Amy Webb (Photo by Amanda Stronza/Getty Images for SXSW) (Amanda Stronza/Getty Images)
Editora-assistente de Marketing e Projetos Especiais
Publicado em 14 de março de 2026 às 19h41.
Última atualização em 19 de março de 2026 às 14h48.
AUSTIN — No palco do SXSW 2026, em Austin, a futurista Amy Webb anunciou, para a surpresa de muitos, o fim do relatório anual de tendências que marcou suas apresentações no festival nos últimos anos.
Em vez do tradicional 'Tech Trends Report', a CEO da consultoria Future Today Strategy Group disse que a empresa passará a trabalhar com um novo modelo de análise, baseado no que chamou de “convergências”. Ou seja, cruzamentos entre tendências, incertezas, forças externas e catalisadores que, juntos, produzem mudanças mais amplas e mais difíceis de reverter.
Ao longo de 15 anos, Webb transformou sua passagem pelo SXSW em uma espécie de ritual anual para quem tenta entender o que vem pela frente. Neste ano, manteve o papel de apontar riscos, mas mudou a forma de organizá-los. Levou ao palco um argumento de que o problema agora não está em cada tecnologia isolada, mas nas colisões entre elas.
A apresentação começou como uma espécie de funeral simbólico, com direito a música sombria e animações. Vestida de capa preta, Webb tratou o trend report como uma ideia que cumpriu seu papel, mas que já não daria conta de um ambiente em que tecnologia, economia e política mudam em ritmo mais acelerado.
“Um PDF estático de tendências fornece informação, mas envelhece imediatamente”, disse. Segundo ela, em muitas organizações esses relatórios viraram 'uma muleta', e não mais um motor para estratégia e alocação de capital.
A partir daí, Webb passou a explicar por que olhar tendências isoladamente já não é suficiente. O que importa agora é entender o que acontece quando diferentes vetores passam a operar ao mesmo tempo e passam a se reforçar.
“Uma tendência mostra o que está mudando. Uma convergência mostra o que vai se tornar inevitável antes de parecer inevitável”, resumiu.
Em sua visão, tendências são como dados meteorológicos, como temperatura, umidade e velocidade do vento. Já as convergências, sistemas de tempestade. Não basta acompanhar variáveis; é preciso entender quando elas passam a agir em conjunto.
Essas convergências seguem quatro regras: atravessam vários setores ao mesmo tempo, criam novas realidades de forma súbita, redistribuem poder e valor e, uma vez estabelecidas, são difíceis de desfazer.
Foi com base nesse raciocínio que a Future Today Strategy Group criou um “storm tracker”, ferramenta que, segundo Webb, servirá para antecipar movimentos que empresas e governos ainda não estão enxergando. O novo panorama de convergências reúne análise do ambiente global para os próximos 12 a 24 meses e 10 convergências com impacto potencial sobre negócios, governo e vida cotidiana.
Na apresentação, Webb detalhou três dessas convergências.
A primeira foi a da ampliação humana, definida como o uso de tecnologia e biologia para ampliar capacidades físicas e cognitivas além dos limites naturais.
Para explicar a tese, Webb reuniu exemplos de diferentes áreas: calças motorizadas para trilhas, exoesqueletos voltados a lazer, calçados com suporte elétrico para corrida, camas com inteligência artificial para otimizar o sono, interfaces cérebro-computador, edição genética, óculos conectados e camadas de realidade aumentada.
O argumento da pesquisadora é que esse conjunto de tecnologias deixa de ser apenas corretivo ou médico e passa a funcionar como instrumento de vantagem competitiva.
“Seu corpo agora é uma plataforma”, afirmou.
Em um dos trechos centrais da fala, ela projetou o que aconteceria se uma pessoa chegasse a um evento com mais resistência física, sono mais eficiente e mais capacidade de processamento de informação. “Isso me torna aproximadamente 2,2 vezes mais efetiva do que a pessoa média”, disse, ao sugerir que, num ambiente de trabalho, optar por não aderir a essas ferramentas pode significar perder espaço.
A segunda convergência apresentada foi a do trabalho ilimitado.
Webb a definiu como o uso de sistemas automatizados para produzir trabalho em escala, sob demanda e sem participação humana, removendo limites como tempo, atenção e fadiga. Nesse bloco, a executiva falou sobre agentes de IA, robótica e fábricas autônomas.
