José Luiz Franzotti, presidente da Poty, no estádio municipal José Maria de Campos Maia, do Mirassol: patrocinadora master há 18 anos (Deivid Murad/Poty/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 08h12.
Quando o Mirassol estrear no Campeonato Brasileiro neste fim de semana, a camiseta carregará a marca que já está no peito dos jogadores há mais de 15 anos: a das bebidas Poty.
O patrocínio virou símbolo da relação rara entre um time em ascensão meteórica e uma marca regional que se transformou numa potência industrial silenciosa.
A Poty, fundada em Potirendaba, cidade de 18.000 habitantes no interior de São Paulo, faturou 1,1 bilhão de reais em 2025 e se tornou a maior co-packer, empresa terceirista de produção e envase de bebidas, do Brasil.
Agora, se prepara para um novo salto.
Em 2026, a empresa vai inaugurar a maior linha de produção de sua história — com capacidade de triplicar o volume atual de bebidas fabricadas.
O investimento faz parte de uma estratégia para ganhar escala, atender contratos maiores e ampliar o portfólio próprio, ao mesmo tempo em que reforça sua posição como fornecedora de grandes marcas do setor.
Em 2007, o empresário José Luiz Franzotti, CEO da Poty, recebeu um pedido informal para ajudar o time da cidade vizinha.
A Poty fornecia bebidas para a rede de supermercados de Juninho Antunes, hoje gestor do Mirassol. O apoio veio sem cálculo de retorno ou tese sofisticada: era um favor para um parceiro de negócios.
“Era mais gratidão do que estratégia”, afirma Franzotti. “Ele sempre abriu espaço pra gente nos supermercados dele. A gente retribuiu apoiando o clube.”
O gesto, no entanto, virou ativo. O patrocínio foi renovado ano após ano, mesmo quando o time ainda jogava campeonatos regionais e nem aparecia entre as divisões nacionais da CBF.
Em um mercado em que patrocínios mudam a cada temporada, o nome da Poty se tornou constante no uniforme do Mirassol. Já são 18 anos ininterruptos de contrato — um recorde no futebol brasileiro atual.
Com a ascensão do Mirassol, o vínculo ganhou visibilidade nacional.
Em 2025, o clube garantiu vaga na Libertadores e virou símbolo de um futebol competitivo fora do eixo Rio-São Paulo.
Foi nesse cenário que começaram a chegar propostas de casas de apostas — algumas oferecendo até três vezes mais do que o valor pago atualmente pela Poty.
Mesmo assim, o clube recusou. “Parcerias longas podem até não ser comuns nos outros clubes, mas no nosso é”, diz Juninho. “Gratidão é um conceito do Mirassol.”
No último Brasileirão, dos 20 clubes da Série A, só dois não tinham uma bet como patrocinadora master: o Red Bull Bragantino, por decisão do grupo controlador, e o Mirassol. No caso do time paulista, a ausência foi uma escolha: o clube preferiu preservar a parceria de longa data com a Poty.
O patrocínio ao Mirassol não ficou isolado. Aos poucos, Franzotti percebeu que o futebol — e o esporte em geral — poderia ser uma ferramenta para posicionar suas marcas próprias e construir reputação. Hoje, a Poty patrocina mais de 20 clubes, além de equipes de vôlei e basquete, com forte presença no interior paulista.
“Começamos apoiando o Mirassol por uma relação pessoal, mas aos poucos entendemos que o esporte conversa diretamente com valores como família, saúde e convivência”, afirma Franzotti. “Virou o canal natural para dar visibilidade às nossas marcas.”
Entre os exemplos, o Guaraná Poty já apareceu nas camisas de São Paulo e Corinthians. A Levity, linha de água mineral da empresa, é patrocinadora do Santos. A A9, marca premium de água em caixa, foi além: virou patrocinadora oficial do Palmeiras e do Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1.
Essa associação não é só emocional. Segundo José Carlos Brunoro, referência em marketing esportivo e CEO da consultoria Vital, o esporte tem uma capacidade de gerar reconhecimento de marca que muitas vezes supera o marketing tradicional.
“Patrocínio de um time é um ativo institucional. Gera valor emocional e reduz o custo de aquisição de clientes”, afirma Brunoro, que liderou a estratégia da Parmalat no Palmeiras nos anos 1990 — hoje considerada um dos maiores cases de branding via futebol do Brasil.
