preço que o partido aceitou pagar pela sobrevivência, diz Saich. “Se há uma palavra para descrever os motivos de o Partido Comunista se manter no poder por tanto tempo, é ‘flexibilidade’”, diz (leia a entrevista abaixo).

A economia também desempenhou papel onipresente para a manutenção do sistema nas últimas décadas. Desde o fim dos anos 1970, após a morte de Mao e quando Deng Xiaoping começou a fazer reformas de abertura da economia no país, o PIB chinês subiu incríveis 9.000%

Em um processo de reconciliação com as elites, os benefícios ao topo da pirâmide são incontestáveis: o número de bilionários chineses passou de 600 no ano passado, o país tem quatro dos dez maiores centros financeiros do mundo (Xangai, Pequim e Shenzhen, além do território de Hong Kong), e a lista de 500 maiores empresas do mundo da revista Fortune teve em 2020 mais empresas chinesas do que americanas pela primeira vez — quando a lista começou a ser publicada, em 1990, nem sequer havia empresas chinesas no ranking. A verdade é que todo esse crescimento chegou, em maior ou menor grau, aos mais de 1 bilhão de chineses.

O país tirou 800 milhões de pessoas da pobreza em 40 anos, com ampliação do acesso à educação e à saúde. A coroação veio em fevereiro deste ano, quando Xi foi à mídia estatal anunciar o fim da extrema pobreza na China.

“Não é que a população apenas tolera o partido. Houve uma mudança radical na condição de vida dessas pessoas”, diz Isabela Nogueira, coordenadora do Laboratório de Estudos em Economia Política da China (LabChina), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Estamos falando de uma população que há 40 anos vivia à beira da insegurança alimentar e hoje tem condições de classe média. Parte do apoio ao partido comunista vem disso.”

 (Arte/Exame)

O sucesso econômico não esconde os dilemas políticos crescentes. O modelo flexível e adaptável que trouxe o Partido Comunista até aqui está, ele próprio, em xeque sob a liderança cada vez mais centralizadora de Xi Jinping.

Perto de completar uma década no poder, Xi é um engenheiro que a imprensa internacional descrevia como “pragmático” na época de sua posse. Casado com uma popular cantora chinesa e com uma filha que estudou em Harvard, Xi era visto como um líder capaz de promover novas reformas similares às da era Deng.

Não foi o que aconteceu. O tecnocrata assumiu a China em um momento difícil, quando a corrupção era fonte cada vez maior de insatisfação popular e o futuro da economia era colocado em questionamento. Respondeu à crise com mãos de ferro e conseguiu estabilizar o país.

Mas parte dos chineses pagou o preço: a perseguição à minoria muçulmana uigur, na região de Xinjiang, cresceu sem precedentes, apesar dos protestos de organizações de direitos humanos no exterior. Líderes proeminentes dentro do partido foram neutralizados e alguns foram presos por acusações pouco transparentes de corrupção, uma obsessão da era Xi.

A tensão com os antigos rivais em Taiwan também cresceu, assim como contra Hong Kong, onde o modelo de “um país, dois sistemas”, que permitiu relativa liberdade intelectual e política na ilha, foi enterrado com a prisão de jovens opositores que lideraram protestos. Na teoria, uma nova escolha de liderança na China também deveria ocorrer em 2022. Mas em 2018 as regras foram reescritas para permitir que Xi, aos 67 anos, fique no poder para o resto da vida caso siga tendo apoio do partido. A mudança deve levá-lo no ano que vem ao início de um terceiro mandato.

Posto de vacinação contra a covid-19 em Rongan, na província de Guangxi: embora tenha começado lenta, a vacinação acelerou e mais de 800 milhões de chineses já tomaram pelo menos uma dose de imunizante

Posto de vacinação contra a covid-19 em Rongan, na província de Guangxi: embora tenha começado lenta, a vacinação acelerou e mais de 800 milhões de chineses já tomaram pelo menos uma dose de imunizante (STR/AFP/Getty Images)

Se Xi seguirá tendo amplos poderes dentro da burocracia do PCCh dependerá de sua principal missão a partir de agora: concluir com sucesso a transição da China de um país de renda média para um país rico.

Sozinho, o modelo de crescimento econômico chinês pautado na industrialização e custos baratos de produção que trouxe o país até aqui não será mais o suficiente para o século 21.

