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O recado dos bancos centrais sobre a Guerra no Irã

Alta do petróleo muda planos das autoridades monetárias e força cortes mais cautelosos no Brasil e no exterior

Petróleo: commodity pressionou decisões dos juros (Andriy Onufriyenko/Getty Images)

Petróleo: commodity pressionou decisões dos juros (Andriy Onufriyenko/Getty Images)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 21 de março de 2026 às 08h12.

Última atualização em 21 de março de 2026 às 09h25.

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Todos os sinais apontavam para um possível arrefecimento das taxas de juros no mundo. No Brasil, a expectativa de um corte de 0,50 ponto percentual na Selic era alta, assim como a de os Estados Unidos iniciarem um ciclo mais claro de flexibilização.

Mas, no dia 28 de fevereiro, com o ínicio da guerra no Irã, as perspectivas dos comitês de políticas monetárias foram duramente alteradas e, mais uma vez, a realidade entrou no caminho do que já parecia uma certeza.

Na quarta-feira, 18, o Banco Central do Brasil (BC) realizou um corte ameno nos juros, de apenas 0,25 ponto percentual, o primeiro em dois anos. Um bom começo de ciclo, segundo analistas, mas que começa tímido.

A decisão reflete uma mudança abrupta no cenário global. A escalada do conflito no Oriente Médio elevou o preço do petróleo acima dos US$ 110 por barril, o que pressiona as cadeias de custos e reacende riscos inflacionários.

Segundo relatório da Austin Rating, o movimento tem potencial de elevar o Índice de Preços Amplos (IPCA) em 0,6 ponto percentual nos próximos 12 meses.

O choque externo alterou o balanço de riscos. O Copom indicou que, apesar de a política monetária já produzir desaceleração da atividade, o ambiente exige cautela diante da desancoragem das expectativas e da volatilidade global.

Brasil inicia ciclo, mas com freio

No mercado, predomina a leitura de que o Banco Central iniciou o ciclo de queda, mas reduziu a intensidade inicialmente prevista diante do conflito no Irã.

“O Banco Central cumpriu o forward guidance, mas calibrou a magnitude para baixo, preservando a credibilidade da comunicação”, diz Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital. “Entregar 0,50 seria imprudente e comprometeria a credibilidade conquistada nos últimos trimestres.”

Para ele, a combinação entre petróleo elevado e inflação resistente limita o espaço de atuação. “O petróleo saltou de US$ 72 para uma média de US$ 103 por barril em poucas semanas, pressionando diretamente a cadeia de combustíveis, frete e alimentos”, afirma.

Na mesma linha, Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital, destaca o impacto direto do cenário externo. “O conflito trouxe sérias preocupações e impactos relevantes de curto e longo prazo, principalmente nos combustíveis”, diz.

A curva de juros já reflete essa mudança. Projeções indicam uma Selic terminal próxima de 14,20%, distante das estimativas mais otimistas do início do ano.

“A mensagem da curva é clara: o mercado não acredita em um ciclo agressivo”, diz Trevisan. “O cenário base agora é de ciclo curto e raso.”

Para Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos, o Banco Central sinaliza cautela estrutural.

“Vejo a decisão como um sinal importante de que o Banco Central está mais confortável com a trajetória da inflação, mas ainda caminha de forma muito cautelosa, de olho no exterior”, diz. Para ele, a guerra tem chance de se estender, o que “pode esfriar o plano do Copom de continuar cortando a Selic com mais agressividade”.

O ambiente também altera a leitura para investidores. Trevisan avalia que o nível atual de juros mantém a atratividade da renda fixa e reforça a cautela com ativos mais sensíveis ao ciclo.

Fed e Europa também recuam

O movimento de cautela é global. O Federal Reserve manteve os juros entre 3,50% e 3,75%, citando incertezas elevadas e risco de nova pressão inflacionária com a alta da energia.

Segundo a Austin Rating, a guerra entre EUA-Israel e Irã se tornou um fato novo com potencial de manter a inflação americana pressionada acima da meta por mais tempo, em um momento em que o CPI já rodava em 2,4% em 12 meses e o PPI, em 2,8%.

