Esporte

Recordes e dívidas: o paradoxo dos clubes brasileiros no ano da Copa

Os 20 maiores clubes acumularam R$ 1,1 bilhão em perdas

Mirassol é considerado um case de sucesso quando pensamos em gestão do futebol (Rapha Marques/Getty Images)

Mirassol é considerado um case de sucesso quando pensamos em gestão do futebol (Rapha Marques/Getty Images)

Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 9 de maio de 2026 às 07h38.

O relatório da consultoria Sports Value revela que os 20 maiores clubes do Brasil atingiram em 2025 o maior patamar de receitas da história: R$ 15 bilhões, frente aos R$ 11 bilhões de 2024, um crescimento de 36%. Mesmo descontando a inflação, o aumento real foi de 25%. Esse salto foi impulsionado principalmente por direitos de TV, transferências de jogadores e marketing, que juntos representaram mais de 80% da receita total.

Principais fontes de receita em 2025:

  • Direitos de TV e premiações: R$ 4,8 bilhões (+44% em relação a 2024).
  • Transferências de atletas: R$ 4 bilhões (+41%).
  • Marketing: R$ 3,2 bilhões (+42%), muito influenciado por contratos com casas de apostas e pelo aporte da Red Bull ao Bragantino.
  • Matchday e bilheteria: R$ 1,2 bilhão.
  • Sócio-torcedor: R$ 950 milhões.

Custos e dívidas: o outro lado da moeda

Segundo a Sports Value, apesar da explosão de receitas, os custos com futebol também bateram recorde: R$ 11,6 bilhões, alta de 30% frente a 2024. Os gastos salariais chegaram a R$ 6,3 bilhões. O resultado foi um déficit conjunto de R$ -1,1 bilhão, embora menor que o de 2024 (R$ -1,67 bi).

As dívidas dos clubes alcançaram R$ 16 bilhões, um crescimento de 32% em apenas um ano. Isso mostra que o aumento de receitas não tem sido suficiente para equilibrar as contas.

Ranking das maiores receitas

Cinco clubes ultrapassaram a barreira de R$ 1 bilhão em receitas:

  • Flamengo: R$ 2,089 bi (+57%).
  • Palmeiras: R$ 1,696 bi (+33%).
  • Botafogo SAF: R$ 1,388 bi (+97%).
  • São Paulo: R$ 1,085 bi (+47%).
  • Fluminense: R$ 1,022 bi (+49%).

O Corinthians foi exceção entre os gigantes, registrando queda de 13% (R$ 971 mi). Já clubes como Fortaleza SAF (+135%), Ceará (+143%) e Mirassol (+203%) tiveram crescimentos percentuais impressionantes, ainda que em patamares menores.

A força das competições internacionais

O relatório da consultoria destaca o impacto das competições internacionais. Flamengo, Fluminense, Palmeiras e Botafogo geraram cerca de R$ 870 milhões em premiações do Mundial de Clubes da FIFA, reforçando a importância da participação brasileira em torneios globais.

Além disso, os clubes brasileiros recebem três vezes mais recursos da Libertadores do que os argentinos, consolidando o Brasil como potência financeira no continente.

Marketing e o papel das SAFs

As receitas de marketing atingiram R$ 3,2 bilhões, impulsionadas por contratos com casas de apostas e pelo aporte da Red Bull ao Bragantino. O relatório também aponta o crescimento do Cruzeiro SAF, que se destacou nesse segmento.

O estudo ressalta que o modelo das SAFs trouxe novos aportes, mas ainda enfrenta o desafio de equilibrar receitas e dívidas.

Déficits persistentes: o calcanhar de Aquiles

Apesar da explosão de receitas em 2025, os déficits continuam sendo um problema estrutural. Os 20 maiores clubes acumularam R$ -1,1 bilhão em perdas, frente a R$ -1,67 bilhão em 2024. Em apenas dois anos, o prejuízo conjunto chega a quase R$ -2,8 bilhões.

Esse quadro é agravado pelo aumento dos custos com futebol, que atingiram R$ 11,6 bilhões, e pelo crescimento das dívidas, que chegaram a R$ 16 bilhões (+32%). Ou seja, mesmo com receitas recordes, os clubes ainda gastam mais do que arrecadam.

O impacto das SAFs

O modelo das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) trouxe novos aportes financeiros e transparência contábil, mas também expôs fragilidades.

  • Cruzeiro SAF e Botafogo SAF tiveram saltos de receita: +82% e +97%, respectivamente.
  • Bahia SAF cresceu 88%, enquanto o Vasco SAF avançou 20%.
  • O Fortaleza SAF e o Ceará registraram aumentos percentuais impressionantes (135% e 143%).

Comparação internacional: Brasil x grandes ligas

O relatório da Sports Value aponta que o Brasil já rivaliza em alguns aspectos com ligas internacionais, mas ainda carece de estrutura organizacional.

  • Receitas da Libertadores: clubes brasileiros recebem três vezes mais que os argentinos, consolidando o país como potência continental.
  • Premiações internacionais: Flamengo, Fluminense, Palmeiras e Botafogo somaram R$ 870 milhões apenas no Mundial de Clubes da FIFA.
  • Mercado doméstico: o Brasil atingiu R$ 15 bilhões em receitas, mas ainda está distante das grandes ligas europeias, que movimentam valores muito superiores.

O relatório sugere que o próximo passo seria a criação de uma liga única nacional, reunindo clubes da Série A e B, para fortalecer a negociação coletiva de direitos e ampliar negócios internacionais, pauta que já está na mesa de discussão dos grandes clubes.

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