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Represa Amir Kabir, um dos principais reservatórios que abastecem Teerã, registra níveis historicamente baixos (Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 16 de março de 2026 às 14h15.
Última atualização em 16 de março de 2026 às 14h26.
A guerra que entra na terceira semana no Oriente Médio está revelando uma vulnerabilidade silenciosa da região que vai muito além do petróleo: a escassez de água.
Em uma das áreas mais áridas do planeta, ataques e tensões militares aumentam o risco sobre sistemas de abastecimento já pressionados por décadas de má gestão, crescimento populacional desordenado e o agravamento das mudanças climáticas.
Para Ricardo Assumpção, sócio líder de Sustentabilidade da EY, a escalada do conflito mostra que o recurso natural hídrico é o mais estratégico do século e está cada vez mais no centro das tensões globais.
“Eu tenho batido muito nessa tecla: a água pode desequilibrar a balança geopolítica”, afirma, em entrevista à EXAME.
A pressão sobre o recurso tende a crescer à medida que a população global aumenta e a crise do clima intensifica secas e eventos extremos, ao mesmo tempo que duas das 8 bilhões de pessoas do mundo vivem sob estresse hídrico severo.
Segundo o especialista, a escassez tende a se tornar um fator cada vez mais relevante para economias, governos e a própria segurança internacional. Até porque, há um fator inegável no jogo: a humanidade não sobrevive sem água e diferentemente de outras matérias-primas, ela não pode ser fabricada.
“A água se torna um vetor econômico fortíssimo. Haverá ainda uma guerra pela água. Não é uma situação pontual ou regional, é global", destaca Ricardo.
Embora o conflito recente tenha ampliado os riscos, a crise hídrica no Oriente Médio está longe de ter começado agora. A região já é considerada uma das mais vulneráveis do planeta em disponibilidade de água.
O Golfo concentra apenas cerca de 2% das fontes globais renováveis de água potável, o que obriga muitos países a dependerem fortemente de tecnologias como a dessalinização, um processo que transforma água do mar em água potável e ainda é bastante caro.
No caso do Irã, o problema é estrutural e se arrasta há décadas. No país chove cerca de um terço da média global e, ao longo dos anos, houve um esgotamento das reservas subterrâneas devido a má gestão hídrica historicamente voltada para a agricultura intensiva.
A nível de comparação, o Brasil detém aproximadamente 12% de toda a água doce do mundo e tem na Amazônia seu grande regulador do ciclo das chuvas.
Além da limitação natural, o Irã também enfrentou décadas de exploração intensiva dos recursos hídricos, especialmente para sustentar atividades econômicas que dependem da irrigação.
"O que acontece é que as secas aumentam e eles simplesmente não têm mais de onde tirar água", explica Ricardo. Nos últimos anos, a situação foi agravada pelas estiagens mais frequentes e superexploração de aquíferos, o que levou reservatórios a níveis historicamente baixos.
++ Leia mais: como a guerra no Oriente Médio pode impulsionar energias renováveis?
Em um cenário dramático já pressionado, especialistas destacam que os conflitos armados podem agravar ainda mais a crise.
Segundo Ricardo, a água costuma ser diretamente impactada nas guerras, principalmente por causa da vulnerabilidade da infraestrutura hídrica como o ataque a barragens, estações de tratamento, dutos e redes de distribuição.
"Quando você opera no limite, qualquer risco agrava o cenário", diz o especialista. Nos últimos dias, ataques e ameaças contra usinas de dessalinização elevaram o alerta em todo o Golfo Pérsico.
A tecnologia é responsável por garantir o abastecimento de água em muitos países da região. Segundo o Instituto Francês de Relações Internacionais, 90% da água do Kuwait é garantida apenas pela dessalinização, enquanto 86% em Omã, 70% na Arábia Saudita e 42% nos Emirados Árabes Unidos.
A dependência dessas infraestruturas faz com que elas sejam consideradas "críticas de sobrevivência".
O Bahrein acusou o Irã de atacar diretamente uma usina de dessalinização, enquanto Teerã afirma que um ataque anterior dos Estados Unidos danificou uma instalação de água na ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz.
Também há relatos de que ataques iranianos ao porto de Jebel Ali, em Dubai, tenham ocorrido perto de uma das maiores plantas de dessalinização do mundo.
Analistas alertam que, caso várias dessas instalações sejam atingidas simultaneamente, "cidades inteiras podem se tornar inabitáveis".
Outro fator que amplia o risco é a dependência energética do sistema hídrico. Para que a água chegue às cidades, é necessário bombear e distribuir o recurso por redes de abastecimento, um processo que depende diretamente de energia. Em meio ao choque de petróleo e bloqueio do estreito de Ormuz, a região convive com uma insegurança energética.
No Irã, outro fenômeno também pressiona o sistema: o aumento da migração interna para áreas urbanas, o que sobrecarrega ainda mais a demanda hídrica onde já se opera no limite.
Nesse cenário, a combinação de guerra, infraestrutura vulnerável, escassez natural e mudanças climáticas expõe o tamanho da crise: "O Irã pode entrar em um colapso de água zero”, alerta Ricardo.
Para especialistas, o Irã precisará investir em soluções estruturais para reduzir o risco de escassez.
Uma das principais frentes envolve tornar a agricultura mais eficiente no uso da água. Hoje, grande parte do recurso natural disponível é destinado ao setor agrícola.
Outra alternativa é ampliar o uso da dessalinização. Apesar de ser uma tecnologia cara e intensiva em energia, ela se tornou uma solução importante para regiões com baixa disponibilidade hídrica.
Por outro lado, essas infraestruturas também criam novas dependências: exigem alto consumo energético e podem se tornar alvos estratégicos em momentos de conflito.
"A crise hídrica não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, mas também como uma estratégia central para economias e governos", conclui o líder da EY. Em um mundo cada vez mais quente e populoso, a disputa pela água tende a ganhar peso na política internacional.