“O ambiente internacional se tornou hoje muito mais desafiador para a China. O país vem melhorando há 40 anos, mas nada garante que isso seguirá acontecendo”, diz Celio Hiratuka, diretor associado do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas e que estuda a economia chinesa.

O último plano quinquenal chinês — que estabelece as prioridades para os próximos cinco anos — dá a letra para o principal desafio nos anos 2020: ampliar a independência chinesa com relação à alta tecnologia estrangeira.

A guerra comercial instaurada pelo ex-presidente americano Donald Trump, com sanções e proibição de exportação de alguns insumos de empresas americanas para a China que seguem sob a administração de Joe Biden, escancarou a urgência da transição. Não é uma disputa que se restringe ao tamanho do PIB. A China há muito deixou de ser mera exportadora de quinquilharias e já é líder em áreas como o 5G e algumas frentes de inteligência artificial. Mas segue muito atrás dos Estados Unidos em outras tecnologias de fronteira, como fabricação de semicondutores, essenciais para tudo, dos celulares de ponta da Huawei às próprias redes de 5G.

“A China está investindo pesado para isso, mas não é algo que se constrói do dia para a noite. Os Estados Unidos estão desenvolvendo essa tecnologia, gestada no setor militar, desde a Segunda Guerra”, explica Esther Majerowicz, do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e que estuda a fronteira tecnológica em hardware. O segundo desafio é o tamanho do parque industrial chinês, que ainda é insuficiente para o próprio mercado interno. 

Fábrica de componentes para computadores na província de Anhui

Fábrica de componentes para computadores na província de Anhui (STR/AFP/Getty Images)

Apesar de um cenário geopolítico cada vez mais hostil, a pandemia deixou claro o poderio da China nesta nova era.

No começo da crise, a China se viu como a principal fornecedora de produtos valiosos, como os equipamentos de proteção individual — o que foi batizado de “diplomacia da máscara”, depois estendida às vacinas desenvolvidas em casa. Os insumos no combate à covid têm sido vistos quase como uma extensão da Rota da Seda, programa lançado em 2013 que inclui investimentos em países na Ásia e na África, em parte para ampliar a influência chinesa na região.

Historicamente, a diplomacia chinesa sob o Partido Comunista é vista como mais pragmática, com menos contrapartidas exigidas dos parceiros. Mas as exceções à regra podem crescer à medida que a pressão global sobre a China aumentar. Taiwan, por exemplo, acusa o governo chinês de tentar convencer o Paraguai a retirar o status de país que dá à ilha — é um dos poucos no mundo a fazê-lo, ao contrário do Brasil — em troca de vacinas.

“Na crise do coronavírus, a China se tornou mais ousada na busca por seus objetivos comerciais e abandonou, de certa forma, sua posição de não interferência”, diz Margaret Myers, diretora do programa Ásia-América Latina no centro de estudos Inter-American Dialogue e ex-colaboradora do Departamento de Defesa americano.

Encontro em 2011 do então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e do presidente chinês Xi Jinping: a tecnologia é o centro da disputa comercial e da dependência entre os dois países

Encontro em 2011 do então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e do presidente chinês Xi Jinping: a tecnologia é o centro da disputa comercial e da dependência entre os dois países (Lintao Zhang/Getty Images)

O Brasil, onde nove em cada dez vacinas aplicadas chegaram a ser da chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, é um dos símbolos da chamada “cooperação Sul-Sul” com a China. Desde 2009, o país ultrapassou os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil e é destino de um terço das exportações nacionais. Com o enriquecimento da população chinesa e a demanda por alimentos e minérios em alta, a entrada de dólares chineses por aqui não deve arrefecer.

Em evento da EXAME neste ano, o embaixador Yang Wanming — que chegou ao posto em 2018 e se tornou figura conhecida dos brasileiros por sua presença nas redes sociais — disse que a demanda chinesa por produtos brasileiros seguirá crescendo e que as empresas da China “esperam manter-se atualizadas das políticas brasileiras de atração de investimentos”.

É o que reforça o executivo chinês Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), que ajudou a fundar a entidade a pedido do governo chinês nos anos 1970. Por aqui, a Câmara leva executivos brasileiros em viagens à China e ajuda a atrair investimentos. Além da agricultura, Tang afirma que há conversas avançadas para investimentos em áreas como infraestrutura e energia renovável.