Com o esporte como principal canal de visibilidade, a Poty encontrou uma forma eficiente e de longo prazo de se diferenciar num mercado de margens apertadas e grandes concorrentes nacionais e internacionais.
Enquanto ganhava espaço no noticiário esportivo, a Poty vivia também sua fase mais intensa de modernização. Em 2024, rompeu a barreira de 1 bilhão de reais em receita. No ano seguinte, saltou para 1,1 bilhão, impulsionada por contratos com grandes marcas e aumento expressivo no volume de produção.
Hoje, a Poty é a maior co-packer de bebidas do Brasil. O modelo de negócio consiste em fabricar e envasar bebidas de terceiros — uma prática que antes era vista com desconfiança por grandes empresas, mas que virou parte das estratégias de eficiência industrial no setor.
“O conceito mudou”, afirma Franzotti. “Antes, grandes marcas não aceitavam produzir fora. Hoje, o co-packer virou parte da estratégia — e nós ganhamos a confiança delas.”
Para dar conta da demanda crescente, a Poty investiu mais de 400 milhões de reais em três anos, aplicados em linhas de produção, automação e rastreabilidade em tempo real. Hoje, a empresa ultrapassa 6 milhões de caixas por mês em volume produzido, com rastreabilidade de ponta a ponta e certificações exigidas por clientes multinacionais.
O próximo passo será ainda mais ambicioso: a empresa está finalizando a instalação da maior linha de sua história, com início de operação previsto para este ano. A nova estrutura poderá triplicar a capacidade atual de produção, abrindo espaço para atender contratos maiores e reforçar o portfólio próprio.
Boa parte da força da Poty vem da estratégia de verticalização. A empresa não se limitou à produção de bebidas: construiu um ecossistema completo, que vai da fabricação de aromas à logística reversa de embalagens.
Na Amazônia, a empresa criou a Sabores Vegetais do Brasil, fábrica de aromas naturais instalada em Manaus. Em parceria com a Embrapa, desenvolveu uma variedade mais resistente de guaraná, cultivada por agricultores familiares da região. O projeto elevou a qualidade da matéria-prima, aumentou a produtividade e gerou impacto social na base da cadeia.
No interior paulista, a frente ambiental é coordenada pela Poty Ambiental, criada em 2008. A empresa atua em 22 municípios, opera 80 ecopontos e já recolheu mais de 23.000 toneladas de garrafas PET, por meio de parcerias locais e ações de logística reversa.
O controle sobre insumos, resíduos e distribuição permite à Poty reduzir custos, garantir qualidade, avançar em certificações ESG e se posicionar de forma competitiva em licitações, canais premium e mercados externos.
Mais do que reduzir dependências, a verticalização se tornou um pilar estratégico num setor cada vez mais pressionado por margens apertadas, volatilidade cambial e custos logísticos crescentes.
A história da Poty não começa em planilhas, mas no esforço de uma família do interior.
Em 1977, os irmãos José Luiz e Humberto Franzotti decidiram comprar uma pequena fábrica de refrigerantes em Potirendaba.
Para isso, venderam a gráfica da família e convenceram os pais a hipotecar a casa onde moravam.
A mudança foi coletiva. Toda a família se mudou para Potirendaba.
O pai buscava lenha para alimentar a caldeira. A mãe, dona Elza, cuidava da casa e da fábrica. A produção era totalmente manual. “Era tudo feito à mão: lavava garrafa, misturava xarope com colher, colocava tampa no pé”, lembra José Luiz.
Nos anos 1980, a empresa recebeu apoio técnico do Ital, o Instituto de Tecnologia de Alimentos de Campinas, e iniciou um processo de profissionalização.
Em 1990, inaugurou seu parque industrial atual — e conseguiu seu primeiro contrato relevante como co-packer da Brahma. O contrato, que durou cinco anos, foi decisivo: ao desativar fábricas, a Brahma ofereceu equipamentos usados em condições facilitadas, como tanques, empilhadeiras e filtros.
Com essa infraestrutura, a Poty elevou o padrão técnico, passou a ser procurada por outras empresas e se consolidou como fornecedora industrial. Em 2025, 65% da produção da empresa foi destinada a clientes terceiros, enquanto o restante é distribuído por marcas próprias.
É essa dualidade — entre o crescimento industrial e a conexão com o esporte regional — que sustenta o modelo da empresa. E que mantém a Poty no centro de um caso raro: o de uma marca do interior que virou gigante com futebol, eficiência industrial e estratégia de longo prazo.