Marciano Testa, novo bilionário brasileiro: fundador da Agibank é natural de Veranópolis (RS) (Itamar Aguiar/Divulgação)
Redação Exame
Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 10h59.
Última atualização em 12 de fevereiro de 2026 às 11h03.
A estreia da fintech Agi Inc. (Agibank) na New York Stock Exchange (NYSE) criou um novo bilionário brasileiro: o fundador Marciano Testa, cuja participação de 63% na empresa passou a valer cerca de US$ 1,1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) após o primeiro dia de negociação.
Na oferta, a companhia levantou US$ 240 milhões ao vender 20 milhões de ações a US$ 12 cada, no piso da faixa de preço revisada, o que levou o valor de mercado a aproximadamente US$ 1,9 bilhão. Mesmo com a forte demanda pelo IPO, o preço final precisou ser ajustado para baixo e os papéis encerraram o pregão com queda de 10% em relação ao valor de abertura.
Apesar da diluição, Testa manteve o controle do negócio. Suas ações são da classe B, com poder de voto ampliado, o que garante cerca de 95% dos direitos de decisão na nova estrutura societária da companhia listada em Nova York. A operação combina uma base de 6,4 milhões de clientes ativos, forte presença em crédito consignado para aposentados do INSS e uma rede de mais de 1.000 smart hubs físicos no país.
Por trás desses números, a trajetória de Marciano Testa e o trabalho no Instituto Caldeira ajudam a explicar como o empresário se posicionou, ao mesmo tempo, como um nome relevante no mercado financeiro e como articulador de um ecossistema de inovação no Rio Grande do Sul.
Marciano nasceu em um povoado de colonização italiana em Veranópolis (RS), região que hoje corresponde ao município de Fagundes Varela. Saiu de casa cedo para trabalhar, primeiro no setor têxtil, e depois no mercado financeiro. Em 1999, aos 23 anos, criou a financeira Agiplan, que chegou a ser o maior distribuidor de crédito consignado do Bradesco antes de dar origem ao banco que hoje está em Wall Street.
Em 2012, ampliou o leque de serviços até transformar a operação em banco em 2016. Em 2020, um aporte de 400 milhões de reais do fundo Vinci Partners ajudou a consolidar o modelo do Agibank como uma mistura de banco tradicional e digital, com forte uso de tecnologia no atendimento aos clientes.
A abertura de capital em Nova York é o capítulo mais recente dessa expansão — e recoloca sob os holofotes um outro projeto que não nasceu no mercado financeiro: o Instituto Caldeira.
Instituto Caldeira, em Porto Alegre: hub de inovação recebe palestras e painéis de debate (Leandro Fonseca/Exame)
O Instituto Caldeira surgiu em um momento em que o Rio Grande do Sul buscava alternativas para diversificar a economia e segurar talentos que migravam para outros estados, sobretudo São Paulo. Por volta de 2018, empresários gaúchos lidavam com os efeitos de uma crise de segurança pública e com a dificuldade de criar um ambiente competitivo para negócios de tecnologia.
“Nós fizemos, naquele momento, duas frentes. Uma de curto prazo para apoiar na segurança pública, que se tornou o Instituto Floresta. E outra, de mais longo prazo, para pensar no futuro do Rio Grande do Sul, e virou o Caldeira”, diz Testa. A proposta era tirar a pauta de inovação do discurso e transformá-la em uma estrutura física capaz de aproximar empresas, universidades e poder público.
O ponto de partida foi convocar as principais universidades gaúchas para um pacto pela inovação e buscar referências internacionais. Um dos modelos estudados foi o distrito de inovação 22@, em Barcelona, usado como inspiração para pensar o desenho urbano e a lógica de ocupação do chamado Quarto Distrito, em Porto Alegre. A partir dali, Testa reuniu 40 empresários para apresentar a ideia de um polo de inovação no estado — encontro que marcaria o início do Caldeira.
O espaço escolhido foi uma antiga fábrica da família de José Galló, das Lojas Renner, com uma caldeira que abastecia a unidade no início dos anos 1900. O cenário descrito à época era tudo menos tecnológico: prédio tomado por pombos e ratos, sem energia elétrica, e um grupo de empresários cético quanto à viabilidade do projeto.
Com o dinheiro dos primeiros investidores, Testa buscou um executivo para tocar o dia a dia. Encontrou o gaúcho Pedro Valério, hoje CEO do espaço, que vinha de experiências com nova economia na plataforma de cursos StarSe, na Opus Entretenimento e na escola sueca de inovação Hyper Island.
A tese do Caldeira era clara: reunir empresas grandes e pequenas, startups e universidades em um mesmo espaço físico, criando um ambiente em que problemas de transformação digital pudessem ser tratados em tempo real com quem desenvolve tecnologia.
Na prática, o instituto opera como um hub de inovação. De um lado, companhias de grande porte — como Gerdau, citada por Testa — buscam soluções para digitalizar processos internos. Do outro, pequenas empresas e startups usam a proximidade com essas corporações para vender serviços, testar produtos e ganhar tração no mercado. Além da convivência diária, o Caldeira estrutura programas de capacitação e apoio a empreendedores iniciantes, com foco em acelerar o desenvolvimento de novos negócios.
Instituto Caldeira, em Porto Alegre: impacto da enchente ainda era visível em julho de 2024 (Leandro Fonseca/Exame)
Quando as enchentes de maio de 2024 atingiram Porto Alegre, o Caldeira saiu do papel de vitrine da inovação para enfrentar um teste de sobrevivência física. Localizado no Quarto Distrito, o prédio ficou com um andar submerso, em um cenário que também atingiu outros símbolos da nova economia gaúcha, como o Cais Mauá, onde é realizado o evento South Summit Brasil.
Cinco meses depois do auge da crise, o quadro era outro. Após um processo intenso de reforma e limpeza, o instituto voltou a funcionar e inaugurou um novo térreo no espaço que havia sido tomado por lama e água. “Muitas startups tinham suas sedes lá, então a gente precisava rapidamente voltar. E eu acho que isso virou um símbolo de resiliência e resistência para o nosso estado”, disse Testa à época.
Em paralelo à enchente, o Caldeira já havia atravessado a pandemia de covid-19, o que exigiu adaptar um espaço pensado para a convivência física a uma operação remota. “Tivemos que provar nossa resiliência desde o início, adaptando rapidamente o funcionamento do instituto para um ambiente remoto”, afirma Testa.
Segundo ele, assim que a água baixou em 2024, a equipe montou um caminho de acesso, levou geradores e reabriu o espaço mesmo sem energia elétrica. O instituto foi um dos primeiros locais da região a retomar as atividades, o que acabou reforçando a imagem do Caldeira como um ponto de apoio para empresas em meio às crises sucessivas vividas pelo estado.
“Nossa missão é educar, reter e atrair talentos, criando um ambiente que respire inovação. Se conseguirmos isso, o Rio Grande do Sul será capaz de se reposicionar como um polo de tecnologia no Brasil”, afirma Testa.