O leilão da faixa de 5G no Brasil e o dilema em torno da participação da chinesa Huawei no certame — sempre ponto de tensão com o governo do presidente Jair Bolsonaro — tendem a ser temas-chave da relação sino-brasileira nos próximos anos. 

Ter empresas globais espalhadas pelo mundo foi um dos expedientes que os países mais ricos adotaram para ser considerados de fato influências hegemônicas. Mas episódios como a disputa geopolítica pelo 5G são símbolos do dilema que envolve o chamado “socialismo de mercado” da China. O PCCh vive com suas empresas uma relação quase mutualística: as companhias precisam que o partido as ajude a crescer, enquanto seu sucesso reflete os avanços do próprio regime.

Mas essa proximidade, incluindo interferências explícitas como o cancelamento da oferta inicial de ações da Ant Financial, do bilionário Jack Ma e fundador do Alibaba, fazem a imagem das empresas ser confundida com a do próprio Estado.

“As pessoas não olham para as empresas chinesas como olham para o Google, por exemplo: o Google é americano, mas não é o Estado. No caso da China, as coisas ficam mais confusas a cada interferência do partido”, diz Diogo Castro e Silva, investidor e ex-diretor-geral para a América Latina do conglomerado chinês Fosun.

Para ele, essa imagem negativa é uma oportunidade perdida para que as empresas chinesas virem de fato globais. O contexto geopolítico de guerra comercial tornou a expansão mais difícil para as empresas que tentavam se aventurar no exterior — proibida nos Estados Unidos, a Huawei tem na Europa seu maior mercado de celulares fora da Ásia. 

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A relação Estado e iniciativa privada também fica mais complexa à medida que essa elite, outrora reflexo do sucesso do modelo chinês, passa a ficar poderosa demais. A linha é tênue mesmo nos regimes capitalistas, envolvendo regulação, tributação e outros temas sensíveis para as duas partes. Mas, em especial na China, ter empresas privadas pouco reguladas enquanto todo o resto passa pelo escrutínio estatal se tornou um dos principais paradoxos do sistema.

O tema tem ganhado os holofotes sobretudo com o aumento da intervenção do partido no estratégico setor financeiro. Apesar de os bancos serem majoritariamente controlados pelo Estado, o PCCh permitiu a proliferação das fintechs pelo país. Também se beneficiou dela, com a digitalização dos meios de pagamento muito antes do Ocidente — os usuários de carteiras digitais na China foram de 150 milhões em 2013 para mais de 800 milhões em 2020. Mas a pressão sobre Jack Ma, do Ant e do Alibaba, que ficou sumido por três meses depois de criticar a regulação estatal, mostrou que a era de maior liberdade no setor acabou.

Com as principais empresas chinesas — como Tencent, Baidu, JD.com e até a fabricante de eletrônicos Xiaomi — tendo braços de serviços financeiros, o caso Ma foi, na verdade, um recado geral. “Os reguladores deixaram claro que suas preocupações não são apenas com uma única empresa, mas com as práticas de todo o setor de fintechs”, escreveu sobre o caso Xiaoxi Zhang, analista da Gavekal Research, parceira da EXAME Invest.

 (Arte/Exame)

Há questões importantes que precisam ser enfrentadas. A barreira demográfica é uma delas: a população começará invariavelmente a crescer menos — e a envelhecer — antes que o país fique rico, dilema parecido com o do Brasil.

Para minimizar esse impacto, o governo chinês anunciou que cada família pode passar a ter três filhos, em vez de dois, um marco no país que entre 1979 e 2015 implementou a chamada “política do filho único”. Mas seguir com alto número de jovens não basta se o país não aumentar sua produtividade. Na transição dos anos 1980 para uma economia de mercado, havia muito espaço para crescer. À medida que a economia evolui, encontrar novas brechas é mais difícil.

“Até agora, todas as economias avançadas ficaram ricas estando sob regimes democráticos. A China conseguirá seguir equilibrando seu modelo?”, diz Lee, da IHS Markit.

Que a China será a maior economia do mundo sob comando do Partido Comunista, não há dúvidas. Mas se o país será uma potência hegemônica mundial ainda não está claro.

