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A matemática é cruel: a cada grau a mais no termômetro, a produtividade na colheita cai 2,1% (yagmradam/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 08h00.
A taça de espumante que você ergue numa celebração pode estar com os dias contados — ou, ao menos, com um gosto bem diferente do que costumava ter. O aquecimento global está redesenhando o mapa mundial da produção de vinhos, e os espumantes estão entre os mais atingidos. Em 2024, a fabricação mundial de vinho caiu ao patamar mais baixo em seis décadas, recuando 4,8% ante 2023.
As informações da Zero Carbon Analytics apontam que o que antes era um setor em expansão — as vendas internacionais de espumantes triplicaram nos últimos 25 anos — agora enfrenta um cenário de incerteza. Após atingir o auge em 2021-2022, tanto o volume quanto o faturamento das exportações começaram a minguar. No ano passado, os preços no mercado externo derreteram 3,7%, e o volume embarcado teve retração discreta de 0,3%.
A Organização Internacional do Vinho aponta o dedo para o principal culpado: o comportamento do clima. Ondas de calor, estiagens prolongadas, tempestades imprevisíveis e geadas fora de época devastaram parreirais na Europa, América do Sul e Austrália.
O estrago varia conforme a geografia. Enquanto Chile e África do Sul conseguiram expandir a produção entre 2023 e 2024, tradicionais produtores europeus como Espanha e França viram suas safras encolherem.
Na Espanha, a seca de 2023 foi tão brutal que certas áreas perderam quase metade das uvas. A recuperação não veio: em 2024, chuvas de granizo e uma onda de frio inesperado repetiram o desastre. O resultado? O cava, espumante típico do país, ficou 20% mais caro no exterior e 10% mais salgado na própria Espanha.
A Itália também sangra. As uvas do prosecco nascem em encostas que, embora perfeitas para a qualidade do fruto, viram armadilhas quando o clima oscila entre enchentes e seca extrema. Números do Reino Unido ilustram o problema: em 2023, os britânicos importaram 10 milhões de quilos a menos de prosecco italiano, pagando 11% a mais por cada quilo.
A França viveu em 2021 seu pesadelo na região de Champagne: a menor colheita desde 1957. Um calor precoce na primavera enganou as videiras, que brotaram cedo demais e foram trucidadas por uma geada tardia. A conta ficou em US$ 2 bilhões de prejuízo.
Mas não é só a quantidade que desaba — a qualidade também está em jogo. Espumantes dependem de um equilíbrio delicado: açúcar, acidez e substâncias como os taninos precisam se desenvolver no ritmo certo durante o amadurecimento da uva.
O calor excessivo bagunça essa equação. As uvas amadurecem depressa demais, acumulam açúcar em excesso e perdem acidez. O vinho fica alcoólico demais, desequilibrado, com aroma de fruta passada em vez do frescor característico dos espumantes. Além disso, o álcool extra prejudica a formação de espuma — ninguém quer um espumante sem borbulhas.
Colher antes da hora também não resolve. Uvas verdes não têm tempo de formar os compostos que dão complexidade ao aroma.
Desde 1980, as regiões vinícolas acumulam quase 100 dias extras por ano com temperaturas acima de 10°C — faixa em que a uva cresce. A colheita foi antecipada em duas ou três semanas comparado a quatro décadas atrás. Em Champagne, a vindima hoje acontece 20 dias antes do que há 30 anos. Até 2003, nenhuma colheita começava em agosto; de lá pra cá, isso já ocorreu oito vezes.
Falta d'água concentra açúcares e taninos, intensificando sabores — às vezes bom, às vezes não. Enchentes abrem a porta para fungos que apodrecem os cachos. A fumaça de incêndios florestais impregna as uvas com sabor de cinza e remédio. No Canadá, parte da produção de 2021 foi descartada por causa desse problema.
Se o aquecimento chegar a 2°C acima dos níveis pré-industriais — e esse teto pode ser furado ainda neste século —, metade das áreas hoje adequadas para vinhedos pode virar terra improdutiva.
Outro levantamento é ainda mais pessimista: 70% das regiões vinícolas atuais correm risco moderado a alto de se tornarem inviáveis após os 2°C. Em 29% delas, fazer vinho de qualidade pode simplesmente virar impossível; em outros 41%, só com adaptações radicais.
O sul da Europa está na linha de frente. Caso o planeta esquente mais de 2°C, nove em cada dez áreas tradicionais de cultivo na costa espanhola, italiana, grega e no sul da Califórnia podem deixar de ser economicamente viáveis até o fim do século. Mudar a produção para latitudes mais altas resolveria menos de 20% do problema.
Vêneto, Friuli-Venezia Giulia e Catalunha — berços do prosecco e do cava — já enfrentam risco moderado com menos de 2°C de aquecimento.
Colher uvas é trabalho braçal feito sob o sol. Com a antecipação das safras e o aumento das temperaturas, os trabalhadores rurais estão expostos a condições cada vez mais perigosas. Muitos operam de madrugada para fugir do calor, enfrentando novos riscos.
Em 2023, quatro colhedores morreram em Champagne por causa do calor anormal.
A matemática é cruel: a cada grau a mais no termômetro, a produtividade cai 2,1%. Quando bate 36°C — comum em várias regiões —, até 27% das horas de trabalho evaporam em pausas para descanso e hidratação.
Incêndios florestais também cobram seu preço. Em Sonoma County, na Califórnia, três quartos dos trabalhadores rurais já labutaram em meio à fumaça. Mais de dois terços relataram dor de cabeça, garganta inflamada e olhos irritados.
Produtores tentam reagir. Alemanha e Reino Unido, antes fora do circuito, já fabricam espumantes. Mas replantar uvas longe de casa não garante o mesmo sabor. O terroir — essa mistura única de solo, clima e tradição — não viaja de mala.
E a cultura? Famílias que cultivam vinho há gerações, técnicas ancestrais, identidade regional — tudo isso evapora se a produção for embora. Criar novos vinhedos também levanta bandeiras vermelhas. Desmatar, ocupar terras agrícolas, gastar água escassa: o meio ambiente paga a conta duas vezes.
Há quem aposte em inovação: uvas geneticamente mais resistentes, cultivos diversificados, irrigação. Mas sistemas de irrigação são caros e inúteis se a seca for severa demais — como aconteceu na África do Sul, onde a água foi racionada.