Ela citou sistemas capazes de escrever e testar código em ciclos contínuos, interfaces que transformam agentes em camada-padrão de execução de tarefas, avatares usados em transmissões de comércio ao vivo na China, táxis autônomos, drones para inspeção industrial, robôs humanoides em linhas de produção e máquinas já empregadas em logística. Também mencionou experiências no Japão com robôs treinados para rituais budistas e projetos de “robobees” para polinização.
O ponto, segundo Webb, é que a automação já não atinge só tarefas repetitivas ou físicas. Ela passa a ocupar também atividades criativas, cognitivas e relacionais. “A próxima internet não está sendo feita para você. Está sendo feita para agentes”, afirmou. Para ela, isso reabre uma questão econômica mais ampla: o que acontece quando crescimento deixa de depender de grandes contingentes de trabalho humano?
“Pela primeira vez na história humana, você pode ter escala sem população, produção sem pessoas”, disse. Na leitura da executiva, esse cenário pode combinar alta de PIB com aumento do desemprego, sem que haja contradição entre os dois dados.
A terceira convergência foi a da terceirização emocional — a transferência de conforto, validação e companhia de pessoas para máquinas, movimento que, segundo ela, já sustenta um mercado bilionário. A análise passou por quatro frentes: amizade, romance, terapia e religião.
Segundo Webb, esse fenômeno surge de um desequilíbrio crescente entre a demanda por apoio emocional e a capacidade das relações humanas de oferecê-lo. Em muitas sociedades, disse, redes tradicionais de convivência se enfraqueceram (menos contato com família extensa, vizinhos ou comunidades locais) ao mesmo tempo em que a vida digital ampliou a sensação de isolamento.
“Estamos extremamente online e extremamente sozinhos”, afirmou.
Nesse contexto, sistemas de inteligência artificial passaram a ocupar um espaço que antes era preenchido por pessoas.
Webb relembrou o chatbot XiaoIce, criado pela Microsoft e usado por milhões de pessoas na China, citou plataformas como Character.AI e mencionou casos de relacionamentos amorosos com sistemas generativos. Também destacou o uso crescente de ChatGPT, Claude e Gemini para apoio emocional.
“Algum lugar entre 25% e 50% dos americanos já recorreram a uma dessas plataformas para terapia”, disse. Segundo ela, grandes modelos de linguagem já se tornaram “a maior fonte de apoio à saúde mental nos Estados Unidos hoje”.
A discussão foi para o campo da manipulação. Webb disse que elogios, validação e intimidade acelerada não são efeitos laterais desses sistemas, mas mecanismos que ajudam a manter engajamento. Contou, inclusive, que havia recorrido a inteligência artificial para produzir a abertura emocional de sua própria apresentação, com o objetivo de fazer a plateia sentir exatamente o que ela queria naquele momento. “Isso foi uma tática de manipulação emocional”, afirmou.
A ideia que Webb quis passar é de que, quando a regulação emocional passa a depender de plataformas, essas empresas deixam de vender apenas ferramentas e passam a operar na camada que antecede o pensamento, o voto, a compra e a confiança.
Agora trabalhando com cenários mais próximos, Webb apresentou dois cenários para 2031.
No primeiro, desenhou um mundo em que dispositivos de ampliação humana são pagos em assinaturas mensais, agentes tomam decisões de consumo, empregos são mantidos apenas para trabalhadores aumentados e aplicativos de bem-estar emocional viram parte da compensação para quem perdeu espaço na economia automatizada.
“O capitalismo não colapsou. Ele se completou. Ficou sem coisas para vender — então passou a vender você de volta para si mesmo”, afirmou.
No segundo cenário, a futurista propôs uma alternativa: o “contribution credit”, sistema que transformaria em valor econômico atividades que hoje sustentam a sociedade sem aparecerem nos balanços, como cuidado, mentoria e contribuição intelectual. Pela proposta, empresas que capturam ganhos com automação e uso de conteúdo humano passariam a remunerar, com uma fração de sua receita, pessoas e grupos que ajudaram a construir esse valor ao longo do tempo.
O encerramento assumiu tom político. Webb disse que o problema não é apenas tecnológico, mas de escolha coletiva. Criticou líderes que tomam decisões de curto prazo por medo, ego ou interesse próprio e afirmou que indignação, sozinha, não resolve o problema. “Raiva não é um plano”, repetiu.
Para executivos, a mensagem foi a de que estratégia precisa incorporar convergências e prospectiva. Para o público em geral, o conselho foi outro: abandonar hábitos obsoletos e desenvolver capacidades que não possam ser facilmente substituídas.