E essas são duas coisas diferentes, argumentam os especialistas. A nova geração chinesa caminha para as próximas décadas com a missão de resolver seu principal dilema: como seguir criando soluções inovadoras e aumentando a produtividade em um país que restringe a livre circulação de pensamento? Haverá espaço suficiente para corrigir os rumos do país caso Xi e seu círculo mais próximo estejam errados em alguma aposta? A seu favor, o PCCh tem os últimos 100 anos, notadamente os últimos 40. O que os comunistas que reinventaram o capitalismo farão nos próximos 100 anos para alcançar seus objetivos é uma incógnita, mas sem dúvida continuarão a lutar por esse papel no futuro.  


De rebeldes a poderosos

Criado em 1921 e no poder desde 1949, o Partido Comunista Chinês passou por incontáveis transformações | Carolina Riveira

Anthony Saich, de Harvard: o pesquisador conta em livro recém-lançado os conflitos e o modus operandi do partido

Anthony Saich, de Harvard: o pesquisador conta em livro recém-lançado os conflitos e o modus operandi do partido (Divulgação/Divulgação)

Os jovens intelectuais que fundaram na clandestinidade em 1921 o que seria o Partido Comunista Chinês talvez não pudessem imaginar quanto a legenda se tornaria diferente do que formularam. Esse caminho centenário é o que Anthony Saich, diretor do Centro Ash para Governança Democrática e Inovação na Universidade Harvard, narra no livro From Rebel to Ruler — One Hundred Years of the Chinese Communist Party, (“De rebelde a governante — 100 anos de Partido Comunista Chinês”, numa tradução livre), em pré-venda pela Harvard University Press. Sobre se o partido durará mais 100 anos, ele é categórico: “Somos muito ruins em prever qualquer coisa sobre a China”. Leia os principais trechos da entrevista à EXAME.

Regimes vão e vêm, mas o que fez o Partido Comunista ficar no poder? 

No curto prazo, o ponto-chave foi a decisão de Deng Xiaoping de que o mais importante eram os interesses materiais das pessoas. A economia se mexeu, a qualidade de vida melhorou. Mas a explicação mais profunda é que o PCCh se mostrou notadamente adaptável. Uma das bases do sucesso é o partido ser bom na micropolítica: apesar de muito das diretrizes vir do centro, isso permitiu flexibilidade no nível local. Mas vemos sob Xi uma tremenda centralização de poder, o que de alguma forma reduz a flexibilidade que os trouxe até aqui. 

Com 90 milhões de membros, não há embates internos?

Há muitas visões conflitantes dentro do partido. Eu conheci membros mais liberais do que a Thatcher e mais stalinistas do que o Stalin. “O partido é a única atração na cidade”: todos que têm ambição política e de carreira se filiam. Se todo mundo está lá, isso faz com que o partido importe muitas contradições da sociedade, e por isso Xi é tão obcecado com a centralização de pensamento. Ainda assim, eu conto no livro sobre uma vila que é controlada pelo mesmo clã desde os tempos imperiais. Eles estão trazendo o clã para dentro do partido ou o partido para dentro do clã? Acho que ambos. Há múltiplas realidades operando dentro da China, lugares muito pobres onde os líderes são bem mais autoritários, outros mais bem-sucedidos economicamente. A visão sobre a China depende de onde você está. 

O episódio de Jack Ma [o fundador do Alibaba criticou a regulação chinesa e teve o IPO de uma empresa do grupo cancelado] pode marcar uma ruptura entre o PCCh e empresários? 

Historicamente, se você parece estar se tornando muito influente e muito poderoso, o partido quer colocá-lo sob as rédeas novamente. Jack Ma foi um caso extremo, embora não isolado. Acho que por muito tempo o governo não se deu conta do que estava acontecendo no setor financeiro. Mas os negócios não podem sobreviver sem o partido. E empresários menores, que não são estrelas como Jack Ma, dependem ainda mais do partido e vão cooperar com o que for preciso.

Quais são os principais desafios do PCCh para os próximos anos? 

Economicamente, a questão é como achar novas formas de crescer para manter os cidadãos satisfeitos, e em qual medida o momentum da China será contido por pressões internacionais. Politicamente, a dúvida é se essa centralização sob Xi vai levar a mais atrofia e menos inovação. E com a indicação de que Xi não vai sair do comando tão cedo, a sucessão também se torna mais delicada: como ficam os que estão esperando chegar ao topo nos próximos dez anos? Apenas se a continuidade do partido estivesse ameaçada as pessoas se moveriam contra a liderança de Xi, e isso não parece estar no horizonte. Mas digo que nós somos muito ruins em prever qualquer coisa sobre a China. 

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