A consultoria também destacou que, antes do conflito, a expectativa predominante era de início do afrouxamento monetário a partir de junho, com a taxa podendo caminhar para a faixa entre 3,00% e 3,25% mais adiante.

Para Trevisan,a decisão do Fed não surpreendeu, mas o contexto mudou. “A alta do petróleo reacendeu o receio de inflação persistente nos Estados Unidos, e o mercado já reduziu as apostas em flexibilização rápida”, diz.

Chama a atenção também um dado que ajuda a explicar a cautela adicional: o fluxo líquido de capital para os EUA em janeiro caiu para menos de US$ 25 bilhões, contra mais de US$ 113 bilhões no mês anterior, enquanto as transações líquidas de longo prazo recuaram de US$ 96,5 bilhões para US$ 15,5 bilhões. Ao mesmo tempo, o dólar index (DXY) fechou em 100,19, alta de 0,63%, o que pode indicar a manutenção da busca por proteção em meio à aversão a risco.

No Reino Unido, o Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês), manteve a taxa em 3,75%, em decisão dividida por 5 votos a 4. A divisão mostra que o comitê já discute o momento de iniciar um ciclo de queda, mas a maioria preferiu esperar mais sinais de convergência da inflação, hoje em 3%, para a meta de 2%.

A minoria defendeu corte imediato, sob o argumento de que a política monetária já está restritiva demais para uma economia que perde tração.

Na zona do euro, o Banco Central Europeu (BCE) também optou por manutenção, deixando a taxa de depósito em 2,00%. A autoridade monetária reconhece que a inflação vem se estabilizando em torno da meta no médio prazo, mas reforça que o choque geopolítico e as incertezas no comércio global exigem vigilância.

Na prática, o BCE retirou qualquer ideia de trajetória automática de queda e voltou a enfatizar dependência total dos dados.

No Japão, o banco central japonês manteve a taxa em 0,75%, depois de tê-la elevado em dezembro ao maior nível em 30 anos. A preocupação central é o efeito do petróleo sobre uma economia altamente dependente de importações de energia.

O banco continua em modo de observação, monitorando se a alta de custos será apenas temporária ou se pode contaminar preços e salários de forma mais persistente.

Petróleo vira variável central

O choque do petróleo reposicionou a discussão global. O encarecimento da energia afeta diretamente combustíveis, fretes e alimentos, com forte efeito de repasse inflacionário. Desde o início do conflito, o petróleo acumula valorização de cerca de 50%.

No Brasil, a projeção de inflação para 2026 subiu para 4,1%, aproximando-se do teto da meta, de acordo com o último Boletim Focus, do BC. Ao mesmo tempo, a atividade econômica perdeu tração, com crescimento de apenas 0,1% no quarto trimestre de 2025.

A política monetária tende a seguir dependente de dados e do ambiente internacional. O Banco Central indicou que as próximas decisões exigirão “mais evidências” sobre os efeitos do conflito na inflação e na atividade.

A leitura de mercado é de que o espaço para cortes adicionais existe, mas será gradual. Parte relevante das projeções já incorpora um ritmo mais lento de flexibilização, condicionado à estabilização das commodities e à ancoragem das expectativas.

Se o conflito persistir e os preços de energia permanecerem elevados, o ciclo pode ser interrompido antes do previsto. Caso haja estabilização, a tendência é de retomada de cortes ao longo dos próximos trimestres.

Um ciclo dependente da guerra

Para Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos, o Banco Central demonstra maior conforto com a trajetória da inflação, mas segue condicionado ao cenário internacional.

Segundo ele, a continuidade do conflito pode esfriar o plano de cortes mais agressivos, já que tensões no Oriente Médio tendem a pressionar commodities e juros globais.

Por outro lado, uma redução das tensões abriria espaço para convergência da inflação e atração de capital estrangeiro, especialmente em setores como infraestrutura e energia.

A leitura entre analistas é convergente: o ciclo de queda começou, mas perdeu intensidade. O ritmo daqui em diante dependerá menos da atividade doméstica e mais da evolução do conflito — e, principalmente, do comportamento do petróleo.

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